Festival de Veneza 2014

Segunda semana em Veneza começa com poesia e sátira a Berlusconi

Neusa Barbosa, de Veneza

 De domingo para cá, a maior criatividade ficou mesmo por conta do documentário italiano Belluscone – Una Storia Italiana (foto ao lado), de Franco Maresco, na seção Horizontes – tradicionalmente reservada a filmes de maior empenho estético e narrativo.
 
Assumindo uma linguagem decididamente satírica e um pouco caótica, o documentário de Maresco faz de conta que é um falso documentário – para no final assumir-se como um verdadeiro documentário, que levanta, com riqueza de detalhes, a ascensão do ex-primeiro ministro Silvio Berlusconi e seu envolvimento com a máfia siciliana, mais especificamente com o chefão Stefano Bontate (já morto), a quem deveria sua carreira e enriquecimento impressionante.
 
Não se trata apenas de realizar uma denúncia que, afinal, a Itália inteira não desconhece. Maresco enfileira no documentário a visceral relação de Berlusconi com a Sicília, como nos arredores de Palermo, em Brancaccio, um de seus mais fieis redutos eleitorais e onde sua imagem não sofreu qualquer abalo, mesmo diante de inúmeros processos e seu afastamento do poder.
 
Para apimentar este retrato, no fundo amargo, ainda que não despido de um ácido senso de humor, o documentarista vale-se do crítico e pesquisador Tati Sanguinetti como seu mestre de cerimônias, recorrendo, igualmente, a uma impagável galeria de personagens rigorosamente reais, como um empresário de artistas ligado a mafiosos, Ciccio Mira, e cantores como Vittorio Ricciardi, popularíssimo por cantar uma música, composta por outro siciliano, Erik, que louva Berlusconi e em que o compositor narra sua admiração e desejo de “jantar com Berlusconi”.
 
Vários trechos documentais, retirados da inacreditável TV aberta italiana – certamente, uma das piores do mundo – completam o filme, que certamente pretende levar italianos de bom senso e cultura a mover-se de sua apatia. Certamente, um dos melhores filmes vistos por aqui e que foi efusivamente aplaudido na sessão da tarde de domingo, na imensa sala Darsena, com 1.400 lugares lotados.
 
 Poesia e II Guerra
Dentro da competição pelo Leão de Ouro, foi visto na manhã de hoje um novo concorrente italiano, o terceiro, bem mais convencional, embora com sua beleza, Il Giovane Favoloso (foto ao lado), de Mario Martone, a cinebiografia do poeta oitocentista Giacomo Leopardi, interpretado por Elio Germano.
 
É sempre um desafio colocar poetas e poesia na tela. Visto em filmes como Meu Irmão é Filho Único, Elio Germano é um ator empenhado e faz o seu melhor, mas não evita que o filme mergulhe numa boa quantidade de clichês e pareça mais uma minissérie educativa para televisão do que outra coisa.
 
Fora da competição, o engajado diretor israelense Amos Gitai compôs um drama sensível sobre o Holocausto em Tsili, em que adapta romance do escritor Aharon Appelfeld. Não é a primeira vez que Gitai toca no tema. Ele já o fez antes, e provavelmente melhor, em Kedma (em que não se esquece do drama dos palestinos, expulsos de suas casas na antiga Palestina dominada pelos britânicos para dar lugar ao Estado de Israel) e também em Plus Tard tu Comprendras, estrelado pela atriz francesa Jeanne Moreau.
 
Sempre preocupado com a linguagem de seus filmes, o cineasta israelense coloca várias atrizes para interpretar o papel da protagonista, sobrepondo feições e idades diferentes dentro do mesmo espectro da vida de uma jovem judia, procurando escapar às perseguições nazistas na Polônia. Algumas das imagens mais eloquentes do filme virão no final, mostrando várias crianças judias e sorridentes na Polônia, poucos meses antes da invasão nazista, material esse colhido no Instituto Iídiche de Nova York.
 
O próprio filme, uma coprodução entre Israel, França, Itália e Rússia, é todo falado em iídiche, por uma opção particular do diretor. “Creio que é o primeiro filme em iídiche lançado nos últimos 70 anos. É uma língua que está desaparecendo”, explicou. Por conta disso, alguns atores do elenco tiveram que aprender o idioma.
 
Mesmo voltando a um tema que já foi tão abordado, Gitai insiste que tudo o que não deseja é “arrastar os sobreviventes do Holocausto para dentro da política atual. Este é o melhor modo de respeitá-los”. Para ele, o assunto “já foi muito politizado e instrumentalizado, tanto pelos israelenses como por outros povos. Não gosto disso”.

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