Festival de Veneza 2014

Diretamente de Veneza, dez títulos para prestar muita atenção

Neusa Barbosa, de Veneza

Na véspera da premiação em Veneza, que acontece neste sábado à noite, independentemente de qual sejam os grandes vencedores, alguns filmes causaram polêmicas e tiveram diversas repercussões, que deverão continuar a ser seguidas, em sua carreira futura, seja em festivais ou mesmo no circuito comercial brasileiro nos próximos meses.
Abaixo, uma lista selecionada de dez desses filmes que cinéfilo nenhum pode dar-se ao luxo de ignorar – e torcer para que os distribuidores fiquem de olho no Brasil:
 
The Postman’s White Nights, de Andrei Konchalovsky
 
O veterano diretor russo de 77 anos, que venceu um Grande Prêmio do Júri em Veneza há 12 anos com Casa dos Loucos, surpreendeu todo mundo com este docudrama cheio de frescor, filmado no norte da Rússia, utilizando-se quase exclusivamente de moradores locais da região próxima ao lago Kenozero. Com assumida inspiração no neorrealismo, Konchalovsky revela a vida cotidiana destes moradores de uma comunidade isolada, reconstituindo seu dia-a-dia sem nenhuma interpretação teatral.  Suas vidas são unidas pela presença de um atencioso carteiro, que costuma trazer notícias, pensões e também apoiar os solitários e os bêbados. Um clima de realismo mágico tempera o filme, que se vale da participação de crianças, da aparição misteriosa de um gato e invoca lendas, como de uma bruxa da água. Mas o míssil que se vê de repente nos ceus numa cena, garante o diretor, é rigorosamente real – perto do lago há mesmo uma base militar de lançamento, o que serve como lembrete de belicosa presença russa na Ucrânia.
 
The Look of Silence, de Joshua Openheimer
O documentarista norte-americano, que teve indicado ao Oscar este ano seu poderoso filme “O Ato de Matar”, renova com a mesma contundência suas denúncias sobre os massacres da ditadura militar da Indonésia nos anos 1970, que custou a vida de 1 milhão de pessoas, usando como guia o irmão de uma dessas vítimas, Adi Rukun, que corajosamente ainda vive naquele país e confronta vários dos implicados naquelas mortes face a face. Nenhuma ficção vista em Veneza teve a mesma potência deste documentário que, com muitos motivos, permaneceu até o fim como um dos favoritos das votações dos críticos à premiação principal deste festival.
 
Retour à Ithaque, de Laurent Cantet
O diretor francês, já vencedor de uma Palma de Ouro em Cannes em 2008 por “Entre os Muros da Escola”, venceu o prêmio de melhor filme da seção paralela Giornate degli Autori em Veneza com este novo trabalho, em que se desloca agora a Cuba para realizar este drama intimista, falado em espanhol e com elenco encabeçado pelo carismático Jorge Perugorría (“Morango e Chocolate”). Partindo dos personagens do romance do escritor Leonardo Padura, “La Novela de mi vida”, Cantet atualiza o registro temporal, criando um rico painel de emoções e de revisão dos mitos pessoais e políticos de cinco amigos em Havana que se reencontram em clima de confissão. Todos na faixa dos 50 anos, confrontam suas diferentes escolhas na vida. Alguns ficaram em Cuba e suportaram diversas provações. Um deles se exilou em Madri, abandonou vários sonhos e agora quer voltar. A distribuidora Imovision adquiriu os direitos para o lançamento do filme no Brasil.
 
Birdman, de Alejandro González Iñárritu
Abriu o festival e ficou na memória até o fim este novo e arriscado trabalho do diretor mexicano, que sai do seu registro belo mas um tanto estetizante de “Amores Brutos” e “21 Gramas” para criar um filme que mistura vários gêneros, dá a chance da vida do ator Michael Keaton para ganhar um Oscar – se ele não for indicado agora, não será nunca mais, porque nenhum papel como este, de um ator que tenta livrar-se da sombra de ter sido intérprete de um super-heroi e outros fantasmas pessoais e profissionais, lhe deu tantas chances de despojar-se da própria imagem e atingir excelência de interpretação. Keaton se desnuda aqui, metafórica e literalmente, já que até caminha de cueca à luz do dia em plena Times Square de Nova York. O bom elenco tem participações de gala de Emma Stone, Edward Norton e Amy Ryan. Distribuído no Brasil pela Fox, tem estreia prevista para janeiro de 2015.
 
Loin des Hommes, de David Oelhoffen
O camaleão Viggo Mortensen deixa de lado a aura do heroi Aragorn de “Senhor dos Aneis” para entrar na pele de um ex-soldado da II Guerra Mundial, nascido na Argélia, que se tornou professor primário e, contra sua vontade, é jogado dentro da luta entre colonialistas franceses e guerrilheiros pró-independência, depois de ser obrigado a encarregar-se de um prisioneiro árabe (Reda Kateb). No minimalismo reside a grande força deste drama político, que focaliza os limites do diálogo entre homens opostos em tempo de violência, sem didatismo.  
 
Anime Nere, de Francesco Munzi
O diretor, de 45 anos, revelou-se uma das melhores esperanças da nova geração do cinema italiano com este drama forte e bastante sombrio, que adapta o romance homônimo de Gioacchino Criaco para desenvolver a crônica da destruição de uma família mafiosa calabresa, os Carbone. Filmado na Calábria e falado em boa parte no dialeto local, o filme extrai uma de suas forças no excelente elenco, encabeçado por Marco Leonardi (de “Cinema Paradiso”).
 
The Humbling, de Barry Levinson
Mesmo fora de competição em Veneza, a nova comédia dramática do veterano diretor vencedor do Oscar por “Rain Man” (1988) foi um grande banho de inteligência e humor, ao não apenas adaptar mas mesmo reinventar, numa chave bem mais cômica, o romance “A Humilhação”, de Philip Roth. Al Pacino e Greta Gerwig estão tão bem como, respectivamente, um velho ator em crise e uma jovem lésbica que se envolvem num romance complicado, que nunca se nota que o filme foi foi feito em estilo de “guerrilha”. Ou seja, filmado em apenas 20 dias, na própria casa de Levinson, em Connecticut, devido ao orçamento enxuto e aos muitos compromissos de seu astro principal. Tanta urgência até ajuda o resultado afinal, dada o alto quilate de todos os envolvidos. Distribuído no Brasil pela California, deve ser lançado em 2015 no país.
 
99 Homes, de Rahmin Bahrani
Mesmo sem ser o melhor filme do festival, o drama do jovem diretor iraniano-americano, protagonizado e produzido pelo atual Homem-Aranha, Andrew Garfield, tem como mérito abordar um dos mais dramáticos problemas contemporâneos dos EUA, a crise das hipotecas, que jogou na rua diversas famílias de classe média. Garfield, que interpreta um pai solteiro despejado de sua casa, vive também um dilema moral, quando se vê obrigado a trabalhar justamente para o especulador imobiliário que o despejou (interpretado, com um toque de loucura, pelo sempre talentoso  Michael Shannon).
 
The president, de Mohsen Makhmalbaf
Com esta fábula sobre o poder, o premiado diretor iraniano, que agora vive fora de seu país por razões políticas, retoma o melhor de sua forma e estilo. Ambientado na Geórgia, o filme descreve a situação de um país não identificado na Europa do Leste, mergulhado em tumultos e violência depois da derrubada de seu eterno ditador (Misha Gomiashvili). O próprio dirigente é obrigado a disfarçar-se para escapar do linchamento, acompanhado de seu neto (o adorável Dachi Gomiashvili, um dos melhores atores infantis de um festival que teve vários destaques entre os atores mirins). Nessa convivência forçada com seu povo pobre e embrutecido, o ex-ditador vai ser forçado a uma reumanização que nada tem de fácil, à maneira dos dramas hollywoodianos.
 
Olive Kitteridge, de Lisa Cholodenko
A nova minissérie da HBO, que deverá chegar à telinha nos EUA no final deste ano, é mais um exemplo de como emissoras a cabo têm sido capazes de produzir roteiros muito mais interessantes e sofisticados do que boa parte da produção atual do cinema. A vencedora do Oscar por “Fargo”, Frances McDormand, é não só a protagonista, como também produtora desta adaptação do romance da escritora Elizabeth Strout, vencedora do Pulitzer. Frances agarra com toda a energia uma personagem bem mais dura do que os vários papeis que interpretou na tela grande, como uma professora de matemática que não raro desmonta seus alunos, casada com o farmacêutico Henry (Richard Jenkins), que vê a vida sob um ângulo mais doce.

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