Festival de Veneza 2014

O Leão de Ouro foi para a Suécia

Neusa Barbosa, de Veneza
 Do júri presidido pelo compositor francês Alexandre Desplat, esperavam-se algumas surpresas, mas afinal saiu-se bem pelo menos nos três prêmios principais. Foi muito justo o Leão de Ouro atribuído ao filme sueco A Pigeon sat on a Branch Reflecting on Existence (foto ao lado), em que o diretor Roy Andersson fechou com chave de ouro a trilogia iniciada com Histórias do Segundo Andar (2000) e Vocês, os Vivos (2007). Como nos outros dois filmes, ele alinhava histórias, fragmentos, personagens, extraindo da alma deles uma estranha poesia, um humor peculiar e um sentido muito particular e crítico da História, e não só da Suécia.
Muitos poderiam preferir o docudrama russo The Postman's White Nights, em que Andrei Konchalovsky apaga a fronteira entre a ficção e o documentário ao filmar a vida de um grupo de camponeses, moradores de um local isolado no norte da Rússia, bem ao lado de uma estação de lançamento de mísseis. O filme de Konchalovsky é um encanto de ver, temperado de realismo mágico, denso de riqueza humana, com atores não profissionais (exceto por uma atriz) revivendo cenas de sua vida. Sem interpretar nada, como garantiu o diretor, que ficou com um merecido Leão de Prata.
 
Mas uma das melhores atitudes deste júri foi mesmo dar o importante Grande Prêmio do Júri ao impactante documentário The Look of Silence (foto ao lado), em que o norte-americano Joshua Oppenheimer aproveita material anteriormente filmado na Indonésia - onde fez seu impressionante filme anterior, indicado ao Oscar de documentário, O Ato de Matar - e onde ele hoje já não pode entrar, por ser "persona non grata". Fácil de entender: Oppenheimer é o mais veemente denunciador dos massacres da ditadura militar indonésia nos anos 1970, que custaram a vida de 1 milhão de pessoas, crime nunca punido.
Neste novo filme, o diretor vale-se da eloquente  presença do irmão de uma dessas vítimas, que se coloca diante de vários desses algozes, sem ódio, mas com firmeza, buscando a verdade, uma possibilidade de resgate ou reconciliação, que se mostra impossível.
 
 Patriotada
Não merecia prêmio algum e levou logo os dois de interpretação o concorrente italiano, filmado em Nova York, Hungry Hearts (foto ao lado), de Saverio Costanzo. O mais estranho, descaradamente patrioteiro, foi para a atriz italiana Alba Rohrwacher, que já concorreu em Veneza várias vezes e merecia ter sido premiada antes, por trabalhos melhores. Esta mãe louca, que quase deixa seu filho bebê morrer de fome, certamente não é um de seus bons momentos.
Além do mais, foi uma injustiça absurda deixar de premiar a veterana protagonista do drama chinês Red Amnesia, a magnética e sutil Lu Zhong.
O norte-americano Adam Driver (Llewyn Davis) ofereceu uma atuação bem melhor em Hungry Hearts, num filme que não era nada bom, de um excesso e exibicionismo tremendos.
Andou melhor a premiação para o ator-revelação, o adolescente francês Romain Paul, que mereceu o Prêmio Marcello Mastroianni como o sensível protagonista do drama de passagem à vida adulta Le Dernier Coup de Marteau, da diretora Alix Delaporte, uma produção que merecia ser lembrada para algum troféu, como roteiro, que acabou ficando para o irregular iraniano Ghesseha, da diretora Rakhshan Banietemad, que enfileira histórias familiares e confrontos de cidadãos comuns com a burocracia estatal.
Outro filme muito irregular, o turco Sivas, do estreante Kaan Müjdeci, levou o Prêmio Especial do Júri. No entanto, ao compor um drama em torno de um menino e um cão, que é explorado num circuito clandestino de lutas - assunto que foi objeto de um curta documental do diretor -, o tema se perde num roteiro frouxo e numa exploração melodramática que, afinal, retira força do que pretende mostrar.
 
Horizontes
Fora da competição principal, uma das premiações mais precisas foi o Prêmio Especial do Júri da seção Horizontes para um dos melhores documentários da programação, Belluscone - Una Storia Siciliana, de Franco Maresco - este sim um filme italiano a premiar e que denuncia a bestialização da vida política e cultural do país a partir da Palermo natal do cineasta, além de relembrar as relações mafiosas do ex-primeiro ministro Silvio Berlusconi.

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