Festival de Paulínia

“Paulo Coelho desperta sentimentos intensos – para o bem e para o mal”, diz roteirista

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

“Paulo Coelho desperta sentimentos intensos – para o bem e para o mal”, diz roteirista
A relação do diretor Daniel Augusto com o escritor Paulo Coelho vem desde sua infância. “Aos quatro anos, eu ganhei o disco Gita, e não parava de ouvir”, disse o cineasta em coletiva no 6th Paulínia Film Festival, em que a cinebiografia de Paulo Coelho, Não pare na pista, foi exibido na noite de abertura.
 
Anos depois, o diretor foi convidado por Carolina Kotscho e Iône de Macêdo para dirigir o filme, que foi roteirizado por Carolina, e traz os irmãos Ravel e Júlio de Andrade no papel de Paulo Coelho, Ravel quando jovem e Júlio na maturidade. Apesar de uma recente biografia do escritor (O Mago, escrita por Fernando Morais,  publicada em 2008), a roteirista conta que fez um projeto do zero. “O próprio Paulo queria coisas distintas. Fiz várias entrevistas com ele e comecei a escrever um roteiro”.
 
O diretor também manteve alguns encontros do o escritor, que tentou não se envolver muito com o filme. “Tivemos uma primeira reunião, que durou dez horas, e o Júlio também estava presente. Depois uma outra, quando terminamos as filmagens em Santiago de Compostela (Espanha). Eu até o convidei para visitar o set, mas ele acabou recusando. E, finalmente, com o filme pronto. Paulo ficou extremamente emocionado. Percebi que ele estava sentindo algo que não sabia nomear”.
 
“O Paulo Coelho desperta sentimentos intensos – para o bem e para o mal”, disse a roteirista e produtora Carolina, quando perguntada sobre o preconceito que o filme poderia enfrentar – especialmente no Brasil – pela figura controversa do escritor. “Mas ele tem fãs em todos os cantos do mundo. Viajei com ele por diversos países e, numa praia deserta, aparece uma mulher chorando, dizendo que um livro dele mudou a vida dela”, conta.
 
Raul Seixas
Um dos principais momentos do filme retrata a relação de Paulo com o cantor Raul Seixas – interpretado pelo baiano Lucci Ferreira. O músico nem aparece muito no filme, mas marca grandes mudanças na vida do protagonista, que, na época editava uma revista sobre ufologia e aspirava a ser escritor. “A função do Raul no filme é mostrar que ele ensinou ao Paulo como escrever de forma simples. Antes, seus textos eram muito prolixos. Além disso, como mostra o longa, a relação deles terminou com Raul dizendo na TV que Gita era uma música só dele. Isso decepcionou muito o Paulo”, explica Carolina.
 
Apesar deste estremecimento entre os dois, não houve qualquer restrição por parte dos herdeiros de Seixas para o uso de sua imagem e de músicas compostas por ele e Paulo no filme. Segundo a produtora Iône, o custo desse uso também foi relativamente baixo, não chegando a 5% do orçamento total da produção, estimado por ela em R$ 12,5 milhões.
 
Essa não foi a única condensação do filme: as várias mulheres com quem o escritor se relacionou são representadas pela personagem da espanhola Paz Vega, e os relacionamentos dele com outros homens se resumem a um beijo discreto num ator.
 
O filme é uma coprodução Brasil e Espanha, o que, conforme explica a produtora Iône, isso ajuda a colocar o longa no mercado europeu. “A prioridade lá são filmes do continente e coproduções. Depois vêm os filmes de fora – e, nesse sentido, os americanos são os primeiros da lista. Um filme exclusivamente brasileiro enfrenta muita dificuldade para ser exibido por lá”. Além disso, ela aponta que uma recente parceria com um agente de vendas estrangeiro facilitará a negociação em diversos países. “Tínhamos ofertas dos mais diversos países, como Rússia e Austrália. Não queríamos negociar individualmente, agora a venda está concentrada”.
 
No Brasil, o filme está previsto para estrear no próximo dia 14 de agosto, em cerca de 300 salas.
 
Literatura
Sobre a literatura de Paulo Coelho, o cineasta foi cauteloso. Apesar de ter lido alguns livros dele, ele acredita que seria leviano emitir uma opinião, sem aplicar a eles um método mais rigoroso de análise de sua estrutura – aliás, como ele mesmo fez em sua dissertação de mestrado sobre um único conto de Guimarães Rosa. 

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