Festival de Paulínia

"Sinfonia da necrópole" anima competição em Paulínia

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
"Sinfonia da necrópole" anima competição em Paulínia
Bertolt Brecht, Kurt Weill, filmes da Disney e um cemitério – essa é a combinação exótica  que, segundo a diretora e roteirista Juliana Rojas, dá tom ao seu novo filme Sinfonia da Necrópole (foto), exibido em competição no Festival de Paulínia. Aliás, é bom também lembrar que se trata de um musical.
 
No começo da tarde desta quinta (24), durante um debate com a imprensa e o público, a cineasta explicou que todas essas influências vêm da sua formação – não apenas acadêmica, cultural, como também dos filmes infantis e de terror que via na infância e adolescência. “Há também uma relação lúdica, além do lado social do filme”. Esse lado social está diretamente ligado ao teatro épico da dupla Bertolt Brecht e Kurt Weill – responsáveis por peças como A ópera dos três vinténs.
 
O filme combina questões sociais – como precarização do trabalho e especulação imobiliária – e  materializa isso dentro de um cemitério em São Paulo, onde antigos túmulos estão sendo relocados para abrir espaço para novos jazigos verticais. Enfim, elementos comuns também na “vida do lado de fora do cemitério”.

Deodato (Eduardo Gomes) é um jovem aprendiz de coveiro (e ex-plantador de couves), que se sente mal toda vez que vê um enterro. Com a chegada de Jacqueline (Luciana Paes), funcionária da prefeitura responsável pela reestruturação do cemitério, sua rotina muda, e ele passa a assessorá-la na catalogação dos jazigos.
 
Se o ponto de partida soa mórbido, Juliana imprime uma leveza, e como ela mesma diz, algo de lúdico sobre essa trama inusitada. “Lidar com o desconhecido é lidar com questões existenciais, questões da vida”, diz a diretora, referindo-se à morte, tema comum em seus curtas, como Lençol Branco e no longa Trabalhar Cansa, ambos codirigidos por Marco Dutra. Sinfonia da Necrópole é o primeiro longa que Juliana dirigiu sozinha. “Ainda assim, o Marco, como todo o pessoal do Filmes do Caixote [um coletivo do qual a dupla faz parte] participa de várias formas. Ele, por exemplo, compôs a melodia das canções e escreveu a letra de uma delas”.
 
Toque de humor
 
Juliana também explica que o humor é fundamental para ela num filme. “Como na vida, nada é uma coisa só. Acho importante que um filme não se leve a sério demais. É preciso usar de forma equilibrada drama, terror e humor”. Rótulos, aliás, são algo que não lhe agradam muito. “As pessoas têm necessidade de classificar as coisas. E quando algo não se encaixa, acaba gerando estranhamento. Às vezes para o bem, outras, não”.
 
Produzido por Max Eluard, o filme custou menos de R$ 1 milhão e foi rodado em 21 dias, algo raro para um longa – especialmente um musical que foi filmado em sete cemitérios na capital e em Santana do Paranaíba.  “Tivemos muita dificuldade em conseguir as autorizações para filmar nos lugares. Ficamos meses negociando, criando uma relação de amizade com o departamento responsável. Quando estávamos às vésperas de filmar, houve a troca de gestão [saiu Gilberto Kassab, entrou Fernando Haddad], e tivemos de começar tudo de novo”. A cinco dias das filmagens, Juliana e Eluard receberam uma autorização para filmar por apenas três dias no cemitério da Consolação. Se “não houvesse reclamações”, poderiam concluir o trabalho. Aí, deu tudo certo.
 
Juliana conta que tentou usar as limitações em seu favor. “Precisávamos buscar soluções para os obstáculos, adaptar o filme às condições que tínhamos. Fizemos muito planejamento.” Um dos números musicais mais longos e complexos do filme (envolvendo mortos que se levantam do túmulo) teve de ser filmado em apenas uma noite. As dificuldades foram sendo superadas pela diretora e sua equipe, tanto que, segundo ela, nenhuma cena que fora planejada ficou de fora.
 
A atriz Luciana Paes, que vem do teatro – embora tenha feito já alguns curtas, como o premiado A mão que afaga, de Gabriela Amaral Almeida - confessa que tudo a assustou quando foi fazer o filme. “Era tudo novidade para mim, eu só tinha feito curtas, e chegando aqui ia ter de cantar, dançar atuar. No teatro, pelo menos, você regula a atuação, conforme o público os outros atores em cena. No cinema, você é muito dependente do diretor para encontrar o tom”. Inclusive, ela nunca tinha cantado no cinema, apenas em peças. Ela faz parte da Companhia Hiato.
 
Já o ator Eduardo Gomes é um habituê nos filmes do Caixote, até agora, sempre em pequenos papeis. Por isso, muitos amigos diziam que nunca ia conseguir atuar como protagonista. “Mas acho que deu certo. Agora consegui um grande papel”, comemora.
 
Sinfonia da Necrópole ainda não tem previsão de estreia comercial – mas, com seus números musicais (como um balé de mortos e uma dança de coveiros com suas pás) é um sério candidato a filme cult, e um dos melhores do ano, candidato sério a premiações em Paulínia.
 
Documentário no mundo musical brega
Murilo Salles tematizou o empreendedorismo da nova classe média brasileira no documentário Aprendi a jogar com você, que focaliza um ex-DJ, Duda, e sua mulher, a cantora Milka. O filme capta o momento de transição do DJ, que fez muito sucesso e ganhou muito dinheiro num eixo em torno de Brasília, mas está se tornando empresário de músicos.
 
Vários subtemas perpassam o filme de Salles, diretor de documentários como Todos os Corações do Mundo (95) e ficções viscerais no enfoque social no cinema brasileiro, como Nunca Fomos Tão Felizes (84), Faca de Dois Gumes (89) e Como Nascem os Anjos (96). Entre esses temas, o vigor do mundo subterrâneo da música brega, a que agita públicos populares num circuito alternativo de bailes, bares e salões, de onde tiram sua sobrevivência, sem garantias trabalhistas, músicos, cantores e empresários.
 
Um problema é que essa variedade de assuntos, de abordagem tão oportuna por revelar uma realidade que está acontecendo diante de nossos olhos, ainda que nem todos notem, não pode se esgotar, nem ser sintetizada devidamente, a partir de um único personagem. Por mais carismático que o personagem inegavelmente seja, há momentos em que se sente que se esgotou o que sua vida tem a mostrar. Situações se repetem e, visível e assumidamente (o próprio Duda e o diretor comentaram isto na coletiva do filme, hoje pela manhã), Duda está, em vários momentos, representando para a câmera – ou seja, exagerando alguma atitude que eventualmente ele assumiria mesmo, só para “ajudar o conteúdo” do filme, cujo potencial de divulgação para seu trabalho ele também não ignora.
 
Da mesma maneira, a diversidade de recursos de divulgação manejados por Duda no circuito em torno de Brasília deve ser aproveitada pelo distribuidor do filme, Marco Aurélio Marcondes, quando ocorrer o lançamento do documentário em Brasília. Ou seja, folhetos, cartazes, internet, carros de som, fora o próprio gogó, tudo isso que Duda vem usando para divulgar os shows dos artistas que representa. 

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