Festival de Paulínia

Drama nordestino e comédia dramática carioca encerram competição em Paulínia

Alysson Oliveira
Fato raro no 6th Paulínia Film Festival, na sessão de sábado à noite: o ator Irandhir Santos foi aplaudido em cena aberta durante a exibição de A história da eternidade, de Camilo Cavalcante. “Ele mergulha e cria junto. É um trabalho emocionante fazer um filme com ele”, explica o cineasta sobre a relação com o ator, que não pode vir à sessão. “A partir da escolha do elenco já se cria uma cumplicidade. E não acredito em grito dentro do set”.
 
Situado no sertão nordestino, este é o primeiro longa de Cavalcante, que vem de uma premiada carreira como curtametragista (O velho, o mar e o lago, A história da eternidade). “Queria retratar um Nordeste diferente deste que a gente vê no cinema e na televisão, que é o do litoral. Situei a trama e filmei numa região do interior, onde o único meio de comunicação é o orelhão que aparece em cena”. Para ele, o milagre econômico do Nordeste é uma farsa. “Comer sushi no sertão não é sinônimo de desenvolvimento”.
 
Por outro lado, Cavalcante sabe que seu filme é universal: “O sertão que a gente aborda é uma metáfora da alma humana”. Por isso, não é de se estranhar a presença da violência em cena: “"Ela existe em todo lugar, faz parte do comportamento. Estamos falando de ciúme, algo bíblico”.
 
O roteiro original tinha quase 200 páginas, e não é apenas uma expansão do curta homônimo do cineasta. "O longa é mais narrativo e nasceu do processo de feitura do outro filme. Eu tinha necessidade de falar da vida e da morte, mas não queria criar estereótipos, mas arquétipos”.
 
Apesar de ser fã de Krzysztof Kieślowski, e trazer trilha de Zbigniew Preisner (parceiro do diretor polonês no Decálogo, entre outros), Cavalcante confessa que não queria trazer para a tela um sertão kieslowskiano. "Tem muito de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos no meu filme.” A opção de Preisner é um pouco o reflexo de um sonho de adolescente. E também a busca por uma melancolia que completa o filme”. A trilha também conta com composições inéditas de Dominguinhos, que, segundo o diretor, são alguns dos últimos trabalhos do sanfoneiro, morto no ano passado. “A música é um personagem. E a sanfona, dentro do filme, é algo muito especial, assim como a forma como o músico cego tem para se expressar”. A trilha ainda inclui Secos e Molhados, e a banda paulistana Pholhas, que fez sucesso nos anos de 1970 e 1980.
 
Pessoal sem ser peculiar
 
Ao definir seu mais novo trabalho, Infância, o veterano cineasta e dramaturgo carioca Domingos Oliveira o classificou como "um filme pessoal sem querer ser peculiar”. “Pretendia falar das pessoas de classe média que fazem cinema, mas raramente falam de si mesmas”, explicou em debate com jornalistas e o público no começo da tarde de domingo.
 
Último longa a ser exibido na competição no festival, o filme é protagonizado por Fernanda Montenegro, que estava presente para apresentar a sessão no sábado, e o estreante Raul Guaraná, que encarna um pequeno alter ego do cineasta. Ao longo de quase duas horas o enredo acompanha momentos na vida de uma família da aristocracia carioca, nos anos de 1950, enquanto a avó, D. Mocinha, espera o pronunciamento de Carlos Lacerda no rádio.
 
A produtora e atriz Renata Paschoal informa que esse foi o longa com maior orçamento do diretor: R$ 2 milhões. “É muito, se comparado com as cifras anteriores – na casa dos R$ 100 mil – mas ainda é pouco, em relação às produções que vemos hoje em dia. Mas, no fim, pudemos fazer com um certo conforto”.
 
Oliveira confessou ser muito simpatizante com filmes de baixo orçamento. “Os produtores e distribuidores estão descobrindo que o cinema brasileiro pode dar dinheiro”.
 
Baseado numa peça do começo dos anos de 1980 – com uma remontagem recente, na qual o próprio Domingos fazia o papel da avó – Infância é uma combinação das memórias do diretor. Ao vê-lo, o cineasta confessa que mudou a visão que tinha de sua família. “Essas figuras, minha avó, meus pais, nunca me foram tão claras. Deixou de ser a história de minha mãe possessiva, para ser a história de uma família”.
 
Além de Fernanda e do pequeno Raul, o elenco ainda conta com Priscilla Rozenbaum, mulher do diretor, e seu irmão, José Roberto Oliveira, advogado que descobriu a atuação aos 64 anos, depois de terminar um casamento de três décadas. A filha do diretor, a atriz Maria Mariana, não está no filme, mas participou da coletiva, e disse que em Infância pode redescobrir os seus antepassados. “Estou fazendo uma terapia que envolve a pesquisa da minha árvore genealógica, e tenho encontrado muito sobre a história dos meus familiares, que também é a minha. Meu pai sempre disse que se eu olhasse bem a fundo dentro de mim, veria a história da humanidade”.

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