Cannes 2014

Comédia argentina sacode o formalismo de Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – Mais três concorrentes à Palma de Ouro, cada um com um perfil – o turco Winter Sleep, do já premiado aqui (não com o prêmio máximo) Nuri Bilge Ceylan, o francês Saint Laurent, de Bertrand Bonello, e o hispano-argentino Relatos Salvajes, de Damián Szifron. Cannes 2014 parece o próprio retrato da diversidade, contraditoriamente apoiado numa esmagadora maioria de nomes consagrados.

Uma exceção é justamente o diretor argentino Damián Szifron, que sacudiu a seriedade da competição com uma comédia corrosiva, Relatos Salvajes (foto), coproduzida pela El Deseo dos irmãos Pedro e Agustín Almodóvar.

Em seis histórias, o diretor-roteirista (criador da série de TV Los Simuladores) encena situações-limite, ancoradas no mais rasgado humor negro. Começa com uma série de pessoas que se encontram no mesmo avião, apenas para descobrir que todas estão, de algum modo, envolvidas com um certo Gabriel Pasternak e que a reunião de todos eles envolve um plano que pode não ser nada bom para a saúde geral. Outra história acompanha o alucinado duelo entre dois motoristas, um de um carro velho e acabado, outro de um modelo esportivo de último tipo, que, a partir de uma negativa de ultrapassagem do primeiro, iniciam um duelo de violência crescente e alucinada.

Se há um certo nonsense nesta violência explícita, à la Tarantino, não se deixa de perceber, igualmente, um tom de crítica social ácida, como no episódio em que o onipresente Ricardo Darín encarna um engenheiro especializado em implosões que surta diante dos repetidos guinchamentos e multas a seu carro, o que o levará a uma reação literalmente explosiva – o que lhe garantirá o apelido de “engenheiro Bombita”.

O último episódio envolve um casamento rico que se tornará a cada minuto a festa mais imprevisível que já se viu. A noiva, Romita (Erika Rivas), é um primor de timing cômico, e a líder de um implacável e insano desmonte de aparências. Bem razão tem o diretor do festival, Thierry Frémaux, que disse à Variety que este era um filme “muito único e pessoal que deveria acordar a Croisette”. Foi isso mesmo o que aconteceu na sessão de imprensa de sexta à noite, com a maioria dos críticos gargalhando. Riu mais quem entendia a língua, com expressões impagáveis. Agora, o júri de Cannes vai premiar uma comédia? A conferir, porque o filme tem energia e originalidade para isso.

Paisagens e teatro

Conhecido por seus mergulhos visuais e  estéticos, o diretor turco Nuri Bilge Ceylan ofereceu um espetáculo até certo ponto distinto em Winter Sleep. Como em Aconteceu em Anatólia, ele se volta à região da Capadócia, ao interior da Turquia, em que casas encrustadas em rochas, quase cavernas, oferecem um cenário original a uma série de tramas que se desenvolvem teatralmente, como segmentos de uma, ou mais, grandes peças.

Os personagens, como no palco, se degladiam em torno de conflitos básicos – familiares, econômicos -, tendo a seu dispor diálogos longos, em que repassam não só as próprias emoções, mas o próprio sentido de seus relacionamentos e da vida mesma. Não raro, as palavras soam poéticas, filosóficas, como num filme de Éric Rohmer.

Não por acaso, o protagonista, o ator aposentado e hoteleiro Aydin (Haluk Bilginer), está neste momento pensando em escrever uma grande história do teatro turco – que ele nunca começa. O que se passa em suas conversas com a mulher Nihal (Melisa Sözen) – de quem ele se distanciou -, a irmã divorciada, Necla (Demet Akbag), o imã Hamdi (Serhat Kiliç), o inquilino em atraso Ismail (Nejat Isler) e outros percorre esse grande teatro, evocando situações de luta de classes, conflitos familiares, religiosos, dominação, rebeldia, sentimento de fracasso.

Não existe aqui a mesma beleza visual de Aconteceu em Anatólia, nem o fecho num único acontecimento dramático que condicionava todos os demais. Por isso, o envolvimento do espectador com Winter Sleep, que igualmente dura mais de três horas, deve ser mais difícil, porque depende de um mergulho num universo mais fragmentado, de palavras, basicamente – em termos de cenários, trata-se de um filme mais claustrofóbico, o que está em total sintonia com uma pegada mais intimista, mais intelectual.

O que esteve em total desacordo com a necessidade de um clima adequado à contemplação foi a enorme confusão que cercou a primeira sessão do filme turco. Como este não teve sessão exclusiva para a imprensa – o que contraria os padrões de Cannes -, os jornalistas tiveram que assistir à sessão oficial, do tapete vermelho, que foi às 15 horas.  Com a confusão, causada pelo excesso de convidados e manejo inadequado por parte da segurança da sala, vários jornalistas credenciados ficaram de fora – embora tivessem chegado com a antecedência requerida.

Por conta disso, esperava-se que a nova sessão do filme, prevista para hoje às 14h15, fosse palco de novos tumultos, ainda mais porque será em sala menor. Como se vê, falhas de organização ocorrem mesmo num festival antigo e cheio de protocolos rígidos, como este.

Cinebiografia 2

Autor da segunda cinebiografia sobre o renomado estilista francês Yves Saint Laurent lançada este ano (a primeira foi a de Jalil Lespert), Bertrand Bonello (L’Apollonide) conseguiu, em Saint Laurent, fixar parte da enorme contradição em que vivia o artista, contrapondo os bastidores de uma vida atormentada, regada por excessos de bebida, drogas e sexo (embora o filme não seja explícito neste aspecto) e o esforço e o glamour da criação de seus impecáveis modelos, a organização dos desfiles, a fama, a fortuna.

Bonello faz um bom registro de época, inserindo Yves (Gaspard Ulliel) no seu contexto de baladas sem fim ao mesmo tempo em que ocorria maio de 1968, guerras e todo tipo de agitação social e política, na França ou fora dela. Mas também se encanta demais com seu objeto e abusa da duração do filme – 2h30 são demais.

A primeira metade é pior do que a segunda, o que retira energia do resultado final, que soa redundante. Mas está longe de ser mau o filme, que discute a mudança de perfil da moda e dos estilistas. Como numa fala em que se menciona Jean-Paul Gaultier e sua afinidade com o mundo dos quadrinhos, enquanto Saint Laurent era um produto da alta cultura, embebido em ópera, Proust e Mondrian, o que se traduzia em seus modelos.


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