Cannes 2014

Cannes investiga o feminino em dois candidatos à Palma de Ouro

Neusa Barbosa, de Cannes
 Cannes – Em seu primeiro final de semana, a competição em Cannes enfileirou dois filmes com fortes personagens femininos todos eles, por isso, credenciando várias intérpretes ao prêmio feminino de atriz. Foi o caso do concorrente italiano Le Meraviglie (assista ao trailer), dirigido por Alice Rohrwacher, e do candidato norte-americano The Homesman (assista ao trailer), em que Tommy Lee Jones acumula mais uma vez as funções de ator e diretor, à frente de um faroeste ambientado no Nebraska.
As várias atrizes que compõem o elenco de The Homesman (foto ao lado), como Hilary Swank, Miranda Otto e Meryl Streep (esta numa pequeníssima ponta) não têm do que reclamar, pois estrelam um faroeste que pode sem nenhum exagero ser considerado feminista. Adaptando romance homônimo de Glendon Swarthout, o enredo decola a partir da inusitada missão de uma jovem solteirona, Mary Bee Cuddy (Hilary Swank), que aceita deixar para trás sua casa e negócios para levar três mulheres enlouquecidas até um novo refúgio, do outro lado do rio Mississippi. Para acompanhá-la, não encontra mais do que um renegado vagabundo, George Briggs (Tommy Lee Jones), que só está interessado no dinheiro que vai receber no fim.
Neste cenário, o que é original, em termos do ambiente masculino do faroeste, é que a história se interesse em retratar o imenso jugo imposto às mulheres na abertura das fronteiras do velho Oeste. Ou seja, um sem-fim de tarefas duras fisicamente, no meio do nada e as imposições de uma sexualidade sem qualquer delicadeza e da maternidade em série. É esta a razão da loucura das três mulheres (Miranda Otto, Sonja Richter e Grace Gummer). E, para o diretor Tommy Lee Jones, aí estão as raízes da opressão à condição feminina que sobrevivem ainda hoje, como ele declarou no material de imprensa do filme.
 
Heroínas doces
A protagonista, Mary Bee, também é uma personagem inusual. Solteira aos 31 anos – naquele século 19, uma idade avançada para alguém que ainda pretende casar-se - , ela é independente financeiramente, valente, decidida. E toma a iniciativa, propondo casamento a alguns homens, que invariavelmente declinam, por considerarem-na “muito mandona”. Esse perfil evolui para dar origem a uma mulher complexa que, num determinado momento, oferece a grande surpresa do filme.
Desenhando com segurança estas personagens complexas, The Homesman pinta um retrato duro e não muito heroico deste passado norte-americano, tornado épico nos filmes de John Wayne. Os índios que aparecem aqui, se não são mais vilanizados, são colocados numa perspectiva humana, em pé de igualdade em suas escolhas e excessos com os brancos que disputam suas terras. The Homesman é um bom drama humanista.
 
 No drama Le Meraviglie – uma coprodução entre Itália e Alemanha -, desenrola-se o retrato delicado e não muito previsível de uma família um tanto fora do comum. O clã, formado pelos pais, quatro filhas e uma cunhada, mantém uma fazenda de produção de mel.
É um ambiente muito feminino, por mais que a figura do pai (Sam Louvyk) seja forte e corrosiva. A figura feminina predominante nem é a mãe (Alba Rohrwacher, irmã da diretora), e sim a filha mais velha de 13 anos, Gelsomina (Maria Alexandra Lungu). A menina conduz o negócio e a vida familiar, aparando as arestas entre o pai e a mãe, sempre prontos a explodir, cuidando das três irmãs menores. A tia (Sabine Timoteo) não é de grande ajuda. Eles vivem na Umbria, numa zona fronteiriça, perto da Alemanha. A família também é mista, alemã por parte do pai, italiana, da mãe.
O ponto de vista da história é o de Gelsomina, que está crescendo, virando adolescente e mirando num futuro além do sítio atrasado, do provincianismo, do machismo também. O pai ainda a enxerga como criança, querendo satisfazer um sonho antigo dela – um camelo -, o que destoa de qualquer senso de realidade.
O sonho de Gelsomina é entrar num concurso que premiará com dinheiro o melhor agronegócio da região, organizado por um programa chamado “Le Meraviglie” (as maravilhas). Monica Bellucci faz o papel da hostess do programa, Milly Catena, que aparece sempre fantasiada como uma espécie de fada, parodiando a irrealidade exibicionista e cafona da mídia, que colocará os concorrentes, fazendeiros, vestidos como pastores da Idade Média no programa final que definirá o vencedor.
Este sim é um filme com várias camadas, que não reluta em correr riscos para seguir esta família em tumulto interno, ameaçada de romper-se a cada momento, recompondo-se através do hábito e do afeto. Le Meraviglie é um filme sutil que, como sua protagonista, uma atriz natural, diz muito mais do que parece à primeira vista.
 
 De homens e cães
Na seção Un Certain Regard, causou impacto o concorrente húngaro White God (assista ao trailer), de Kornél Mundruczó, que configura uma fábula, com toques de vários gêneros – terror inclusive – para narrar a saga de uma menina de 12 anos, Lili (Zsófia Psotta) e seu cão, Hagen.
 Com toques de Caninos Brancos, de Jack London, o filme se estrutura a partir da saga do cão, separado de sua dona, jogado às ruas e explorado por diversos homens, inclusive um que o torna uma besta de luta. Enquanto isso, Lili luta para reencontrá-lo.
Hagen, segundo o material de imprensa, simboliza os renegados, os discriminados, os explorados. Colocar essas figuras da sociedade sob a forma de cães – porque, num determinado momento, Hagen vai liderar uma rebelião canina – é uma forma de impactar emocionalmente o espectador. Afinal, todos ou quase todos gostam dos cães e torcem por eles.
Nada disso impede que o filme tenha um ou outro momento trash, mas que não invalida a força da história. White God foi entusiasticamente aplaudido em sua sessão do sábado à tarde. Não faltou quem estivesse debulhado em lágrimas.
Justiça seja feita – há, em algumas sequências, nada menos de 250 cães em cena em ruas de Budapeste, o que exigiu uma logística admirável e gerou as melhores partes do filme, inclusive a bela cena final.
 
 El ardor
Fora de competição, o filme argentino El Ardor, de Pablo Fendriks, reuniu o mexicano Gael García Bernal – jurado aqui este ano – e os brasileiros Alice Braga e Chico Díaz num drama com toques fantásticos em torno da luta pela terra.
Chico Díaz é Antonio, dono de uma fazenda cobiçada por grileiros. Vive ali com a filha Vania (Alice Braga) e um agregado, até que chega o índio Kaí (Gael García Bernal), que se propõe a ajudá-los a defender a terra dos homens armados que não páram de chegar.
O confronto é violento e dispersa o grupo. Gael esconde-se na floresta – e ali realiza seus rituais, conhecendo as ervas e mantendo distância da onça pintada que assombra o local. Mas é ele também o herói de ação que enfrenta o bando armado para resgatar Vania e voltar à fazenda onde, aí sim, os espera um impressionante confronto final sob fumaça, com direito a momento de duelo de faroeste.

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