Cannes 2014

O poder da sátira, da imaginação e da cinebiografia em Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – Se está difícil de achar temas predominantes na seleção deste variado 67º festival, algumas tendências se esboçam. Uma delas, a procura de acender a imaginação do espectador, recorrendo a fantasias de todo tipo, como se viu no concorrente à Palma de Ouro, Maps to the Stars, do canadense David Cronenberg, e no candidato da seção Un Certain Regard, o argentino Jauja, de Lisandro Alonso.
Outro concorrente à Palma, visto nesta manhã de segunda (19), o norte-americano Foxcatcher (foto) [assista ao trailer], de Bennett Miller (Moneyball, Capote), recorreu à inspiração em fatos reais para reconstituir o incrível drama dos irmãos Schulz, medalhistas olímpicos em luta nos anos 80, e sua trágica associação com o milionário John Du Pont, que acabou matando um deles.
O fato de ser verídico não torna o enredo de Foxcatcher menos incrível – bem ao contrário. Herdeiro da família milionária cuja fortuna veio das indústrias bélica e química, John Du Pont, interpretado com brilho pelo comediante Steve Carrell, era o que se pode chamar de um caráter sinistro. Com diversas questões pessoais, psicológicas e familiares, inclusive uma relação peculiar com a mãe (Vanessa Redgrave), o milionário era um apaixonado por luta. Por isso, tornou-se mentor e patrocinador do jovem Mark Schulz (Channing Tatum), que já tinha uma medalha de ouro olímpico.
A relação entre os dois, no entanto, passou disso, tornando-se viciosa, especialmente para Mark – uma figura frágil e dependente do irmão mais velho, e seu treinador, David (Mark Ruffalo).
Os altos e baixos no relacionamento entre estes três homens são habilmente explorados pelo roteiro de Kristin Gore, E. Max Frye e Dan Futterman, tornando o drama um forte candidato em várias categorias no próximo Oscar. E também a algumas premiações por aqui, especialmente porque Foxcatcher é muito mais do que um “filme de luta”, como se poderia pensar à primeira vista.
 
 Autópsia de Hollywood
Muitos filmes exploraram os bastidores de Hollywood, o lado escuro do mundo de fama, glamour e entretenimento, mas poucos foram tão longe quanto Maps to the Stars (foto) [assista ao trailer] em que o cineasta canadense David Cronenberg parte de um roteiro  de Bruce Wagner.
Desenvolvido ao longo de cerca de 20 anos, o roteiro tem certamente origem autobiográfica – condensada no personagem de Robert Pattinson, Jerome Fontana, um motorista de limusine que tenta firmar-se como ator e roteirista. O filme abandona toda ambição ao realismo, no entanto, ao tornar-se uma crônica cada vez mais ácida e fantástica desse mundo de celebridades que recorre à participação de diversos fantasmas – a mãe, no caso da atriz madura Havana Segrand (Julianne Moore); uma fã, no caso do astro infantil de TV Benjie Weiss (Evan Bird).
A própria irmã de Benjie, Agatha (Mia Wasikowa), reaparece na vida da família como uma aparição indesejada do mundo dos mortos. Sua existência é escondida da mídia pelos pais, Cristina (Olivia Williams) e Stanford (John Cusack), um famoso guru, autor de livros de auto-ajuda.
Há de tudo por aqui – incesto, drogas, assassinato, morte ritualística. Este último, um tema presente em vários filmes anteriores de Cronenberg, como Crash – Estranhos Prazeres, Gêmeos – Mórbida Semelhança, até mesmo em seu mais recente Cosmópolis. Cronenberg está à vontade neste universo e é certamente o diretor mais adequado a conduzir esta verdadeira autópsia das entranhas de Hollywood, com direito a muito humor negro e piadas usando os nomes reais de vários atores, diretores e filmes. A presença dos fantasmas, por exemplo, merece uma comparação com O Sexto Sentido. Apesar de sua contundência, de sua mira na jugular nas situações e diálogos, Maps to the stars é perversamente divertido e provocou muitas gargalhadas na plateia da sessão de imprensa de domingo (18) à noite).
 
 O poder do deserto
Diretor de Los Muertos e Liverpool, o argentino Lisandro Alonso entregou em Jauja um filme exigente do envolvimento do espectador com seus tempos mortos e especialmente da disposição de embarcar na imaginação.
No cenário da desértica Patagônia, no final do século 19, quando ali se desenvolvia uma campanha militar e genocida contra os índios que passou à História como a “Conquista do Deserto”, um capitão dinamarquês (Viggo Mortensen) parte em busca de sua filha adolescente, Ingeborg (Vilbjork Mallin Agger), que fugiu com um soldado.
Perdido na imensidão, o engenheiro militar europeu não encontra utilidade para sua experiência e sua lógica, sucumbindo à força da natureza. Mas há também, como nos filmes de Alonso, a dimensão do inexplicado, que se desenrola a partir do encontro do capitão com uma velha senhora numa caverna (Ghita Norby) – que fala dinamarquês e tem um cão, animal que guiou o capitão até ali.
Este cão, além de outros objetos e detalhes, faz uma ponte com o segmento final do filme, que se passa nos dias atuais, com a reaparição de Ingeborg e do cão num contexto inteiramente diferente. Pode-se pensar em dobra do tempo, como numa ficção cientifica, mas também no eterno retorno, no renascimento das mesmas questões em tempos e pessoas diferentes, o ciclo da vida e da História, enfim. Aí está a beleza do filme de Alonso.

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