Cannes 2014

Crônicas de vida, morte e ética na competição de Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – De um lado, o derramamento neo-místico e filosófico um pouco barrroco da japonesa Naomi Kawase, em Still the Water. De outro, o minimalismo engajado dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, no drama belga Deux Jours, Une Nuit (foto). A competição pela Palma de Ouro oscilou entre estes dois extremos.
Ficou a sensação de que o coração, a experiência e a sensibilidade da presidenta do júri principal, a cineasta Jane Campion, pode bater forte pelo filme japonês, que desdobra as várias camadas de uma crônica familiar, ambientada numa ilha, e que é governada pelos ritos da vida e da morte, inclusive na natureza – temas caros à diretora em obras anteriores, como A Floresta dos Lamentos (2007).
Modernidade e arcaísmo se entrelaçam na vida de duas famílias, cujos filhos adolescentes de 16 anos, estão vivendo um romance. Eles são Kyoko (Myuki Matsuda) e Kaito (Jun Murakami), cujos passeios de bicleta em torno da ilha evocam a Nouvelle Vague, em seu apego pelas emoções à flor da pele, pela vida nos exteriores. Kaito é filho de mãe separada. Kyoko vive com os pais, mas sua mãe está morrendo.
A lenta e dolorosa despedida desta mãe, ao mesmo tempo em que se brota sua sexualidade são os dois impulsos contraditórios da vida de Kyoko, uma jovem ousada, desinibida e corajosa. Kaito, por sua vez, vive um tumulto interior, não só por seus conflitos com a mãe, que está refazendo sua vida amorosa, como pela descoberta do corpo de um afogado.
Signos de morte, como este cadáver e dois insuportáveis sacrifícios de cabras, surgem de vez em quando na tela, que retrata também a natureza idílica desta ilha, povoada por poucas pessoas, como um velho que procura não depender de ninguém. Ao mesmo tempo, a ameaça de tufões é um lembrete de que o mesmo mar cristalino propício ao surfe, onde Kyoko mergulha como uma sereia, sem se incomodar de despir seu uniforme escolar, é, como diz Kaito, um ser vivo. Por isso mesmo, sujeito aos seus humores e explosões.
No todo, Still the Water é um belo filme, o mais maduro, consistente e ambicioso da diretora até aqui. Não será surpresa se, a partir de hoje, começar a despontar nas bolsas de apostas dos críticos, que até aqui distinguiram o bergmaniano concorrente turco Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan – o concorrente que teve as sessões mais tumultuadas até aqui. Pelo menos enquanto ainda não acontece a sessão de Adeus à Linguagem, de Jean-Luc Godard, na tarde desta quarta, como no caso do filme turco, uma sessão oficial. Nos dois casos, não houve sessão exclusiva de imprensa prevista na programação, como é rotina, e a superlotação é a consequência.
 
 Minimalismo de empenho
Escalando, pela segunda vez em sua carreira, uma atriz famosa num papel principal – no caso aqui, a francesa Marion Cotillard -, os irmãos Dardenne compuseram em Deux Jours et Une Nuit um conto sobre ética em que só um julgamento apressado pode enxergar simplicidade.
A trama é mínima: empregada de uma fábrica de painéis de energia solar, Sandra (Marion Cotillard) é demitida, depois de uma votação entre seus colegas em que tiveram que eleger entre mantê-la no trabalho e receber um bônus de mil euros.
Por insistência de uma colega, Juliette (Catherine Salée), o gerente é convencido a refazer a votação dentro de alguns dias. Assim, Sandra terá o fim de semana para derradeiro e desesperado esforço de convencimento junto aos colegas para reverter a situação.
Recém-recuperada de uma depressão, mas ainda frágil e tomando medicação, Sandra sente-se na posição de uma mendiga, suplicando pelo emprego. Enfrenta todo tipo de reação por parte dos colegas, o que dá lugar à discussão sobre a grande questão: que tempo é esse em que vivemos em que os trabalhadores são jogados uns contra os outros diante de decisões que, em última análise, não são deles? Por que é que têm que escolher entre ganhar um bônus e desempregar uma mãe de família igual a eles?
Em tudo se insinua a grande questão da contemporaneidade, que é de ética, de política, de desorganização, de egoísmo, de desumanização. Os colegas de Sandra, imigrantes alguns deles, são encostados contra a parede, como ela. Parece não haver possibilidade de escolha pessoal, de saída digna. Mas, no universo dos Dardenne, a reafirmação de que esta escolha sempre existe, ainda que não enseje uma solução mágica de super-herói, é o bálsamo realista que nunca é demais ouvir. O humanismo possível diante de um niilismo que tenta se colocar como a única opção.
Na pele desta heroína fragilizada, Marion Cotillard é, como sempre, sublime. Este ano, ao contrário da regra, Cannes terá bastante trabalho para premiar sua melhor atriz – e o festival ficou devendo um prêmio a ela, há dois anos, por seu papel magnífico em Ferrugem e Osso. Nesta edição, estão sobrando opções, desde as adolescentes do japonês Still Water e do italiano Le Meraviglie (outro filme que poderá ser caro ao júri de Jane Campion) até as adultas do norte-americano The Homesman. Mas ainda tem mais pela frente.
 
 Como um passarinho
Na seção Un Certain Regard, a francesa Pascale Ferran (Lady Chatterley) causou uma certa perplexidade com sua fábula Bird People, em que a protagonista, a camareira de hotel Audrey (a adorável Anaïs Demoustier), durante quase metade do filme, magicamente se vê transformada num pardal, o que lhe dá a oportunidade de ver a realidade literalmente por outros ângulos e divertir-se muito voando por cima de Paris.
Mais do que a licença poética desta magia sem explicação – por que não? -, o que se pode ressentir no filme é mais um maior equilíbrio. A diretora e roteirista optou por fechar o foco em dois personagens e divide o filme praticamente dando uma metade a cada um. A primeira metade pertence a Gary (Josh Charles), um executivo norte-americano em Paris que, subitamente, decide largar seu trabalho, casamento, até seu país. Sem grandes explicações, ele simplesmente não pode mais, precisa de uma vida nova.
Embora Audrey apareça ocasionalmente nesta primeira metade, já que ela é a camareira do hotel onde Gary se hospeda, eles nunca se encontram, exceto no final. E a história de Gary não é tão intrigante quanto a transformação mágica de Audrey na segunda parte.
A duração do filme (2h08) pesa. Pascale deveria pensar numa remontagem, pelo bem da fruição deste Bird People, em que, como no húngaro White God, outro concorrente do Un Certain Regard, vê-se um admirável manejo na presença animal em cena. Este pardalzinho – ou pardaizinhos - que é (ou são) o alterego de Audrey é (são) simplesmente ótimo(s). E Anaïs Demoustier é simplesmente a melhor e mais adorável atriz de sua geração aqui na França.

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