Cannes 2014

Cannes chega à metade de uma edição até aqui sem brilho

Neusa Barbosa, de Cannes

Cannes – Faltando quatro dias para o encerramento da 67ª. edição, não apareceu ainda esperada revelação na competição principal. O concorrente francês The Search, do premiado Michel Hazanavicius, decepcionou – e levou a primeira (e forte) vaia na sessão de imprensa desta manhã de quarta (21). Também provocou um forte protesto do bloco de fala hispânica, o mais revoltado, de onde partiram gritos de “fora” e mesmo um “indecente”.
 
Talvez não seja para tanto, embora se possa afirmar que The Search é, por enquanto, a maior patriotada da seleção principal. Mesmo antes de ver o novo trabalho do premiado diretor de O Artista, aliás, se podia intuir que um mergulho nos bastidores da guerra da Chechênia do final dos anos 90, a partir de um roteiro escrito por ele mesmo, inspirado no drama Perdidos na Tormenta (48), com Montgomery Clift, não parecia promissor. Numa frase: assunto certo, diretor errado.
 
Genocídio checheno
 
O massacre de civis chechenos pelas tropas russas naquele momento é um tema dos mais pungentes e não merece ser esquecido. Mas ir tão longe no maniqueísmo e no melodrama como foi feito em The Search certamente faz um desserviço ao assunto.
 
Que Hazanavicius queira emocionar o espectador a partir da história do menino Hadji (Abdul Khalim Mamatsuiev), cujos pais são massacrados na primeira forte sequência do filme, é normal. Mas a saga deste menino de 9 anos, que se perde da irmã mais velha, Raïssa (Zukhra Duishivili), e se vê forçado a abandonar o irmão bebê na porta de uma casa de família, se basta. O menino é impressionante e sem esforço se torce por ele, evidentemente. O problema é como a trama em torno dele e da guerra é construída.
 
A personagem de Bérénice Béjo, uma funcionária da União Europeia que se torna protetora do menino, por exemplo, é mal-elaborada. Sua função no enredo, que é evidenciar a indiferença e lentidão dos organismos internacionais em conflitos como este, mostra-se ineficiente em vários momentos. Mesmo Annette Bening, como dirigente de um campo de refugiados, não tem muito o que fazer na história, é um desperdício da atriz.
 
A trama paralela, retratando a brutalização dos jovens soldados russos, como Kolia (Maxim Emelianov), deveria ser mais orgânica e menos maniqueísta. Neste segmento, Hazanavicius parece querer evocar Nascido para Matar, de Stanley Kubrick, mas não conseguir conduzir o tom com eficiência.
 
Retratos de Salgado
 
Andou muito melhor na seção Un Certain Regard O Sal da Terra, o belo documentário assinado por Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado sobre o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado.
 
Realizado ao longo de alguns anos, o filme coloca em evidência não o foto-jornalista que Salgado foi em sua origem – embora dê um breve panorama biográfico de sua formação como economista e sua saída do Brasil em 1969, por conta da ditadura militar.
 
O foco da dupla Wenders-Juliano (filho de Salgado) é o aventureiro capaz de adentrar os rincões mais remotos do mundo em busca de suas impressionantes séries de fotos, do garimpo de Serra Pelada à série sobre a América Latina no final dos anos 70 às mais recentes, “Êxodus” e “Gênesis”. Isso o filme faz com propriedade, fazendo o espectador sentir-se companheiro do fotógrafo em suas jornadas. Ainda por cima, contando com os comentários precisos e bem-humorados do próprio Salgado, além de observações de Wenders e de Juliano, que injetam um sopro intimista.
 
Se um perfil intimista de Salgado podia ser visto num documentário anterior, mais modesto e com menor orçamento, Revelando Sebastião Salgado, de Betse de Paula, aqui se procura uma perspectiva mais global, universalista de seu fascinante personagem. O trabalho do casal Salgado na transformação da fazenda herdada por ele numa imensa reserva de mata atlântica, o Instituto Terra, também merece relevo. O brasileiro Salgado fica bem na foto, como ele merece, num filme esteticamente muito elaborado, como faz todo sentido.
 
Estreia-desastre
 
Ainda na seção Un Certain Regard, foi uma total decepção a estreia do ator canadense Ryan Gosling na direção, o drama Lost River. A partir de um roteiro escrito por ele mesmo, esboça-se uma história cada vez mais absurda em torno de uma mãe solteira (Christina Hendricks), seu filho Bones (Iain de Caestecker), a vizinha Rat (Saoirse Ronan) e um inacreditável vilão, Bully (Matt Smith).
 
Tudo é tosco e excessivo nesta lamentável tentativa de invocar um universo obscuro e violento que tem partes do pior de Nicolas Winding Refn, ou seja, de seu último trabalho, Só Deus Perdoa, em que Gosling atua, com toques de David Lynch – especialmente no estranho cabaré de shows de terror em que a estrela é Cat (Eva Mendes). Deu tudo errado. Gosling precisa urgentemente se reinventar.

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