Cannes 2014

Os meninos mimados e o ativista dançarino de Ken Loach

Neusa Barbosa, de Cannes
 Cannes – Contra o exibicionismo formal de meninos mimados, como o veterano Jean-Luc Godard e o jovem Xavier Dolan, valeu mais o ativismo apaixonado de Ken Loach. Voltando à Irlanda, agora em 1932 (dez anos depois do período de Ventos da Liberdade, que lhe deu a Palma de Ouro aqui em 2006), o diretor inglês entregou uma crônica fluente e encharcada de paixão não só pela ação política, como pelo gozo da vida em Jimmy’s Hall [assista ao trailer]– que terminou a sessão de imprensa, nesta manhã de quinta (22), não só aplaudido, como ao som de palmas marcando o ritmo de danças irlandesas que embalaram os créditos finais.
Era para ser a despedida do diretor inglês do cinema – mas ele mesmo já avisou que não é bem assim, inclusive na coletiva após o filme. Ainda bem. Porque o cinema do mundo, e até o mundo mesmo, precisam da continuidade do trabalho de alguém como ele, um cineasta atento ao que é humano, profundamente humano. Em Jimmy’s Hall, ele parte da história real do irlandês James Gralton (interpretado com energia por Barry Ward), uma mistura original de ativista socialista e pró-independência da Irlanda, fazendeiro e líder de um pequeno salão de danças comunitário.
O enredo decola em 1932, quando Jimmy volta à Irlanda, depois de alguns anos nos EUA, para cuidar da fazenda da família e da mãe. Seu irmão morreu enquanto ele estava fora. É um tempo de desemprego, depois da queda da Bolsa de Nova York em 1929. Houve uma guerra civil na Irlanda, entre os prós e os contra a independência irlandesa, mas é um momento depois do acordo, que parece promissor. Nesse contexto, Jimmy é estimulado pelos jovem de seu distrito, Leirim, a reabrir o salão de danças – que funciona como um centro cultural, com cursos de dança e literatura, e também de organização política.
 
 Cruzada fundamentalista
Esta ilha de convivência e liberdade incomoda o padre local, o velho pároco Sheridan (Jim Norton), que, como uma Inquisição local, move uma implacável campanha a partir do púlpito contra o salão de danças e contra Jimmy – que ele classifica como “comunista” e “anti-Cristo”. 
Essa cruzada fundamentalista não é meramente religiosa. Trata-se de poder, já que a poderosa igreja irlandesa era um dos pilares da ordem dominante então, ao lado da polícia, da justiça, dos grandes proprietários de terra, dos nobres e do governo pró-britânico. A beleza do roteiro do habitual parceiro de Loach, Paul Laverty, está na maneira cristalina como desvenda esses mecanismos de poder, sem tirar nenhuma gota do brilho dos seres humanos neles envolvidos, dos dois lados.
Os personagens de Loach são de carne e osso e se torce genuinamente por eles, como por Jimmy, sua amada Oonagh (Simone Kirby) – que se casou no longo período em que ele viveu fora -, sua mãe, seus amigos e mesmo inimigos. Os diálogos entre Jimmy e o padre Sheridan são duelos de pensamento entre dois adversários de respeito. Não há maniqueísmo aqui. Além disso, os pontos de contato daquela época com a nossa, pós-crise de 2008, são evidentes.
Não faltam o prazer, a alegria da música. Não só as melodias tradicionais irlandesas ecoam na tela, como o jazz, que veio na bagagem de Jimmy, trazendo discos e um gramofone – às vezes, parece que se está num filme de Woody Allen. Mas é Ken Loach no seu melhor e digno até de uma segunda Palma.
 
 Enfants gatés
O mais velho enfant gaté (menino mimado) de Cannes, Jean-Luc Godard, em sua sétima participação aqui, brindou o festival com um de seus mais vazios exercícios formais em Adeus à Linguagem (foto ao lado), sua primeira aventura em 3D. Só o nome do provocador diretor franco-suíço, um dos pilares da Nouvelle Vague, justifica sua seleção e o excesso de atenção dedicado a uma obra, em última análise, repetitiva dos velhos bordões da obra do diretor. Ou seja, fragmentação de ideias, citações e provocações (uma atriz solta um peido; outro ator está na privada e ouve-se sons escatológicos). Simpático mesmo só o cão que é um dos protagonistas e é uma gracinha. É o cão de Godard? Mais uma vez, ele não veio nem mesmo à sessão. Havia uma coletiva de imprensa, cancelada, naturalmente, pois não faria o menor sentido sem ele.
 Menino mimado também, até pela pouca idade (25 anos), o incansável diretor canadense Xavier Dolan emplacou seu novo drama Mommy (foto ao lado) na competição em Cannes, poucos meses depois de ter garantido seu trabalho anterior, o suspense Tom na Fazenda, na competição de Veneza, em setembro último.
Contando com duas personagens femininas admiráveis, uma mãe, Diane (Anne Dorval) e a vizinha professora, Kyla (Suzanne Clément), o drama de excessivas 2h14 tem várias qualidades ao retratar um microcosmo disfuncional, que se move em torno do filho de Diane, Steve (Antoine Olivier Pilon) – adolescente que sofre de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), cujo descontrole desarruma a vida da mãe, com quem ele mantém uma relação naturalmente ambígua. Kyla é a vizinha afetada por uma gagueira nervosa e se aproxima da dupla por uma afinidade de deslocamento no mundo. É um trio bem exótico, mas também engraçado e humano.
Se é verdade que Dolan, como diretor e roteirista, está amadurecendo, não é menos verdade que o ego supera o talento. Se se pudesse eliminar alguns exageros, histerias, gritarias e abuso no uso de música, Mommy seria um filme bem melhor. O problema é que o excesso, para Dolan, é estilo e provavelmente ele nunca o abandonará. Para quem assiste, é uma questão de aderir ou não.
Justiça seja feita: as duas atrizes são maravilhosas e não seria absurdo atribuir a elas alguma premiação. No quesito interpretação, Cannes 2014 é uma arena superlotada, tanto no setor feminino quanto no masculino. O júri presidido por Jane Campion vai ter muito trabalho.

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