Cannes 2014

Cannes fecha a competição com drama teatral com Juliette Binoche

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – Reta final: acabou a exibição dos 18 concorrentes à Palma de Ouro, nesta manhã de sexta (23), com a passagem do terceiro candidato francês, Sils Maria (foto ao lado) [assista ao trailer], de Olivier Assayas – que compôs um outro filme com batida teatral, contrapondo uma estrela veterana no papel de uma diva do teatro, Juliette Binoche, ao lado de duas das mais midiatizadas jovens atrizes do cinema mundial, Kristen Stewart, como sua assistente, e Chloe Grace Moretz, interpretando uma jovem atriz cuja carreira decola na esteira de uma série de escândalos na internet.
 
Como em Maps to the Stars, de David Cronenberg, o status das intérpretes fora da tela se insinua nas suas personagens, se bem que numa chave bastante mais sóbria. O eixo do roteiro, também assinado por Assayas, é outro, piscando um olho para o enredo de A Malvada, sem a mesma acidez. Por isso, talvez, não pareceu o grande filme que muitos esperavam do sólido diretor de Depois de Maio.
 
O novo trabalho de Assayas muito menos pareceu ter mudado o rumo das maiores apostas à Palma, que continuam sendo o japonês Still the Water, de Naomi Kawase, e o turco Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan – isso embora o solitário concorrente africano, Timbuktu, do mauritano Abdehrramane Sissako, tenha mostrado uma resistência de corredor de maratona, resistindo nas primeiras posições nas tabelas dos críticos, tanto no local Film Français, quanto no britânico Screen Daily (que, patrioticamente, não tirou do primeiro lugar a cinebiografia Mr. Turner, de Mike Leigh). Veremos o que nos reserva o júri liderado por Jane Campion, que anuncia os prêmios neste sábado (24), numa antecipação de um dia, provocada pelas eleições europeias do domingo.
 
Tiro ao alvo nos líderes
 
Bem diferente foi o clima do penúltimo concorrente, o contundente Leviathan, em que o diretor russo Andrei Zvyagintsev (Leão de Ouro em Veneza com sua estreia, em 2003, com O Retorno) constrói um drama, com muitos toques de sátira e os dois pés na realidade contemporânea russa. Seu foco é uma família, moradora de uma cidadezinha perto do mar de Barents, no glacial norte russo, cuja vida é destruída por um prefeito criminoso, em torno do qual se movem as engrenagens do poder russo, a justiça, a polícia e até mesmo a Igreja Ortodoxa.
 
Há um sentido de ameaça iminente, a sensação de que, a qualquer momento, alguém vai ser morto, enquanto se desenrola o enfrentamento entre Kolia (Alexei Serebriakov), mecânico e dono de uma casa perto da praia, e o prefeito Vadim Cheleviat (Roman Madianov). Obcecado em obter a propriedade de Kolia a qualquer preço, o mafioso prefeito torna-se cada vez mais impiedoso.
 
Kolia comporta-se como outro obcecado, mas por não perder a casa de sua família, que inclui seu filho Roma (Serguei Pokhodaev) e a segunda mulher, a jovem Lilya (Elena Liadovna). Por isso, convoca um amigo de sua juventude, o advogado Dmitri (Vladimir Vdovitchenkov). Ele vem de Moscou com um dossiê sujo sobre o prefeito debaixo do braço, disposto a chantageá-lo para manter a casa do amigo.
 
A partir daí, o jogo se torna cada vez mais bruto, embora não faltem toques de humor. Uma das sequências mais impagáveis reúne um grupo de personagens numa bizarra comemoração de aniversário, que combina um churrasco na beira de um rio com um torneio de tiro, cujos alvos serão retratos de antigos líderes da URSS, como Brezhnev e Gorbachev. O retrato de Yeltsin está de cabeça para baixo, mas ele é explicitamente mencionado. Quando alguém sente falta dos “mais recentes”, alguém explica: “Ainda não temos perspectiva histórica”.
 
Se foi poupado deste tiroteio, o retrato do líder russo Vladimir Putin foi visto bem à mostra no gabinete do prefeito bandido – o que é, no mínimo, um sinal de que Zvyagintsev não pretende excluir o atual governo do retrato ético demolidor que faz de seu país, ainda que um dos financiadores do filme seja o ministério da cultura russo. Numa outra cena, vê-se brevemente uma pichação de muro onde se lê “Pussy Riot”, lembrando as roqueiras russas que foram mandadas à prisão por Putin.
 
Zvyagintsev fez um filme forte, cheio de camadas, com muitas qualidades e alguns furos. Não parece com cheiro de Palma e sim, se premiado, alguma coisa como roteiro parece mais viável.
 
Apartheid australiano
 
Na seção Un Certain Regard, um filme que causou impacto ontem foi o australiano Charlie’s Country, em que o diretor Rolf De Heer (Bad Boy Bubby) se integra com seu ator principal, David Gulpilil, para compor um filme que, se não é novo, denuncia com notável verdade a situação dos aborígenes na Austrália – que vivem num mundo à tarde, tutelados, à parte da riqueza e do desenvolvimento da sociedade branca, descendente dos colonizadores europeus, num verdadeiro apartheid ainda não extinto.
 
Ator com mais de 30 filmes no currículo, o mais famoso deles Crocodilo Dundee (86), Gulpilil encarna na tela um personagem que tem muito de sua própria vida – e da de todos os aborígenes australianos. Ou seja, uma saga de inadequação, discriminação, alcoolismo, institucionalização, seja no hospital ou na cadeia. Mesmo contendo vários momentos de humor, Charlie’s Country é o retrato de uma verdadeira chaga naquele país.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança