Cannes 2014

Cannes decola com biografia engessada de Grace Kelly

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – Se nunca houve uma mulher como Grace Kelly, tanto por sua vida extraordinária, vitoriosa como atriz de Hollywood e princesa-rainha de Mônaco, fazer sua cinebiografia já seria um desafio, para qualquer diretor, ou qualquer atriz – aliás, quem remotamente lembra sua beleza e carisma incomuns, sua aura ao mesmo tempo cálida e distante? E, tão difícil quanto tudo isso, como reproduzir ou recriar a época que produziu esse mito, que precedeu o de Lady Di e foi ainda mais complexo?

O tamanho desta façanha não demoveu o diretor francês Olivier Dahan de se arriscar. E assim como havia feito em outra cinebiografia de um mito feminino – Piaf – Um Hino ao Amor -, ele incorre em mais artificialismo ainda em Grace – A Princesa de Mônaco, o filme de abertura do 67º Festival de Cannes, hoje, que tem Nicole Kidman no papel da loura fria preferida (e não sem razão) de Alfred Hitchcock, sua estrela em Janela Indiscreta, Disque M para Matar e Ladrão de Casaca.

 Justamente a participação de Hitchcock (interpretado pelo inglês Roger Ashton-Griffits) é uma das licenças dramáticas com personagens reais a que se permite o enredo. Encena-se uma visita em carne e osso do diretor inglês a Mônaco, para não só matar a saudade da agora soberana Grace, como para convidá-la para voltar ao cinema, protagonizando Marnie – Confissões de uma Ladra. Que, como todo mundo sabe, foi um papel que Grace aceitou, sonhou fazer, mas acabou desistindo, o que deu a chance a Tippi Hedren.
 
Outra dessas licenças ficcionais envolve o protagonista da grande crise política envolvendo Mônaco, que esteve por trás, entre outras coisas, da desistência de Grace de voltar ao cinema. Ou seja, o bloqueio físico de Mônaco por Charles De Gaulle, que, aparentemente furioso com o fracasso na guerra da Argélia, estava naquele momento decidido a vingar-se no principado, ameaçando-o inclusive de invasão e bombardeamento, se o príncipe Rainier (Tim Roth) não aceitasse o pagamento de impostos de seus cidadãos ao Tesouro francês. Afinal, Mônaco é um protetorado francês que, naquele momento, se beneficiava ao atrair várias empresas francesas isentando-as de impostos, o que incomodava os ímpetos coloniais de De Gaulle.
 
 Baile providencial
 
Dahan coloca De Gaulle vindo pessoalmente ao principado, no auge da plena crise política, como convidado a um baile da Cruz Vermelha que foi, na verdade, uma muito bem-orquestrada operação de relações públicas, liderada pela princesa Grace, e que terminou forçando De Gaulle a baixar o tom. Na verdade, o presidente francês não veio ao baile. Tanto uma quanto a outra invenção do roteiro, assinado por Arash Amel, apenas serviram a uma necessidade do filme ou, como disse Dahan na coletiva do filme, de “colocar dois personagens no mesmo local, no mesmo momento”.
 
Mas o filme certamente não é sobre política, contexto que é apenas um pano de fundo, embora o momento escolhido tenha sido escolhido a dedo para retratar sua protagonista. Nesta época, ela vivia uma grande crise pessoal, em sua vida, sua identidade, seu casamento, cogitando voltar ao cinema – ao que seu marido, num primeiro momento, não se opôs -, o divórcio (que seria impraticável, já que ela perderia o direito de voltar a Mônaco e de ver os filhos). Certamente, é por conta deste cenário que foge ao conto de fadas que os filhos de Grace, Caroline, Albert e Stéphanie, não quiseram vir a Cannes, apesar da proximidade geográfica, do convite e da acolhida glamourosa que teriam.
 
 Comentando a ausência da família Grimaldi na sessão de gala de hoje à noite, Nicole Kidman disse-se “triste, porque não houve malícia contra os personagens”. Mas destacou entender, da parte deles, uma “proteção de privacidade”. E assinalou que sua performance “foi feita com amor” e que esta é uma “história de amor dos pais deles”.
 
Versão única
 
Outra polêmica envolvendo o filme e seu mais notório produtor, Harvey Weinstein – que teria pressionado Dahan a mudanças na montagem, o que levou a boatos de que haveria duas versões, uma para distribuição nos EUA – foi descartada por Dahan (Weinstein não estava presente à coletiva).
 
“Não existem duas versões do filme, há somente uma. E, se houver necessidade de alguma mudança, Harvey e eu a faremos juntos”, asseverou o diretor, que usava na coletiva um enorme boné preto que não podia deixar de ser notado.
 
A partir de hoje, começa também a competição, que decola também hoje à noite com Timbuktu, único filme africano da competição principal, dirigido pelo veterano mauritano Abdelrrahmane Sissako, com uma drama que aborda dilemas criados pelo fundamentalismo religioso.

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