Cannes 2014

Competição em Cannes embarca nas camadas da cinebiografia do pintor Turner

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – A competição, que decolou ontem à noite com um digno concorrente africano, o drama Timbuktu, de Abderrahame Sissako, ganhou fôlego com a multifacetada cinebiografia Mr. Turner, em que o veterano diretor inglês Mike Leigh (foto) tenta a segunda Palma de Ouro (a primeira com Segredos e Mentiras) com um retrato não só do pintor William Turner (1775-1851), interpretado com brilho merecedor de prêmios por seu ator habitual, Timothy Spall, como de sua época.
 
Como uma pintura, há várias camadas em Mr. Turner, em que Mike Leigh conta mais uma vez com seu admirável elenco de outros filmes, um de seus pontos fortes. Por seu apego e confiança junto a eles, consegue mais uma vez obter naturalidade numa história de época, o que não é nada comum. Assim, as pessoas que vemos na tela parecem de carne e osso, emocionais, contraditórias, sublimes, criativas e eventualmente também invejosas e sórdidas. Por mais que, não raro, fique clara a intenção de Leigh de ironizar acidamente um modo de ser britânico.
O próprio Turner, pintor de paisagens sublimes e dono de uma pincelada sutil e rica em nuances, surge na tela como um homem um tanto rude, que grunhe ao invés de falar muitas vezes, mas também tem cultura musical, frequenta a aristocracia, faz parte da Academia Real de Artes e tem uma movimentada vida amorosa.
 
 Mulheres de Turner
As mulheres da vida de Turner, aliás, são todas personagens complexas e interessantes, o que soma interesse na história – elas não são mera decoração de uma cinebiografia edificante, que aliás esta nem procura ser. Este ensemble feminino inclui a empregada de Turner, a tímida Hannah (Dorothy Atkinson), sua feroz (e com muita razão, porque ele foi um amante e pai dos mais desleixados) ex-, Mary (Lesley Manville), e uma viúva com quem ele tem um caso na maturidade, a senhora Booth (Marion Bailey). Um trio dos sonhos que poderia, com méritos, dividir uma premiação feminina no festival.
 
O retrato da época de Mike Leigh é também saboroso, detalhando sua rivalidade com seus contemporâneos – a mais notória, contra Constable -, suas viagens em busca de impregnar seu olhar com os cenários naturais que ele retratou exaustivamente (cenas marinhas, navios sob tempestade, nuances do caminho do sol no céu), tudo isso enfatizando sua busca estética, mas também sua passagem pelo mundo, seu cotidiano como homem comum – que bebia, amava, brigava e era tudo menos um pintor de elite, elegante, mas altruísta o bastante para, no final da vida, recusar uma proposta financeira generosa de um nobre, que queria comprar todos os seus quadros. Mesmo vivendo de seu trabalho, o pintor se deu ao luxo de manter seus quadros, que ele entendia pertencerem ao povo britânico. Portanto, deveriam ser vistos em museus, grátis, na opinião dele. Pelo menos em parte, seu desejo foi, felizmente, satisfeito. A obra de Turner é um privilégio para o olhar de qualquer povo do mundo.
 
O jugo fundamentalista
O veterano diretor mauritano Abdehrramane Sissako compôs um poderoso libelo contra a praga fundamentalista que se abate sobre tantos países africanos em Timbuktu.
 
Sissako poderia, facilmente, ter recaído num melodramão ao retratar um vilarejo africano – o real com este nome fica no Mali – que é invadido por um comando fundamentalista. Armados até os dentes, circulando em carrões importados, os jihadistas se dizem a lei islâmica e começam a impor regras ridículas, até na intimidade das pessoas. Proíbem o fumo, as calças compridas soltas dos homens, a música, o futebol, impõem às mulheres não só o véu, mas luvas e meias (neste último caso, também aos homens).E cada dia inventam uma nova lei, que implica em prisões, chibatadas e até mortes.
 
Fica muito claro que não se trata de religião, um mero pretexto, e sim de arbítrio. Um dos jihadistas decide casar-se com uma mocinha. Quando ela e a mãe recusam, ele a rapta e o casamento islâmico é consumado. Não há o que fazer. O comando fundamentalista é a lei, a ordem e o tribunal final de tudo.
 
A tragédia se abate também sobre uma família feliz, formada por Kidane (Ibrahim Ahmed), Satima (Toulou Kiki) e a filha única de 12 anos, quando o pai mata acidentalmente um vizinho, o pescador Amadou, numa disputa envolvendo o gado de um e as redes de pesca do outro. Neste caso, o tribunal islâmico impõe a sharia, o que aponta a morte, exceto se a viúva de Amadou perdoar Kidane. Não há possibilidade de análise de circunstâncias atenuantes.
 
Nem por seu enfoque predominantemente realista Sissako deixa de injetar em sua obra sequências da mais pura poesia, caso de um jogo de futebol sem bola – que remete imediatamente ao jogo de tênis de Blow Up, de Michelangelo Antonioni - e também à cantora (Fatou Diawara), que solta a voz ao sofrer sua absurda punição em chibatadas. Mais do que correção política simplesmente, Timbuktu é um manifesto pela liberdade, em qualquer tempo e lugar. E dolorosamente baseado em fatos reais que estão ocorrendo neste momento, como demonstra o absurdo rapto das garotas nigerianas.
 
Atração do cabaré
 
Foi um tanto decepcionante a atração de abertura da seção Un Certain Regard, Party Girl, coprodução franco-alemã dirigida por Marie Amachoukeli, Claire Burger e Samuel Theis. Aquela que seria em princípio seu grande trunfo, a raiz documental, termina virando uma camisa de força para a dramaturgia de um filme que reconta a história de uma prostituta de cabaré de 60 anos, Angélique (Angélique Litzenburger), que tem a chance de mudar de vida depois de receber a proposta de casamento de um antigo cliente, Michel (Joseph Bour).
Em que pese toda a verdade que impregna as entrelinhas do filme, que tem participação de filhos de Angélique fazendo os próprios papeis, o retrato da inadequação da personagem diante desta promessa de transformação é bastante insatisfatória e previsível desde o começo. Numa chave inteiramente diversa, é verdade, há uma enorme galeria de filmes muito melhores sobre este tipo de personagem – de Irma la Douce, de Billy Wilder ao pungente Iracema, de Jorge Bodanzky.

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