Cannes 2014

Cannes em dia de brincar de Hitchcock

Neusa Barbosa, de Cannes

Cannes - O 67º festival deu sequência à programação na esteira de uma pequena série de filmes sinistros, no tema ou na realização, em várias seções. É animador que tantos diretores estejam procurando um rumo para renovar o suspense, o thriller, mas está longe ainda de aparecer o novo Alfred Hitchcock, infelizmente.

O canadense Atom Egoyan pareceu estar procurando isto em seu novo filme, The Captive (Captives, em francês), concorrente à Palma, em que novamente voltou a um território familiar, o da perversão, num drama em torno de sequestro infantil e uma rede de pedofilia.
 
O tema é eletrizante e a primeira meia hora do filme promete. O desespero dos pais (Ryan Reynolds e Mireille Enos) diante do rapto de sua única filha de 9 anos, Cassandra (Alexia Fast) é genuinamente envolvente, ao mesmo tempo que se acompanha a transformação da menina em adolescente, presa numa casa, em que ela pode ver, através de câmeras instaladas em sua casa, o desespero da mãe. O voyeurismo desta aflição é parte de um jogo perverso pela internet, explorado pelos sequestradores.
 
Mas a atração do enredo, escrito a quatro mãos por Egoyan e David Fraser, começa a desmoronar na sequência, quando desiste de ir mais fundo no realismo da situação, em não poderia faltar uma menção mais direta à sexualidade – e não há – em nome de reduzir a trama a uma história policial. Nem mesmo a presença carismática da bela e talentosa Rosario Dawson, interpretando a comissária encarregada da investigação, salva o filme dos muitos e enormes furos.
 
Os atores são empenhados – mesmo Ryan Reynolds saindo do registro de comédia e aventura – mas não podem compensar o fracasso do conceito. Egoyan mesmo já fez muito melhor em filmes dos anos 1990, como Exótica e O Fio da Inocência. E não faltou quem lembrasse de uma trama parecida e mais bem realizada em Os Suspeitos, do compatriota Denis Villeneuve.
 
Amalric no tribunal
 
Em nova tentativa na direção, o ator francês Mathieu Amalric emplacou uma vaga na seção Un Certain Regard com o suspense La Chambre Bleue, em que adapta história do escritor Georges Simenon, com roteiro assinado em parceria com Stéphanie Cleau.
 
Amalric recorre à cumplicidade da própria mulher na vida real, a diretora teatral Léa Druckner, para encarnar Delphine, a mulher fatal de toda a trama. Casada com um homem rico e doente, ela se envolve com outro homem casado, Julien (Amalric), realizando uma atração platônica que ela guardava desde a adolescência.
 
A história é toda contada em flashbacks, a partir de uma investigação policial, em que as poucos se revela a orquestração de duas mortes e um plano de levar o romance adúltero às últimas consequências, mesmo que um dos envolvidos pareça não saber disso.
 
É um filme que deve ter sido mais interessante no roteiro do que finalmente no resultado na tela, um tanto frio nestas longas digressões judiciais. Não é mole ser Hitchcock, mas o exemplo dele continua inspirando tentativas de atualização do gênero que ele dominou. É bom continuarem tentando, porque ninguém chegou lá.
 
Identidade sexual
 
Na Semana da Crítica, um concorrente italiano, Più buio di mezzanotte, de Sebastiano Riso, decepciou também ao transformar num melodramão a história – baseada em fatos reais – de um adolescente de 14 anos, de traços muito femininos, Davide (Davide Capone), que é maltratado pelo pai, que não aceita seu comportamento e sexualidade.
 
Por conta disto, o garoto foge de casa, acaba nas ruas da Catânia (Sicília), onde se junta a um grupo de jovens michês que sobrevivem dormindo num grande parque da cidade, Villa Bellini, e roubando comida de supermercados, entre um programa e outro.
 
A pedofilia também está no centro da história, que é conduzida com mão pesada, com muito foco em retratar o calvário de Davide e seus amigos, sem saída num mundo de intolerância e exploração. Resultou muito maniqueísta um filme que teria potencial para tratar de um tema sério e importante. Do ponto de vista estético e criativo, também pouco acrescentou. O diretor parece ter esgotado sua energia em tentar chocar o espectador com um realismo que, nem ele, chega às últimas consequências ao referir-se à homofobia, infelizmente, muito real.
 

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