Cannes 2014

Filme turco "Winter Sleep" vence a Palma de Ouro

Neusa Barbosa, de Cannes
 Cannes - Num ano em que nenhum filme isoladamente arrebatou corações e mentes em Cannes de maneira visceral, a Palma de Ouro para o elaborado drama turco Winter Sleep (foto ao lado) [assista ao trailer], de Nuri Bilge Ceylan, no final, fez jus à expectativa dos últimos dias. Triplamente premiado em Cannes antes, duas vezes com o Grande Prêmio do Júri (Distante, em 2002, e Era uma vez na Anatólia, 2011) e um prêmio de direção (Três Macacos, 2008), o diretor turco realizou aqui uma obra fortemente enraizada na literatura e no teatro, com vínculos tanto com Anton Tchecov quanto com Ingmar Bergman, sem deixar de preservar o estilo próprio ao desenrolar um intrincado huis clos, num hotel nas montanhas da Capadócia, envolvendo um dramaturgo, sua jovem mulher e sua irmã divorciada, além de uma série de personagens que gravitam em torno deles.
 
Talvez tivesse sido mais justo dar a Palma a seu filme anterior, Aconteceu em Anatólia, mas esta é uma questão de opinião. O cineasta turco é um dos grandes realizadores mundiais e Cannes nada mais fez do que conceder-lhe o status que merece.
 
Mas o júri presidido por Jane Campion também acenou a novatos, ao premiar o canadense Xavier Dolan, o mais jovem concorrente à Palma (25 anos), com o Prêmio do Júri para o seu drama sobre uma família disfuncional, Mommy. O menino mimado mais badalado do cinema canadense ainda teve o privilégio de dividir este Prêmio do Júri nada menos do que com o mais velho enfant gaté do cinema francês, Jean-Luc Godard, o ícone da Nouvelle Vague, com sua primeira aventura em 3D, Adeus à Linguagem.
 
Lágrimas para Jane Campion
 
Por tudo isso, com bastante motivo e muito senso de ocasião, Dolan fez o discurso mais emocionado da noite. Em lágrimas, ele começou a agradecer em francês, sua língua materna (ele é de Quebec), fazendo questão de passar para o inglês apenas para agradecer pessoalmente a Jane Campion – dizendo que seu filme O Piano (Palma de Ouro aqui) tinha sido o definidor de sua carreira. Entusiasmado, ele disse que “não só os políticos, mas também os artistas podem mudar o mundo” e que “tudo é possível para os que sonham, ousam e não desistem”. Jane Campion levantou de sua cadeira e veio abraçá-lo pessoalmente.
 
Com uma manifestação assim eufórica, além de midiática, Dolan acabou obscurecendo até a premiação a Godard, ainda mais que ele, mais uma vez, não compareceu – como havia acontecido nas sessões do filme no festival.
 
Cinema italiano
 
O segundo prêmio mais importante, o Grande Prêmio do Júri, acabou ficando para o drama familiar italiano Le Meraviglie, terceiro longa da cineasta Alice Rohrwacher, de 32 anos, que acaba de se tornar uma das mais promissoras promessas do cinema italiano. Para coroar seu feito, ela ainda recebeu os prêmios das mãos da diva Sophia Loren, que recebeu diversas homenagens deste festival, no ano em que ela completa seus 80 anos, em plena forma.
 
Dois filmes que estavam bem cotados em algumas bolsas de apostas para a Palma de Ouro, o inglês Mr. Turner, de Mike Leigh, e o russo Leviathan, de Alexei Zvyagintsev – um dos últimos a serem exibidos – foram lembrados com outros prêmios. Para Mr. Turner, ficou o troféu de melhor ator para Timothy Spall, que termina sendo o prêmio mais importante da carreira deste prolífico ator de 57 anos, que não tem sequer um Bafta (teve 5 indicações), nem mesmo uma indicação ao Oscar. Talvez por isso ele se animou ao discurso de agradecimento mais longo da noite, que terminou sendo engraçado, com o ator procurando os óculos e lutando para ler um texto previamente preparado em seu celular, que estava com bateria baixa. Mas era a noite de Spall, que mereceu muito este troféu, por sua encarnação apaixonada e muito humana do amado pintor inglês William Turner.
 
Para o contundente drama político Leviathan, ficou um merecido troféu de roteiro – que foi assinado a quatro mãos pelo diretor Zvyagintsev e por Oleg Negin. Aos 50 anos, tendo vencido o Leão de Ouro em Veneza há 11 anos com o drama O Retorno, o cineasta russo é outro que está sempre na fila para grandes premiações. Mas não foi desta vez. Como não foi a da japonesa Naomi Kawase, cujo Still the Water foi o grande esnobado da noite, sem nenhum prêmio – isso apesar de ter sido cotado como candidato forte num ano em que o júri era presidido por uma mulher e tinha outras três integrantes.
 
Made in USA
 
Os norte-americanos também ficaram bem na foto, com um merecido prêmio de melhor atriz para Julianne Moore, que mostra uma absoluta entrega e coragem como a atriz decadente que protagoniza a ácida sátira a Hollywood Maps to the Stars, do canadense David Cronenberg, que é uma coprodução entre Canadá, EUA, Alemanha e França.
 
Outro norte-americano, Bennett Miller, arrebatou o prêmio de melhor diretor, pelo drama Foxcatcher que com certeza já se qualifica como um candidato aos Oscars 2015, ao reconstituir a relação doentia entre o milionário John Du Pont (Steve Carell) e dois lutadores medalhistas olímpicos (Channing Tatum e Mark Ruffalo), que terminou em assassinato. É um impulso e tanto à carreira de Miller, que tem apenas 47 anos e está em seu quarto longa.
 
O Caméra d’Or, cobiçado prêmio destinado a diretores principiantes, ficou para o francês Party Girl – que já havia vencido o prêmio de elenco da seção Un Certain Regard. Trata-se de uma espécie de docudrama, que reconstitui na ficção a vida de uma senhora de programa, a sexagenária Angélique – que atua no filme, assim como dois de seus filhos, um deles, Samuel Theis, um dos três diretores, ao lado de Marie Amachoukel e Claire Burger. Prêmios demais, aliás, para uma obra que não é tudo isso, muito menos “selvagem e malcomportada”, como definiu a atriz e diretora Nicole Garcia, presidente do júri do Caméra d’Or.
 
Entre os curtas-metragens, a Palma de Ouro ficou para o colombiano Leidi, de Simón Mesa Soto, com duas menções: para o francês Aïssa, de Clément Trehn-Lalanne, e o norueguês Ja Vi Elsner, de Hallvar Witzo.
Fechando o festival, faltou mesmo fez uma homenagem comme il faut ao recentemente falecido cineasta Alain Resnais. O fato de o mestre de cerimônias do festival este ano ser Lambert Wilson, um de seus atores-fetiche, apenas reforçou o tamanho desta inexplicável lacuna.

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