Festival de Berlim 2014

A violência como metáfora de um mundo em crise de valores

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

Após ter passado boa parte da vida preso, Stratos (Vangelis Mourikis) encontra-se em liberdade e trabalha numa fábrica de pão. Durante o período em que esteve preso, ele teve sua vida salva por Leonidas (Alekos Pangalos), o que o faz tornar-se um matador de aluguel a fim de juntar o dinheiro necessário à liberação de Leonidas através de um plano elaborado pelo irmão deste. Eis o ponto de partida do filme Stratos, dirigido pelo grego Yannis Economides.
 
O propósito do diretor é, a partir da trajetória percorrida por Stratos, criar uma parábola de todos os valores que estão se desintegrando mundo afora - apesar da insistência dos jornalistas durante a coletiva, em busca do paralelo imediato entre a crise na Grécia e o personagem-título do filme, Economides sublinhou sua teoria segundo a qual a real crise é aquela que abarca todo o mundo ocidental, este território global onde tudo pode ser comprado e vendido. Uma realidade onde a coerência requer uma boa dose de relativismo para ser consolidada. Não é por já ter perdido a conta de quantas pessoas já matou que Stratos será menos atencioso com Katerina (Polina Dellatola), a filha de 8 anos de sua vizinha, de quem ele cuida esporadicamente.
 
E a câmera que mantém seu foco em Stratos durante a maior parte do filme revela em seus silêncios a desolação que o habita.
 
O filme No Man’s Land, último representante chinês apresentado em Berlim, traça um caminho análogo. Se fosse necessário defini-lo com apenas uma palavra, certamente seria : eletrizante. Ao longo das quase duas horas de duração, o diretor Ning Hao, presente na mostra Forum em 2005 com Mongolian Ping Pong, nos leva a percorrer o deserto do Gobi a bordo de um Mustang vermelho guiados Por Pan Xiao (Xu Zheng), que o recebeu como recompensa por ter defendido Lao Da (Duo Bujie) de acusações de condução perigosa.
 
A estrada que vai ser percorrida, assim como os personagens que aparecem no caminho de Pan, são elementos que encontram eco na visão do diretor da China atual : um país desgovernado, regido por pessoas desprovidas de qualquer senso moral e que estão dispostas a tudo no seu caminho rumo ao sucesso e ao poder.
 
Dois filmes fortes, muito distintos um do outro, mas que convergem num mesmo foco: o de que o mundo em que vivemos requer um filtro mais abrangente para ser analisado e que o ambiente de crime não pode ser apreendido de maneira isolada da sociedade no qual está inserido.

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