Festival de Berlim 2014

Seções paralelas mostram cineastas brasileiros em busca de inovação visual

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

Castanha, filme brasileiro dirigido por Davi Pretto e presente na seção Fórum, nasceu de um encontro, o do diretor com João Carlos Castanha. Na verdade, foram vários encontros, o primeiro deles em 2008 quando João foi um dos atores do curta de formatura de Davi. Três anos depois, iniciaram conversa para realizarem um filme sobre sua vida. Já imerso no ecletismo da vida e da obra de João, Davi sabia que um filme minimamente coerente com o seu percurso não deveria ater-se à preocupação de encaixar-se como documentário ou ficção, afinal a vida de João é plural : autor e ator teatral com mais de 30 anos de carreira, João Carlos também é Maria Helena, seu alter-ego feminino que percorre bares e boates com seu sarcasmo e sua intensidade.
 
Sua voz ecoa em busca de um caminho de expressão de tudo aquilo que faz parte de sua obra, mas também de sua vida, esta compartilhada com a mãe, Celina, com a qual vive numa relação simbiótica, apesar das divergências – sobretudo no que se refere a Marcelo, irmão mais novo de João, envolvido com drogas. Desta maneira, o filme é também sobre Celina Castanha e sobre o amor que a une ao seu filho, bem como sobre a arte da convivência – no palco e na vida. 
 
Como o próprio João afirmou durante a discussão com o público: « Todas as vidas são tristes e mágicas ao mesmo tempo ». E a beleza do filme reside justamente em não querer colocar etiquetas, nem transpor sua trajetória às telas de maneira espetacular.
 
Em O homem das multidões, filme brasileiro presente na seção Panorama, há também esta preocupação em criar uma nova forma de narrativa. Trata-se de um filme ímpar feito de pares - é o resultado da parceria entre o cineasta Marcelo Gomes (Era uma vez eu, Verônica) e o artista visual e cineasta Cao Guimarães (Da janela do meu quarto), representando o desafio de fazer a síntese do trabalho destes artistas tão diferentes – Cao apresenta uma obra muito baseada em documentários, ao passo que Marcelo em ficção.
 
O fio condutor deste projeto, que buscava retratar a solidão do homem moderno nas grandes cidades, foi o conto de Edgar Allan Poe, The man in the crowd. A solidão de Cao e de Marcelo é ambientada em Belo Horizonte, mais especificamente no metrô da cidade, onde trabalham os dois personagens principais da trama : Juvenal (Paulo André), que trabalha como maquinista e Margô (Sílvia Lourenço),  funcionária na sala de controle. Para sublinhar a presença deles em meio à multidão, os cineastas optaram por uma proporção quadrada – criando um resultado que se assemelha às fotos polaroide e, por que não, ao formato padrão instagram. As margens laterais resultadas disto servem igualmente para ampliar a percepção imaginativa e acentuar elementos não-visuais, como os sons urbanos.
 
O filme, que foi apresentado na última edição do Festival de Tiradentes, utiliza os elementos que fazem parte do cotidiano de seus personagens centrais para enveredar em questões mais existenciais, sobre como o olhar do outro pode revelar uma nova percepção, assim como ressaltar esta solidão que independe da quantidade de pessoas que atravessam nosso caminho a cada dia.
 
Como o próprio Marcelo ressaltou no debate com o público: « Fala-se pouco no filme e quando se fala é um impacto ». Deste modo, da mesma maneira como Juvenal e Margô representam estruturas narrativas complementares, o silêncio e a palavra surgem como elementos indissociáveis em busca de novas maneiras de instigar a inspiração. 

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