Festival de Berlim 2014

Filme de Daniel Ribeiro conquista Berlim

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim
Não há dúvidas de que o filme brasileiro que está sendo a grande sensação desta Berlinale é Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Dirigido por Daniel Ribeiro, o filme representa um verdadeiro turning point na carreira do jovem diretor brasileiro, que com este primeiro longa-metragem vem a confirmar o sucesso de seus curtas. A previsão de estreia brasileira é 28 de março. 
 
Aliás, o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, realizado em 2010 e que transformou-se num verdadeiro fenômeno (mais de 3 milhões de visualizações no youtube), é o embrião do longa apresentado em Berlim. Foi no curta que conhecemos o trio de protagonistas presentes igualmente no longa : Leonardo (Ghilherme Lobo), adolescente cego que tem como grande amiga e confidente Giovana (Tess Amorim), e Gabriel (Fabio Audi), o novo aluno que chega à escola onde eles estudam.
 
A estreia mundial do longa, ocorrida nesta semana, em meio a uma sala absolutamente lotada, mostra que ele vai certamente alçar voos bem mais ambiciosos. E méritos não faltam, a começar pelo roteiro que, mantendo a descoberta do primeiro amor como foco central, agregou nestes anos em que o projeto foi executado a maturidade de escrita do diretor e roteirista, que habilmente aproveitou-se da evolução de seus personagens para adicionar questões mais complexas. Se no curta o tema central era falar do primeiro beijo, no longa os personagens encontram-se numa busca de identidade mais profunda, buscando seu lugar no mundo.
 
O que representa para Leonardo uma interação maior com seus colegas de classe, mas sobretudo o conflito frontal com os pais – sobretudo com a mãe (interpretada por Lúcia Romano) – o que explica o título do filme. O roteiro cria situações que refletem esta expansão no horizonte da vida de Leonardo, bem como seu anseio em explorar seu interesse cada vez maior por Gabriel. Além dos conflitos que irão surgir com Giovana, inconformada de perder a exclusividade da atenção de Leonardo.
 
Não é apenas um filme que relata um amor gay, e sim um filme que fala sobre a descoberta do amor em toda sua universalidade. A cegueira de Leonardo permite que o amor seja apreendido em seu aspecto mais metafórico e abstrato. A própria expressão « amor à primeira vista » revela o quanto associamos o surgimento do sentimento amoroso à visão : a imagem do outro é aquilo que cria o vínculo inicial – o coup de foudre, como diriam os franceses. Leonardo vive na escuridão e o caminho que trilha para percorrer seus sentimentos mostra o quão limitados são os horizontes daqueles que enxergam apenas o que é visível aos olhos.
 
Se os personagens secundários representam um grande mérito do filme, é incontestável que Tess, Ghilherme e Fabio são o grande trunfo do projeto. No longa, a interação entre eles é tão fluida que temos a impressão que eles frequentaram de fato a mesma escola ao longo destes anos que separam o curta do longa. Cada um deles abarca seu personagem em toda sua complexidade, conferindo uma consistência ao projeto que certamente vai expandir muitas fronteiras. Quem sabe até não ganha o Teddy. 

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