Festival de Berlim 2014

Diretoras latino-americanas destacam-se na reta final do festival

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

O novo filme da diretora argentina Celina Murga representa uma volta ao lar. La tercera orilla, presente na competição, foi rodado na província onde ela cresceu. É lá que vive Jorge (Daniel Veronese) um respeitável médico que possui duas famílias, sendo que a não-oficial é mais numerosa, afinal ele e Nilda (Gaby Ferrero) tiveram quatro filhos. Nicolas (Alian Devetac) é o mais velho e também o protagonista desta trama onde a relação pai-filho é o que interessa à diretora.
 
Nicolas vive um momento em que renega o seu pai, mas este está cada vez mais incisivo em seu objetivo de ter um herdeiro à altura de suas expectativas. E elas não são poucas : ele quer que o rapaz de 17 anos seja médico como ele, trabalhe como estagiário no laboratório onde ele próprio trabalha, cuide da sua fazenda. Enfim, não é difícil imaginar que Nicolas está prestes a transbordar.   
 
A tradução literal do título do filme seria A terceira margem do rio. Apesar de conhecer o conto de Guimarães Rosa, Celina Murga assegurou não tê-lo em mente ao batizar seu filme. No caso de La terceira orilla, este não-lugar presente no título representa o espaço em que vive Nicolas atualmente. Esta margem simboliza esta zona invisível entre a infância e a vida adulta, entre estar do lado do pai, mas também em defesa de sua família. Uma região que abriga todas as expectativas ao redor de Nicolas, mas também esta zona onde ele poderá lidar com toda a ebulição de sua vida a fim de conhecer a si mesmo.
 
Este projeto contou com apoio de Martin Scorsese que, ao eleger Celina como uma de suas pupilas, deu-lhe vários conselhos sobre o roteiro, além de ter-se tornado produtor executivo do filme.
 
Foram vários os filmes desta seleção oficial que tiveram como foco da ação dramática a relação entre mãe e filho. No caso de Aloft, filme da peruana Claudia Llosa – vencedora do Urso de Ouro em 2009 com A teta assustada –, esta é apresentada em dois momentos bem distintos : no início do filme, nos deparamos com Nana Kunning (Jennifer Connelly) às voltas com seus dois filhos pequenos. Na sequência, encontramos seu filho mais velho Ivan (Cillian Murphy) no momento em que este recebe a visita de Jania (Mélanie Laurent), uma jovem jornalista que propõe a Ivan acompanhá-la a fim que ele possa reencontrar a mãe, que o abandonou quando ele ainda era criança em busca de um projeto de vida em que pudesse associar arte com seus dons de curadeira.
 
Ao inserir este elemento místico no cerne da vida, procura-se provocar um questionamento acerca daquilo que o antropólogo Joseph Campbell chamava de busca da bem-aventurança, ou seja, a conexão com a verdade interior de cada personagem.
 
Não por acaso, o misticismo retratado encontra-se vinculado à natureza. No passado, ele se ambienta num bosque, onde curiosas cabanas e estruturas criadas a partir de galhos e gravetos fazem parte do projeto de cura. Já no presente, em função de sua decisão de aprofundar-se no misticismo mas sem ceder aos apelos midiáticos, a mulher instala-se nos confins gelados do Canadá.
 
Estas duas cronologias sustentam a tensão dramática do filme, permitindo a Claudia expor a complexidade psicológica daquilo que une e separa Nana e Ivan.

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