Festival de Berlim 2014

Últimos filmes da competição acentuam as questões familiares

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

Nada menos do que seis filmes presentes na competição desta Berlinale são protagonizados por crianças e/ou adolescentes. O último deles a ser apresentado foi Macondo, produção austríaca dirigida por Sudabeh Mortezai (Children of the Prophet). A realidade retratada não é uma referência à cidade imaginária criada por Gabriel García Marquéz no livro Cem anos de solidão, mas sim ao abrigo de refugiados localizado próximo de Viena e assim batizado por exilados chilenos, que eram uma das comunidades presentes nos anos 70.

Atualmente, as comunidades em maior número são as do Afeganistão, da Somália e da Chechênia. E foi esta última que Sudabeh decidiu retratar em seu filme. Após um período de laboratório no abrigo de refugiados, a diretora lançou-se à escrita do roteiro e também ao casting do elenco junto a atores não-profissionais e que tivessem pontos em comum com os personagens que eles iriam encarnar.
 
Ramasan (Ramasan Minkailov) é um garoto de 11 anos que vive com a mãe (Kheda Gazieva), com as irmãs e com a onipresente figura do pai - morto na guerra da Chechênia e considerado um herói por todos, mas do qual ele não possui nenhuma lembrança. O jovem acaba por assumir muitas responsabilidades, primeiramente por ser aquele que melhor fala alemão – tornando-se o porta-voz da família em todos os trâmites junto às autoridades austríacas – e também por acumular os cuidados junto às irmãs e a gestão de boa parte da vida doméstica.
 
A chegada de Isa (Aslan Elbiev), um veterano do conflito checheno e que conheceu o pai de Ramasan, faz com que este oscile entre a integração e a rejeição desta nova figura paterna. Muitos paralelos podem ser traçados com Jack, um dos primeiros filmes apresentados na competição: a ausência do pai, uma criança tendo que assumir responsabilidades junto à família. Mas, no caso do filme de Sudabeh, os conflitos com que se depara Ramasan apresentam um extensão mais ampla, ligada ao aspecto semidocumental do filme.
 
O último filme exibido foi Little House, dirigido pelo veterano diretor japonês Yoji Yamada (Uma Família em Tóquio). A pequena casa em questão é aquela onde trabalhou por vários anos Taki (Haru Kuroki) e este fato vem à tona apenas após a sua morte. Sem nunca ter casado ou tido filhos, ela deixa de herança a seu sobrinho, Takeshi (Satoshi Tsumabuki), um diário em que vai relatar os anos passados nesta casa, junto ao casal Tokiko (Satoshi Tsumabuki) e Masaki (Takataro Kataoka).
 
O filme constrói-se ao redor das memórias de Taki, que refletem não apenas sua rotina, mas sobretudo a história do Japão a partir da década de 30 até o fim da II guerra mundial. O diretor, ao criar um diálogo entre Takeshi e Taki já idosa (vivida por Chieko Baisho), faz da narrativa algo que, ao unir a história social com a história íntima, transcende as barreiras entre passado e futuro.
 
Com a exibição deste filme, o vigésimo na corrida pelo Urso de Ouro, todos os dados foram lançados. Agora resta aguardar a decisão do júri presidido pelo produtor James Schamus.

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