Festival de Berlim 2014

Wes Anderson conquista Berlim com "The Grand Budapest Hotel"

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

 Bem-vindos à República (imaginária) de Zubrowka, país situado nos confins do leste europeu e que abriga um hotel que reina no alto de uma montanha. Tanto o país quanto o hotel foram afetados por grandes acontecimentos no século XX : a belle époque cedeu lugar a um crescente fascismo, que culminou com uma guerra. Como se não bastasse, o país fez parte do bloco comunista. Eis o pano de fundo em que se desenrola The Grand Budapest Hotel, filme de Wes Anderson (Moonrise Kingdom), que deu início ao 64° Festival de Berlim, conquistando aplausos unânimes da imprensa.
Não sem razão, visto que não faltam superlativos ao filme, a começar pelo elenco, um verdadeiro desfile de grandes atores: Ralph Fiennes (M. Gustave, o concierge), Jude Law (jovem escritor), Adrien Brody (Dmitri), Edward Norton (Henckels), Bill Murray (M. Ivan), sem falar na memorável atuação de Tilda Swinton, irreconhecível na pele de uma milionária octagenária, Madame D. Seria injusto não mencionar a excelente atuação do novato Toni Revolori (Zero, fiel escudeiro do concierge) e da bela Saoirse Ronan (Agatha).
Além desta constelação de talentos, o filme impressiona pela fluidez com a qual a ação se desenrola. Tanto os atores, quanto o roteiro, a fotografia, o figurino, tudo foi pensado de modo a fazer da trama de Wes Anderson uma verdadeira alegoria dos eventos que marcaram a Europa no século passado através daqueles que o viveram.
A trajetória do concierge vivido por Ralph Fiennes chega até nós graças ao encontro daquele que foi seu fiel escudeiro com um jovem escritor - espécie de alter-ego do escritor Stefan Zweig (austríaco que, desencantado com os rumos da 2ª guerra, suicidou-se em Petrópolis, em 1942), cujos livros serviram de inspiração na construção do roteiro. Esta parte da ação ocorre nos anos 60, mas logo seremos transportados aos anos gloriosos do hotel, no começo da década de 1930, quando os corredores eram percorridos pela elite europeia e M. Gustave era um verdadeiro maestro, tendo que lidar com os caprichos dos hóspedes, mas também com a rotina dos empregados - tudo isto sem jamais perder a classe.
The Grand Budapest Hotel é um filme onde cada personagem parece retratar com grande talento os encantos deste microcosmos – e a trama apresenta reviravoltas no melhor estilo Agatha Christie. Visualmente, a sincronia dos movimentos da câmera em relação ao roteiro e às nuances de interpretação remete a filmes como Delicatessen (Jean-Pierre Jeunet, 1991). O edifício usado nas filmagens foi uma antiga loja de departamentos localizada em Görlitz, cidade alemã junto às fronteiras com a Polônia e com a República Tcheca.
Vale lembrar que em 2014 a organização do festival quebrou a tradição e apresentou em sua abertura um filme candidato ao Urso de Ouro (nos anos anteriores, o filme de estreia não era candidato à premiação - como foi o caso em 2013 do filme The grandmaster, de Wong Kar-Wai, ainda inédito no Brasil). Decisão mais do que acertada.
 
Assista ao trailer do filme

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