Festival de Berlim 2014

Competição começa com homens em busca de identidade

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

A primeira semana do festival começou com uma excelente surpresa local, o filme Jack, do diretor alemão Edward Berger. O pôster de divulgação, espalhado pelas ruas que levam ao Berlinale Palast, revela indícios da essência do filme : vemos em destaque o rosto de Jack (o estreante Ivo Pietzcker), uma imagem que combina inocência com uma certa gravidade, denunciada pelo olhar do garoto que está em busca de algo. Esta dualidade é apresentada já no começo do filme, quando vemos Jack a gerenciar a rotina da casa (acordar o irmão mais novo, Manuel, interpretado por Georg Arms, assim como preparar seu café da manhã) com uma destreza impressionante, ainda mais por realmente nos convencer de que é ele de fato o chefe daquela família berlinense.
 
Esta, de fato, é completada por Sanna (Luise Heyer), a jovem mãe (solteira) dos dois garotos, que, em função de sua instabilidade profissional e amorosa, parece criar os filhos sem realmente assumir a carga de responsabilidade necessária. Apesar de tudo, os três encontraram uma harmonia que é permeada por uma real ternura, o que não é suficiente para convencer os serviços sociais que os separam, enviando Jack a uma instituição.
 
A ruptura do seu núcleo familiar faz com que ele seja confrontado não apenas com uma nova realidade externa, mas também com a perda de seus alicerces internos, o que culmina com sua fuga e início de uma etapa em sua vida : ele inicia sua peregrinação em busca da mãe, que desapareceu. Neste caminho, mais do que reconhecer Berlim e seus monumentos, recriamos uma cidade paralela constituída pelos lugares que são emblemáticos deste momento na vida de Jack : o carro abandonado num estacionamento, que se torna um dormitório improvisado, a porta de sua antiga casa, onde ele retorna várias vezes com a esperança que a mãe tenha voltado.
 
Um filme que aborda temas complexos de uma maneira extremamente delicada graças à força na interpretação de Ivo e à maneira como seus sentimentos estão sintonizados.
 
Ainda na competição principal, um filme britânico apresentou um jovem que, de certa maneira, também foi deixado para trás. Não apenas pela sua mãe, mas pelo seu país. O filme em questão é '71, filme de estreia do diretor Yann Demange. O título é uma referência ao ano em que os conflitos na Irlanda do Norte beiravam uma guerra civil. Belfast era uma cidade sitiada, apresentando protestantes e católicos coabitando as mesmas zonas. É para lá que vai ser enviado o jovem recruta Gary Hook (Jack O’Connell), recém-integrado às forças armadas. À exceção de um irmão mais jovem, que se encontra aos cuidados de uma instituição, ele não possui outra família.
 
Um imprevisto numa operação-padrão do exército numa área de conflito faz com que Gary seja abandonado pela sua tropa. Na sua errância pelo labirinto explosivo em que se transformou Belfast, Gary vai deparar-se com a possibilidade de sua própria morte em cada esquina.
 
Neste ambiente inóspito, onde carros em chamas estão por toda parte e crianças manuseiam armas com destreza (e frieza), a violência é retratada de maneira pertinente. A grande astúcia do diretor é não adotar um visão maniqueísta e muito menos simplista. Desta maneira, a vida de Gary não depende apenas de seu próprio instinto de sobrevivência, mas também de como virão à tona as incoerências que constituem aqueles que estão prontos a sacrificarem suas vidas em nome de suas crenças.
 
Se a violência é explícita em ’71, não se pode dizer o mesmo do filme do diretor franco-argelino Rachid Bouchareb, La Voie de l’Ennemi ou Two Men in Town. Trata-se do segundo volume de sua trilogia americana, iniciada em 2012 com Simplesmente uma Mulher. Neste novo filme, a violência está contida no corpo de William Garnett, vivido por Forest Whitaker (vencedor de Cannes em 1988 pela sua interpretação em Bird, de Clint Eastwood).
 
Afinal é neste corpo que se encontra represada toda a precariedade que constituiu sua vida até então: ruptura com sua mãe adotiva e uma extensa ficha criminal, que resultou em dezoito anos de prisão. Sua conversão ao islamismo faz com que William queira de fato redimir-se, o que permite que ele receba uma liberdade condicional. No entanto, do lado de fora, o xerife Bill Agati (Harvey Keitel) não perdoou aquele que matou seu assistente.
 
Nem tudo está perdido para William, pois ele pode contar com o apoio de Emily Smith (Brenda Blethyn), recém-transferida para a região e incubida da inserção de prisioneiros liberados.
 
Apesar de Bouchareb ter sublinhado durante a coletiva que não quis retratar esta realidade de maneira simplista, em alguns momentos o resultado obtido é o contrário, fazendo com que o filme perca sua carga dramática (por exemplo, nos encontros de William com seu ex-comparsa do crime).
 
O ponto forte do filme encontra-se na atuação de Brenda, atriz britânica que já havia trabalhado com o diretor em 2008, no filmeLondon Rivere que nos impressiona na sua interpretação de uma ‘autêntica americana’, que pontua seus momentos de lazer escutando músicas de Barbara (cantora francesa de grande sucesso nos anos 60 e 70).
 
Vale ressaltar que o filme é inspirado num filme francês Deux hommes dans la ville, de 1973, que contava com Alain Delon no papel de prisioneiro liberado.

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