Festival de Berlim 2014

O feminino, entre o sagrado e o profano, no Festival de Berlim

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

Duas mulheres apaixonam-se pelo mesmo homem e este amor é correspondido, criando o contexto perfeito para um triângulo amoroso. Se isto já não fosse suficiente para imaginar um romance fora dos padrões, é preciso saber que estamos falando de uma história ambientada na Alemanha do final do século XVIII e que o triângulo é formado por duas irmãs e por ninguém  menos que o escritor Friedrich Schiller (1759-1805). Eis a sinopse do filme Beloved Sisters, de Dominik Graf. Ao longo das quase três horas de duração (é o filme mais longo da competição), acompanha-se toda a evolução deste relacionamento tendo como pano de fundo uma impressionante reconstituição histórica da época.
 
Foi no ano de 1788 que o jovem, e praticamente desconhecido, Schiller (Florian Stetter, conhecido por seu papel em  Sophie Scholl) vai cair nos encantos de Caroline(Hannah Herzsprung) e Charlotte (Henriette Confurius), irmãs inseparáveis, dando início a um jogo de sedução e ao projeto da concretização deste projeto de ménage-à-trois, o que implica confrontar-se com todas as convenções vigentes. Aliás, estas são responsáveis por um dos recursos utilizados no filme : uma voz em off que narra os sentimentos mais íntimos dos personagens, contidos em cartas que tecem os fios nos quais se sustentará este improvável relacionamento
 
Como o objetivo do diretor não era fazer um documentário, ele permitiu-se adicionar muitos elementos no roteiro, a começar pelas cartas, e valorizou um trabalho de preparação extremamente meticuloso que desse opportunidade a cada um dos atores de adotar com grande naturalidade um visual, uma postura e um vocabulário tão distantes no tempo. Pena que a partir da segunda metade o filme se assemelhe mais a um telefilme destinado a um público especificamente alemão.
 
Em uma direção completamente oposta, mas não menos surpreendente, encontra-se um outro filme alemão, Stations of the Cross, dirigido por Dietrich Brüggeman. O filme é dividido em catorze partes, cada uma intitulada de acordo com as etapas da via sacra. Em cada uma delas vamos mergulhar na rotina da família da jovem Maria, interpretada por Lea van Acken. Esta adolescente, que vive com seus pais e três irmãos, entrega-se com fervor aos preceitos mais radicais da comunidade católica que ela frequenta e está disposta a renunciar a tudo para manter-se fiel a eles.
 
Prestes a ser crismada, Maria não deixa de ter que lidar com todas as adversidades comuns na vida de qualquer adolescente : o conflito com a mãe possessiva, o bullying sofrido na escola, o despertar das primeiras paixões, sem falar na inexplicável mudez de seu irmão mais novo.  Cada uma das partes foi filmada com uma câmera fixa e em plano-sequência, o que faz com que o filme ganhe muito em força dramática, tendo sido alçado como o favorito dos  apresentados até agora, graças também à impressionante atuação de Lea - que felizmente chegou à coletiva descontraída e despida de todos os tormentos que a habitam ao longo do filme.
 
Foi um grande acerto a decisão da organização do festival projetar os dois filmes próximos um do outro pois isto, permitindo um confronto ao paradoxo de um filme com valores libertários que se passa há mais de anos diante de um outro, contemporâneo, que expõe valores extremamentes conservadores. Com direito ao improvável reencontro com o ator Florian Stetter, aquele que encarnou o libertário (e libertino) Frederich Schiller, agora na pele do jovem padre Weber, responsável pela rígida formação espiritual de Maria.

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