Festival de Berlim 2014

Contraste de gerações contrapõe filmes argentino e francês em Berlim

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

Diante do ecletismo dos candidatos ao Urso de Ouro, é natural que haja um grande contraste entre os filmes. Em alguns casos, no entanto, constar entre os vinte selecionados já é um dos grandes trunfos. Este é o caso de Historia del Miedo, longa de estreia do argentino Benjamín Naishtat – o mais jovem diretor presente na competição, com 28 anos. Seu filme, sobretudo pela temática, remete ao aclamado O Som ao Redor, do diretor Kleber Mendonça FIlho, com a grande diferença de deixar muito a desejar em sua abordagem da paranoia que ronda a classe média argentina.
 
Os personagens de Benjamin são retratados através de cenas corriqueiras e também de pequenos imprevistos que se impõem : um elevador que falha, uma empregada que desmaia enquanto passa aspirador, o anúncio pela TV da queda de um meteorito, desajustes que refletem o mecanismo do medo, sempre engatilhado. Pronto para disparar. Especialmente nas afueras, ou seja nos arredores da cidade, onde o a natureza mescla-se com lixo e com os perigos iminentes.
 
Logicamente, falar de tudo isto significa também falar da precarização econômica do país, do aumento da violência. Diferentemente do que o título possa sugerir, o diretor não aprofunda as razões da origem deste fenômeno, sua história propriamente dita, nem o medo em si. Ele apenas gravita ao redor.
 
Em compensação, o veterano cineasta francês Alain Resnais optou por abordar as pequenas intrigas (que por vezes ocultam grandes segredos) de três casais em seu filme Aimer, Chanter et Boire, inspirado na peça Life of Riley, do dramaturgo britânico Alan Ayckbourn (de quem Resnais filmou Medos Privados em Lugares Públicos). George Riley torna-se o centro de uma série de discussões quando o Dr. Colin (Hyppolite Girardot) conta à sua mulher Kathryn (Sabine Azéma) acerca da sua suposta doença terminal. Em paralelo, Kathryn ensaia uma peça de teatro, juntamente com Tamara (Carolhine Silhol), que é casada com Jack (Michel Vuillermoz).
 
Toda a ação se passa em Yorkshire e Resnais, o cineasta mais velho na corrida ao prêmio máximo (93 anos), opta pela originalidade e coloca seus personagens em cenários teatrais. A proposta de Resnais é criar uma confusão mental na cabeça do espectador : estamos vendo um teatro filmado ? Bom, talvez não… talvez seja uma forma diferente de fazer cinema. É mais do que admirável este frescor, bem como seu tratamento do texto de Alan Ayckbourn. O que não impede que em alguns momentos o filme exagere em seus preciosismos. 

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança