MOSTRA INTERNACIONAL DE SÃO PAULO

Clássicos de todos os tempos, entre violência e ternura

Equipe Cineweb
Um domingo cheio de discussões sobre a violência – como em Um Toque de Pecado e Laranja Mecânica - , mas também com espaços para rever as muitas formas do afeto, como em A Ternura. E um imortal clássico sobre os paradoxos do Brasil em Cabra Marcado para Morrer. Confira a seguir.
 
 Um toque de pecado
Neste novo filme, prêmio de melhor roteiro em Cannes 2013, o diretor chinêsZhang-Ke ousa sair de um território conhecido, numa história que retrata diversas situações de violência, justiça com as próprias mãos e criminosos que escapam à justiça oficial, apontando para uma visão crítica do estado das coisas em seu país. Assim, fez seu filme mais violento até agora, abordando diretamente a criminalidade e também o cinema de gênero – o filme policial, a ação de Taiwan, o filme de samurai – para tecer, mais uma vez, uma crônica polifônica sobre a China contemporânea. Mas que fala também do mundo todo, especialmente dos países emergentes.
Como em Em Busca da Vida, o mundo do trabalho tem uma função muito decisiva na história. Jia mostra os trabalhadores em trânsito pelo país, imenso e em expansão – ao contrário do continente europeu –  , dinâmico, enérgico, mas também turbulento. Vê-se as caras dos donos do poder econômico, industriais, e também os chefes políticos corruptos, capazes de vender patrimônio público e enriquecer em proveito próprio – o que gera a ira de Dahai (Jiang Wu), protagonista do primeiro segmento.
Como Em Busca da Vida – e também era assim em Plataforma (2000), não há uma divisão em segmentos. Mas a história, coletiva no final, decola nas trajetórias de diversas pessoas, que vão partindo, enquanto outras chegam. O próprio Jia, tal qual um Hitchcock, aparece numa ponta, como cliente de um gigantesco hotel, repleto de diversões bizarras para seus clientes novo-ricos – como um desfile de call girls vestidas em uniformes estilizados, com saia curtíssima, do exército chinês, numa reapropriação excêntrica das cores que fizeram a Revolução de Mao Tsé-Tung, em 1949.
Como fez magistralmente em O Mundo, o diretor demonstra um olhar fino para retratar esses ambientes artificiais imensos – como esse mega-hotel, uma sauna, mesmo as fábricas, as enormes linhas de montagem que engolem essas multidões de operários que fabricam os produtos que depois invadem os mercados do mundo.
Jia continua fiel a esse seu sentido do coletivo. Mesmo quando retrata um único indivíduo, seja um trabalhador que se torna matador, ou a recepcionista de sauna (Zhao Tao, sua atriz-fetiche) que mata um cliente abusivo, o cineasta sintoniza seu contexto, seu lugar no mundo. E, como ninguém, se debruça sobre esse enorme e intrigante planeta chamado China, com uma sede de compreendê-lo por quem faz parte dessa água. (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
RESERVA CULTURAL 1                      27/10/2013 - 21:45 - Sessão: 876 (Domingo)
CINESESC                                30/10/2013 - 21:30 - Sessão: 1136 (Quarta)
CINE SABESP                             31/10/2013 - 14:00 - Sessão: 1196 (Quinta)
 
 Cabra Marcado para Morrer
O mais conhecido, premiado e o verdadeiro ponto de virada na carreira do cineasta Eduardo Coutinho não poderia faltar nesta retrospectiva promovida pela Mostra. Filme único, até pela história de sua produção, merece ser visto e revisto, ainda mais em cópia recentemente restaurada. O adjetivo “imperdível” cai bem a poucos filmes como a este. (Neusa Barbosa)
 
Leia a crítica do filme 
 
Indicação: 12 anos
CINEMATECA - SALA BNDES                 27/10/2013 - 18:00 - Sessão: 852 (Domingo)
CINUSP - MINDLIN                        29/10/2013 - 19:00 - Sessão: 1075 (Terça)
 
 Las Analfabetas
Baseado numa peça de Pablo Paredes, conhecido dramaturgo, poeta e produtor chileno, que foi corroteirista com o diretor Moysés Sepúlveda, o filme conta a história de uma mulher de 50 anos, analfabeta, Ximena (Paulina Garcia) e de uma professora recém-formada e desempregada, Jackeline (Valentina Muhr). Ximena escondeu de todos a vida inteira seu analfabetismo. Mas cria-se uma situação entre as duas personagens a partir de uma carta do pai de Ximena, que ela guarda e nunca soube o que contém.
 
Leia a entrevista do diretor Moysés Sepúlveda
 
Indicação: 14 anos
CINE LIVRARIA CULTURA 1                 27/10/2013 - 14:00 - Sessão: 857 (Domingo)
 
 A Gaiola Dourada
Para quem busca um programa mais leve na Mostra, uma boa oportunidade é a comédia A Gaiola Dourada, o primeiro longa do diretor francês Rubem Alves. Inspirado na vida da própria família, faz um retrato bastante bem-humorado dos imigrantes portugueses na França.  
Em Paris há mais de 30 anos, o casal Maria (Rita Blanco) e José (Joaquim de Almeida) – inspirado diretamente nos pais do diretor, a quem homenageia nesta produção - é um modelo de candura e boa vizinhança. Enquanto ele trabalha na construção civil, ela é zeladora de um condomínio elegante onde vivem com os filhos, Paula (Barbara Cabrita) e Pedro (Alex Alves Pereira).
Prestativos ao máximo, são praticamente explorados por familiares e condôminos ao não conseguir dizer não aos abundantes pedidos de ajuda. Porém, tudo muda quando chega a notícia de que José e Maria receberam uma herança, mas precisarão, para isso, voltar a viver em Portugal. E ninguém vai deixar que isso aconteça.     
A produção conta com um elenco bastante irreverente, como a atriz Maria Vieira, que já veio ao Brasil convidada para fazer novelas (Aquele Beijo). Questionado sobre a forma caricatural com que encena os imigrantes portugueses, Alves foi categórico ao afirmar que se trata de sua comunidade. “A comédia passa os temas de forma mais fácil. É saudável rir de nós mesmos”, argumenta. (Rodrigo Zavala)
 
Indicação: 14 anos
CINEMATECA - SALA PETROBRAS             27/10/2013 - 17:30 - Sessão: 855 (Domingo)
RESERVA CULTURAL 1                      31/10/2013 - 21:40 - Sessão: 1227 (Quinta)
 
 A Ternura
A diretora francesa Marion Hänsel, uma habituê da Mostra – autora de Entre o Inferno e o Profundo Mar Azul (95) – assina aqui um filme cálido e esperto sobre a delicadeza. Separados há 15 anos, mas mantendo uma relação amistosa, Lise (Maryline Canto) e Frans (Olivier Gourmet) partem de Bruxelas para a França, para trazer de volta o filho, Jack (Adrien Jolivet), que sofreu um acidente de esqui. A viagem recoloca-os numa situação de convívio que traz à tona várias memórias e sensações, como solidariedade, cumplicidade e afeto. Mas há algo mais? Paralelamente, corre a história de Jack que, por causa do acidente, teme seu futuro como instrutor de esqui e também o desenrolar de sua paixão por Alison (Margaux Châtelier).
Se fosse um filme hollywoodiano, haveria grandes dramas, revelações, viradas drásticas, lágrimas, gritos. Nada disso ocorre aqui. As pequenas surpresas surgem de incidentes aparentemente gratuitos, como a aparição de um carona ISergi López) ou um passeio de Lise na neve à noite, acompanhando o guarda da estação de esqui. A Ternura é muito o que o nome diz, um quase nada, um pouco de tudo, sustentado por um elenco afinado, sob o olhar de uma diretora talentosa. (Neusa Barbosa)
Indicação: 12 anos
CINE LIVRARIA CULTURA 2                 27/10/2013 - 18:20 - Sessão: 864 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 5 29/10/2013 - 22:00 - Sessão: 1074 (Terça)
CINE LIVRARIA CULTURA 2                 30/10/2013 - 16:00 - Sessão: 1118 (Quarta)
 
 O Sol por Testemunha
Parece covardia destacar clássicos numa programação tão cheia de descobertas quanto a Mostra, mas não dá para deixar passar a menção à belíssima cópia restaurada deste suspense de 1960 de René Clément, que teve sua première no Festival de Cannes, com direito a presença do galã Alain Delon, os velhos olhos azuis impecáveis aos 77 anos.
Se é do filme que é preciso falar, então lembre-se de que é uma das melhores adaptações da escritora Patricia Highsmith na tela e que Delon compôs uma das melhores encarnações do dúbio personagem Tom Ripley. Esta é a história que marca, justamente, como Ripley encontrou um meio de apropriar-se da riqueza que o destino não lhe concedeu, iniciando uma trajetória marcada pelo engano e o crime. No elenco, as muito belas Marie Laforêt e Romy Schneider, ao lado de Maurice Ronet – no papel de Philippe, um jovem milionário fútil, que faz Ripley de gato e sapato, mas não tem ideia da cobra que está criando. Programa imperdível, ainda mais com as cores restauradas da fotografia de Henri Decaë (Neusa Barbosa)
 
Leia no blog Celulóide Digital um relato sobre a sessão do filme em Cannes
 
 
Indicação: 12 anos
CINE LIVRARIA CULTURA 1                 27/10/2013 - 17:35 - Sessão: 859 (Domingo)
CINE SABESP                             29/10/2013 - 21:00 - Sessão: 1013 (Terça)
 
 Laranja Mecânica
Em uma Mostra cujo pôster e a vinheta já prenunciavam o tempo chuvoso e abafado que marcaria esta segunda quinzena de outubro em São Paulo, andar sob a garoa paulistana logo após ver Laranja Mecânica fará com que Singin’in the Rain não saia da sua cabeça por alguns dias. Isso porque a interpretação de Malcolm McDowell, como Alex DeLarge, da música eternizada por Gene Kelly – que, por acaso, não gostou dessa versão – em Cantando na Chuva é uma das muitas cenas marcantes da obra de Stanley Kubrick.
O cineasta homenageado na Mostra fez, neste filme, um tratado sobre a violência a partir da história de Alex, um rapaz que não teria o que reclamar da vida, mas que só consegue se satisfazer ao liberar seus instintos violentos e sexuais das maneiras mais primitivas e brutais. Só que os seus companheiros na “velha ultraviolência”, os droogs Pete, Georgie e Dim, o traem e o jovem é preso e submetido a um controverso tratamento experimental para se tornar alguém “bom” ao forçar a repulsa ao “mal”. O longa, adaptado do livro homônimo de Anthony Burgess, até hoje suscita análises psicológicas e sociológicas sobre as motivações e capacidades e possíveis formas de conter a violência humana.
Só a efervescência dos debates que o filme levanta já tornaria Laranja Mecânica um grande filme. No entanto, o modo como Kubrick filma com erudição a violência – destaque para a utilização precisa da música clássica no contexto e a escolha de planos que se tornaram inesquecíveis –, e ao mesmo tempo a ironiza, ainda causa um efeito avassalador no público atual, confirmando seu status como um clássico, que deve ser revisto por qualquer cinéfilo ou descoberto pelos novos espectadores. (Nayara Reynaud)
 
Leia a crítica do filme
 
Indicação: 16 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – POMPEIA 1                  27/10/2013 – 21:00 – Sessão: 885 (Domingo)

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