MOSTRA INTERNACIONAL DE SÃO PAULO

Grand finale com Fellini e Ettore Scola

Equipe Cineweb
Atração de encerramento do Festival de Veneza, o magnífico filme de Ettore Scola, Que Estranho Chamar-se Federico – Scola Conta Fellini, sintetiza memórias, sentimentos e amor ao cinema, tudo o que a 37ª Mostra, que se encerra hoje, quer reativar. Abaixo, mais detalhes dessa e de outras atrações do último dia da programação oficial.
 
 Que Estranho Chamar-se Federico – Scola Reconta Fellini
Há anos o refinado cineasta italiano Ettore Scola, que nos brindou com O Terraço, O Baile, Nós que Nos Amávamos Tanto e Feios, Sujos e Malvados, não assinava um filme para cinema. Correu enorme risco ao resolver reencenar na tela as memórias de suas décadas de amizade e convivência com Federico Fellini, no vigésimo aniversário da morte deste. O resultado não poderia ser melhor.
Scola começa do começo, quando conheceu o jovem Fellini em 1947, na redação da revista humorística romana Marc’Aurelio, em Roma. Os dois tinham várias coisas em comum, apesar dos 11 anos de diferença de idade. Para começar, eram forasteiros – Fellini, de Rimini, Scola, de Trevico. Mas essencial mesmo era a paixão pelo desenho e a ironia. Este último, o sentimento que impregna vários acontecimentos reconstruídos com grande delicadeza e convicção, com a participação dos cinco netos de Scola – inclusive Tommaso Lazotti, que interpreta o Fellini jovem – e outros atores, incluindo Sergio Rubini, que trabalhou com Fellini em Entrevista (1987).
 O filme tem sofisticações, como emprestar seu nomede um poema de outro Federico, o poeta espanhol Garcia Lorca. E permite-se rever, com conhecimento de causa, a vida profissional do diretor de A Doce Vida e Oito e Meio a partir desse início profissional como desenhista, depois tornando-se roteirista e diretor, um trajeto muito semelhante ao que tomou Scola.
O filme recria detalhes curiosos de Fellini, como sua mania de andar de carro à noite pelas ruas de Roma, porque sofria de insônia, arrastando junto um amigo – às vezes o próprio Scola. Numa Roma muito menos perigosa do que hoje, Fellini descia do carro para falar com desconhecidos, malucos, prostitutas, não raro dando-lhes carona para conhecer suas histórias. Dessas conversas saíram muitas ideias vistas em seus filmes, como os fellinianos não deixarão de perceber.
Mesmo sem se tratar de um documentário, recorre-se a diversos trechos documentais, com preciosas imagens de arquivo, como os testes realizados por Fellini para o papel de Casanova com atores como Alberto Sordi, Vittorio Gassman e Ugo Tognazzi. Há também muito material com Marcello Mastroianni, um ator-fetiche de Fellini.
Por mais que Scola, na coletiva em Veneza, tenha insistido que o filme não é triste, portanto, não deveria fazer chorar, muitos não poderão evitar os olhos úmidos. Mas é uma emoção boa. E também a saudade de Fellini. (Neusa Barbosa)
 
Leia a cobertura sobre o filme no Festival de Veneza
 
Indicação: 10 anos
 
CINESESC                                                                 31/10/2013 - 21:00 - Sessão: 1230 (Quinta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1    31/10/2013 - 21:00 - Sessão: 1174 (Quinta)
CINE LIVRARIA CULTURA 1                                   31/10/2013 - 21:00 - Sessão: 1212 (Quinta)
 
 Dr. Fantástico
Dr. Fantástico, ou como parei de me preocupar e passei a amar a bomba, é um dos filmes mais poderosos (e engraçados) numa filmografia repleta de filmes impactantes como a de Stanley Kubrick. Com mais de 50 anos desde seu lançamento em 1964, o longa continua atual – o que é raro para uma sátira, gênero que depende das referências históricas do momento a que se refere. Porém, como a obsessão e esquizofrenia bélica americana nunca saem de moda - invadir um país para promover a paz e a democracia é um dos exemplos mais trágicos – Dr. Fantástico vem-se mostrando um filme atemporal.
Na trama, o momento histórico é a Guerra Fria entre EUA e URSS – quando ambos os países possuíam bombas atômicas e poderiam acabar com o mundo. O paradoxo é: se um deles disparar sua bomba, o outro nem poderá se vingar. Acabou-se tudo. Então, tacitamente, porque não se atacar mutuamente e ao mesmo tempo? Não existirão nem vencedores, nem derrotados.
Adaptando um romance de Peter Bryan George, Kubrick faz uma comédia apocalíptica na qual mais importante que a bomba só mesmo Peter Sellers, que interpreta três papéis, entre eles, o personagem-título, uma espécie de cientista maluco megalomaníaco preso a uma cadeira de rodas.
Os diálogos incluem frases que se tornaram clássicas, como: “Senhores, esta é a sala de guerra. Vocês não podem brigar aqui”. Bem como momentos antológicos – especialmente o final, ao som de “We’ll meet again”, cantada por Vera Lynn, uma das músicas mais famosas da Segunda Guerra Mundial. Ou um general-caubói cavalgando uma bomba disparada acidentalmente.
Se, originalmente, o filme foi idealizado como um suspense político, o diretor percebeu como tudo aquilo soava grotesco demais para ser levado a sério – apesar da seriedade da questão - e o transformou numa das comédias mais ácidas de todos os tempos, tornando o comentário político ainda mais forte nesse tom. (Alysson Oliveira)
 
Indicação: 10 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2  -31/10/2013 - 13:00 - Sessão: 1176
 
 Uma vida longa e feliz
Exibido em competição no Festival de Berlim, em fevereiro passado, o filme russo, de Boris Khlebnikov, dialoga tanto com o faroeste Matar ou Morrer quanto com seu compatriota Dostoievski, com uma história densa que se abre aos poucos em camadas. Tudo isso vem embalado numa fotografia que se vale de luz natural, uma paisagem bucólica belíssima, e Aleksandr Yatsenko, um ator bastante eficiente no papel do personagem central.
Sasha deixou a cidade e se mudou para a região norte da Rússia. Uma disputa com autoridades locais o transforma em herói e, mais tarde, em vilão, quando é abandonado por todos aqueles que o apoiavam. As pequenas tragédias humanas se acumulam, nesse filme cujo título não podia ser mais irônico. (Alysson Oliveira)
 
Indicação: 18 anos
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - POMPEIA 1  -  31/10/2013 - 21:30 - Sessão: 1235 (Quinta)
 
 Era uma vez em Tóquio
A sutileza intensa do diretor Yasujiro Ozu (1903-1963, ainda mais contando com uma cópia restaurada, nunca pode ser dispensada. Neste que é, merecidamente, um dos mais famosos e celebrados dramas do mestre japonês, realizado em 1953,evidencia-se a complexidade de seu olhar ao retratar a visita de um velho casal camponês (Chishu Ryu e Chieko Higashyama) a seus filhos em Tóquio. Compreende-se toda uma gama de preceitos, protocolos, expectativas e frustrações familiares no contexto do Japão da época, a partir de um notável conjunto de personagens complexos – e que se assemelham a pessoas de outras épocas e lugares, comprovando a universalidade do enfoque de Ozu, nunca datado. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 10 anos
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   31/10/2013 - 20:00 - Sessão: 1184 (Quinta)
 
 A Morte Passou por perto e curtas de Kubrick
Neste programa, a joia da coroa é o noir A Morte Passou por Perto (1955), em que o jovem Kubrick exercita talentos que aperfeiçoaria muito depois. Ainda assim, é bastante atraente a história de um boxeador decadente (Davey Gordon), atraído por uma bela dançarina (Irene Kane), que é sua vizinha, e é objeto de uma obsessão amorosa do chefe dela (Frank Silvera). Há sequências visuais incríveis, como uma perseguição no alto de prédios e uma luta num depósito de manequins.
No programa, curtas menos conhecidos do diretor, como The Flying Padre (documental sobre um padre-aviador); The Seafarers (institucional para um sindicato de marinheiros); e Day of the Fight, outro documental, sobre um dia decisivo na vida do boxeador Walter Cartier. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 12 anos
 
CINEMATECA - SALA BNDES                 31/10/2013 - 20:20 - Sessão: 1204 (Quinta)
 
A oeste do fim do mundo
Primeiro filme estrangeiro do diretor gaúcho Paulo Nascimento (Em Teu Nome), numa coprodução entre Argentina e Brasil filmada naquele primeiro país, escala o ator uruguaio César Troncoso (prêmio de melhor ator no Festival de Gramado) e a brasileira Fernanda Moro nos papeis principais. Num cenário desértico, num posto de gasolina no fim do mundo, ele é Leon, um ex-veterano da Guerra das Malvinas, amargurado e solitário, cuja rotina é perturbada pela chegada de Ana (Fernanda) – ela mesma fugindo de uma história familiar turbulenta. O relacionamento entre os dois se modifica lentamente, pontuado pelas intervenções de outro brasileiro radicado ali, Silas (Nelson Diniz). (Neusa Barbosa)
 
Indicação: livre
 
CINE OLIDO                              31/10/2013 - 19:30 - Sessão: 1233 (Quinta)
 
 Obrigado Por Nada
Segundo Oliver Paulus, que assina a direção da co-produção suíço-alemã junto com Stefan Hillebrand, a ideia inicial para o filme era mostrar pessoas com necessidades especiais fazendo alguma coisa errada, algo que não se espera delas. Após a eliminação de algumas histórias, eles chegaram a esta de três deficientes físicos que planejam assaltar um posto de gasolina.
Quem tem a brilhante ideia é Valentin, que sofreu um acidente praticando snowboard nos Alpes Suíços e ficou paraplégico, mas não se conforma com sua situação. Por questões de trabalho, a mãe o leva para uma casa de apoio na Alemanha, onde ele apresenta um comportamento constante de revolta, egoísmo e amargura, já que foi abandonado pelos amigos e a antiga namorada depois do que aconteceu. O personagem diz sentir pena dos colegas tetraplégicos, com síndrome de Down e deficientes mentais e intelectuais, pois os considera em condições piores do que a dele, porém, é a pessoa mais triste e sozinha do lugar. Até que ele, finalmente, se abre para aquele novo mundo e começa a criar uma amizade com Titus e Lukas, além de se apaixonar pela bela terapeuta Mira, que se torna o motivo de Valentin querer roubar o posto de gasolina e arrastar os dois amigos nessa missão.
O roteiro foi feito com base nas conversas com os três atores principais, já que, exceto o Joel Basman, que interpreta o protagonista e é um ator bem conhecido na Suíça, os outros dois, Nikki Rappel, que faz o Lukas, e Bastian Wurbs, o Titus, são realmente tetraplégicos, mas não são profissionais em atuação. Isso não quer dizer que eles, de fato, assaltaram um posto de gasolina, mas as experiências cotidianas dos não-atores contribuíram muito e foram absorvidas no script, segundo Oliver. Além disso, o convívio com eles nas cinco semanas de filmagem da produção, que levou três anos para garantir seu financiamento, fez com que os diretores percebessem que os deficientes físicos ou mentais não são tão frágeis assim.
Justamente por isso, a aventura rende situações cômicas de arrancar gargalhadas da plateia, como nas cenas do rifle e do crucifixo. É uma dramédia que emociona o público por humanizar, sem ser piegas demais, e não tratar com pena as pessoas, tenham elas deficiência ou não. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: livre
 
FAAP         31/10/2013 – 19:00 – Sessão: 1239 (Quinta)
 
Pelada, Futebol na Favela
O jogo de futebol nos campinhos de terra e várzea no Brasil afora é o centro das atenções deste documentário de Alex Miranda, diretor de carreira recente na área, após se consagrar no ramo dos videoclipes. A produção acompanha crianças e adultos que jogam pelada, os treinadores e árbitros da várzea, com o foco nos times do Santa Cruz, da favela Sinhá na zona leste de São Paulo; Social, de Heliópolis, sudeste da capital; Nove de Julho, do Jaçanã, zona norte; e em projetos e personagens cariocas, das comunidades do Vidigal e da Rocinha.
Além disso, entrevista-se vários jogadores consagrados, especialmente nos grandes clubes paulistas, sobre o início deles como peladeiros. E é aí que reside a maior falha do documentário: apesar das várias imagens de crianças e adultos jogando futebol nos campinhos de terra, você sente falta da pelada durante o filme. Talvez por uma opção de montagem com mais destaque aos jogadores de futebol consagrados do que aos peladeiros. Nos 30 primeiros minutos do longa, só os primeiros que dão seus depoimentos, praticamente, enquanto aqueles que são os personagens mais interessantes só ganham mais importância no final da obra. Se a direção tivesse conseguido que os craques da bola famosos estivessem mais próximos desse ambiente da pelada e não em suas confortáveis casas e CT’s, o resultado seria mais interessante.
Um ponto positivo é a trilha sonora ao encaixar bem as músicas do rapper Edi Rock, membro do Racionais MC que tem um amplo trabalho de apoio ao futebol amador nas favelas e comunidades paulistanas. (Nayara Reynaud)
 
Classificação: livre
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 5            31/10/2013 – 20:10 – Sessão: 1194 (Quinta)
 
 Querida Courtney
Poderia ser mais uma comédia romântica sobre um jovem que faz de tudo para chamar a atenção e conquistar a garota dos seus sonhos. Mas pense nisso acontecendo em um ambiente cercado pelo rock, mais especificamente na cena grunge dos anos 1990. É assim que Rolf Roring, que já foi produtor da divisão alemã da MTV, estreia na direção de longas, com o simpático Querida Courtney.
A obra acompanha as desventuras de Paul Thomas na tentativa de impressionar a amada Saskia. Um dia, em 1991, ele faz uma canção para ela e vende as demos na loja de discos do tio. O jovem não demora a escutar na rádio Smells Like Teen Spirit – que, por sinal, não é executada por completo durante o filme –, música icônica da banda Nirvana e cujos acordes são iguais à sua composição. Paul, então, começa uma jornada atrás de Kurt Cobain, líder do trio grunge que está em turnê na Alemanha, para obter o reconhecimento da autoria do hit e a atenção de Saskia.
Groupies, bebida, drogas e o estrelismo dos cantores e bandas são algumas das referências a esse mundo roqueiro que estão na produção. Por isso, a comédia alemã é uma boa pedida não só para quem curte Nirvana, mas para todos os amantes do rock. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: 14 anos
RESERVA CULTURAL 1           31/10/2013 – 17:45 – Sessão: 1225 (Quinta)
 
 À Procura do Amor
Este que é um dos últimos trabalhos do ator James Gandolfini, lançado depois a sua morte em 19 de junho, após sofrer um ataque cardíaco em Roma,é um filme sobre o amor e os relacionamentos mais diversos na meia-idade. Passar por separações, aguentar ex-maridos ou ex-mulheres e seus respectivos novos cônjuges e lidar com o fato de que os filhos estão saindo de casa são alguns dos desafios que se apresentam à maioria dos personagens do longa, que estão justamente nessa faixa etária.
Em uma festa, a massagista Eva (Julia Louis-Dreyfus) conhece a escritora Marianne (Catherine Keener), que se transforma em sua nova cliente e, depois, se torna sua amiga. Lá, ela também encontra o carismático Albert (James Gandolfini), um homem que, assim como ela, é separado e tem uma filha se preparando para ir à universidade. A afinidade dos dois é instantânea e logo eles começam um namoro, até que Eva descobre que o ex-marido de quem Marianne sempre reclamava é, na verdade, o Albert.
James, que ficou mais conhecido para o grande público, nos últimos anos, pelo seu trabalho na série dramática Família Soprano (1999-2007), e Julia, famosa pelas sitcoms Seinfeld (1989-1998) e The New Adventures of Old Christine (2006-2010), conquistam rapidamente o público com seus personagens, pelo talento e carisma.
A diretora Nicole Holofcener, com várias comédias românticas no currículo, insere diálogos leves que, ao mesmo tempo, revelam a complexidade desse período da vida, sem forçar uma dramaticidade que não cabia na história. No final, ela não subverte o gênero -  o clímax é prova disso -, mas é fiel aos seus personagens, não os submetendo às regras deste tipo de filme. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: 14 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – AUGUSTA 1      31/10/2013 – 21:20 – Sessão: 1222 (Quinta)
 
 8816 Versos
O documentário acompanha o ator português António Fonseca no último dos quatro anos que ele dedicou ao seu projeto de contar a narrativa épica dos Lusíadas. O intérprete não queria apenas encenar ou declamar a obra-prima de Luís de Camões, mas sim falar da história dos mais de 300 homens, simples vassalos a serviço dos nobres navegantes, que viram naquela viagem às Índias a oportunidade de mudarem de vida. Por isso, a atriz Sofia Marques, uma ex-aluna do artista, quis registrar esse momento para que a ideia não fosse esquecida.
Durante o longa, são mostradas tanto imagens do processo de estudo dos textos, com uma narração das suas impressões nesse projeto, quanto trechos da montagem de “Vermelho”, de John Logan, de que ele participa. As falas da encenação são colocadas propositalmente para reforçar a discussão sobre a arte que António, adepto de uma cultura menos elitista e de maior contato com o público, levanta.
A “Falação da Obra-Prima ‘Os Lusíadas’”, como foi denominada por eles, ocorreu em 9 de junho de 2012, em Vila Flor, na cidade de Guimarães, contou com a presença de 10 famílias para apresentar o Décimo Conto e é um dos pontos altos deste documentário, que tem o mérito de agradar aos fãs de Camões e instigar a curiosidade de quem ainda não conhece os versos do poeta. A diretora, durante um debate após a segunda exibição do filme na Mostra, afirmou que a apresentação foi, e ainda será, reprisada algumas vezes em outras cidades de Portugal e que há uma previsão de que o projeto tenha uma turnê no Brasil, para o próximo ano. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: livre
 
CINEMATECA – SALA PETROBRAS             31/10/2013 – 18:50 – Sessão: 1207 (Quinta)
 
Miss Violence
O drama do jovem diretor Alexandros Avranas foi um dos filmes mais impactantes do último Festival de Veneza, do qual saiu com dois prêmios, melhor direção e melhor ator, para Themis Panou. Poderia, com méritos, ter levado o Leão de Ouro. 
Trata-se de um drama forte, rigoroso, estética e dramaticamente bem construído em torno de uma família altamente disfuncional. Há um clima nelson-rodriguiano nesta história de um clã marcado pelo incesto e a exploração sexual por parte de um patriarca (Themis Panou), que vive com a mulher, a filha e quatro crianças – seus netos? Seus filhos?
Aparentemente, é uma família normal, moradora de um apartamento de classe média, onde os moradores fazem suas refeições, as crianças vão à escola, desempenham à risca os rituais do cotidiano. A máscara de normalidade começa a ruir quando ocorre o suicídio de uma das meninas, de 11 anos, em pleno dia de seu aniversário, e o serviço social vem investigar o fato. 
A câmera e o tom das interpretações – dessensibilizadas, quase como se todos fossem meio robotizados – criam um clima estranho, que funciona perfeitamente para dar conta desse estado de mal-estar permanente, desse horror contido pela dominação do status quo, das instituições apodrecidas, que se mantém pela intimidação. É mais um bom exemplo do duro e instigante cinema que estão produzindo os novos cineastas da Grécia. A economia do país pode estar em crise, mas essa nova geração de realizadores está sendo capaz de expressar o que há de podre na antiga morada dos deuses do Olimpo. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 18 anos
 
CINE SABESP   31/10/2013 - 18:20 - Sessão: 1198 (Quinta)
 
 Bobô
Um filme português e de cunho bem feminino. É a estreia da diretora portuguesa Inês de Oliveira, também corroteirista, e disposta a escavar as camadas da personalidade de um trio de personagens femininas: a arquiteta Sofia (Paula Garcia), sua empregada Mariama (Aissatu Indjai) e a menina Bobô (Luana Quade), filha desta.
Mariama é uma alegre jovem da Guiné, que vem trabalhar como empregada, e Sofia, que se encontra mergulhada num processo depressivo. A empregada foi ideia da mãe de Sofia (Maria João Luís) e rompe um desejo de solidão desta. Há um misterioso quarto de criança na casa, mas a criança nunca é vista. É ou foi real? Isto não é bem explicado e é um mistério que dá clima ao filme.
O choque cultural entre Mariama e Sofia parece predestinado a um rompimento. Inesperadamente, chega Bobô, filha de Mariama que mora com uma parente. A presença da criança rompe a carcaça emocional de Sofia, que se dispõe até a comparecer a um casamento na família de Mariama. Na festa cheia de convidados vestidos em trajes coloridos, de inspiração africana, Sofia é um vivo símbolo do passado dos colonizadores portugueses, do confronto entre uma Europa imperialista, reprimida e repressora diante de um mundo selvagem, ancestral.
A chegada da avó de Bobó cria uma tensão em Mariama, que se opõe ao desejo da velha senhora de submeter a menina à mutilação genital tribal. Diante desse perigo, a interação entre Sofia e Mariama torna-se mais nuançada e o filme, mais interessante. Embora revele tropeços de ritmo, perdoáveis num primeiro trabalho de direção. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: livre
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - POMPEIA 1       31/10/2013 - 19:00 - Sessão: 1234 (Quinta)
 
A Gaiola Dourada
Para quem busca um programa mais leve na Mostra, uma boa oportunidade é a comédia A Gaiola Dourada, o primeiro longa do diretor francês Rubem Alves. Inspirado na vida da própria família, faz um retrato bastante bem-humorado dos imigrantes portugueses na França.  
Em Paris há mais de 30 anos, o casal Maria (Rita Blanco) e José (Joaquim de Almeida) – inspirado diretamente nos pais do diretor, a quem homenageia nesta produção - é um modelo de candura e boa vizinhança. Enquanto ele trabalha na construção civil, ela é zeladora de um condomínio elegante onde vivem com os filhos, Paula (Barbara Cabrita) e Pedro (Alex Alves Pereira).
Prestativos ao máximo, são praticamente explorados por familiares e condôminos ao não conseguir dizer não aos abundantes pedidos de ajuda. Porém, tudo muda quando chega a notícia de que José e Maria receberam uma herança, mas precisarão, para isso, voltar a viver em Portugal. E ninguém vai deixar que isso aconteça.     
A produção conta com um elenco bastante irreverente, como a atriz Maria Vieira, que já veio ao Brasil convidada para fazer novelas (Aquele Beijo). Questionado sobre a forma caricatural com que encena os imigrantes portugueses, Alves foi categórico ao afirmar que se trata de sua comunidade. “A comédia passa os temas de forma mais fácil. É saudável rir de nós mesmos”, argumenta. (Rodrigo Zavala)
 
Indicação: 14 anos
 
RESERVA CULTURAL 1                      31/10/2013 - 21:40 - Sessão: 1227 (Quinta)

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