"Exilados do vulcão" vence Festival de Brasília

Problemas técnicos adiam exibição de filme de Rosemberg Cariry

Nayara Reynaud
Problemas técnicos adiam exibição de filme de Rosemberg Cariry
O primeiro dia da Mostra Competitiva da 46ª edição do Festival de Brasília surpreendeu a plateia de maneiras bem diferentes nesta quarta (18). Entre a sessão de documentários, a grata surpresa foi assistir a uma raríssima gravação do escritor João Guimarães Rosa, de quem somente os escritos e as fotos eram de conhecimento público, no longa Outro Sertão, de Adriana Jacobsen e Soraia Vilela. O susto veio na sessão de animação e ficção, com a interrupção constante e o consequente cancelamento da exibição do novo filme do veterano diretor cearense Rosemberg Cariry, Os Pobres Diabos, no reformado Cine Brasília.
 
Segundo Sérgio Fidalgo, coordenador do festival, uma sobrecarga no processador responsável pela projeção dos filmes em DCP gerou o problema. Ele também informou que foi feita uma troca do hardware para evitar que o mesmo ocorra nas outras sessões da mostra, que serão realizadas nas mesmas datas e horários divulgados anteriormente. Os Pobres Diabos será reexibido amanhã (20), às 22h30, após a sessão de ficção já programada para o dia.
 
Sertões e famílias
O documentário Outro Sertão revela a atuação diplomática de João Guimarães Rosa, mais especificamente quando ele era vice-cônsul em Hamburgo. Propositadamente dividido em capítulos, o longa não só apresenta uma faceta desconhecida do escritor como também mostra o fascínio que ele tinha, ainda menino, pela cultura alemã, e de que maneira isso foi se desfazendo à medida em que o nazismo avançava na Alemanha e como o diplomata transformou-se em uma espécie de salvador de vários judeus alemães naquela época.
 
O projeto levou aproximadamente 10 anos para ser concluído, por vários motivos: o assunto demandava muita pesquisa, havia certa dificuldade para o financiamento do filme no início desse processo e existia uma grande quantidade de material para ser editado – foram feitas tantas horas de filmagem que as diretoras pensam em aproveitar o que ficou de fora para fazer curtas-metragens documentais ou colocar como extras em um possível DVD.
 
Com um início centrado mais na narração das cartas escritas por Guimarães Rosa, destacam-se a sonorização das imagens da época – que não tinham som –, utilizadas juntamente com um poucas fotos dele. Quando o espectador começa a se cansar desse recurso, o longa retoma o fôlego com os depoimentos de conhecidos e filhos de amigos de João na Alemanha e, principalmente, com judeus e seus descendentes no Brasil, cujas famílias conseguiram se refugiar aqui durante a Segunda Guerra graças ao diplomata e a Aracy, outra funcionária do consulado, que se tornaria mulher do escritor.
 
Outro ganho do documentário foi a exibição de uma raridade: uma entrevista inédita de João Guimarães Rosa para um piloto de um programa alemão, realizado pelo crítico literário Walter Höllerer em 1962, que nunca foi ao ar.
 
Mesmo sendo um documento histórico importante, a produção capixaba correu o risco de não ser exibida. Após receber a aprovação da família do escritor, a equipe foi surpreendida com uma mudança de posição dos parentes, que tentaram impedir a veiculação do filme. Entretanto, por considerarem o material de interesse coletivo sobre uma pessoa pública, que serviu ao país, as diretoras resolveram bancar a exibição em Brasília e ainda tentarão colocá-lo no Festival de Berlim, pois, além do tema tratar diretamente da história alemã, a obra-prima de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, será reeditada em alemão, contribuindo para a carreira do longa naquele país.
 
O livro, aliás, foi citado no curta-metragem exibido anteriormente, Luna e Cinara, o trabalho de conclusão de curso da carioca Clara Linhart. As protagonistas, Luna, avó da diretora, e Cinara, a empregada e companheira fiel da velha senhora, são duas cinéfilas e, em uma das conversas mostradas no filme, a segunda lê para a outra a coluna do jornalista Artur Xexéo, cujo tema é a desistência do diretor Fernando Meirelles de fazer uma adaptação cinematográfica de Grande Sertão: Veredas.
 
A relação entre as duas é conflituosa, já que Luna deixa transparecer explicitamente as diferenças sociais entre ela e sua empregada – a diretora demorou a mostrar o curta para as duas, pois achava que alguns depoimentos poderiam magoá-las, principalmente Cinara –, mas ao mesmo tempo o tom é amoroso, arrancando risos e compaixão da plateia. A câmera inconstante de Clara, se movimentando e mudando o foco a cada instante, dá a impressão de ser uma daquelas gravações comuns feitas em família. Talvez porque as amantes do cinema Luna e Cinara só queriam ter o seu próprio filme.
 
Vazios e interrupções
A mostra competitiva de ficção foi iniciada com o curta-metragem de animação Deixem Diana em Paz, do pernambucano Júlio Cavani, que impressionou pelos lindos traços dos desenhos de Cavani Rosas, pai do diretor. Ele pintou, a bico de pena, a bela Joana Gattis, que serviu de atriz/modelo vivo para o filme. A técnica antiga e demorada fez com que a etapa de desenhos levasse um ano e três meses para ser concluída.
 
O traço, a animação extremamente simples e a trilha sonora, que traz um sentimento de calma, foram utilizados para criar essa história sobre uma mulher bem-sucedida profissionalmente que, ao completar 30 anos, resolve largar tudo e dormir. O curta dividiu o público entre aqueles que conseguiram se envolver com a personagem e os que não entraram no mesmo mundo de abstração de Diana.
 
O outro curta exibido ontem foi o ficcional Sylvia, realizado pelo estreante paranaense Artur Ianckievicz, que conta a história de uma menina que se sustenta com a pirataria de DVD’s e se liberta nos treinos de boxe. O diretor mistura elementos de blaxploitation – gênero norte-americano comum nos anos 1970 que explorava a temática negra –, a partir da sua protagonista, com a linguagem do cinema contemporâneo oriental na falta de diálogos, que evidencia a qualidade de som do filme.
 
O curta mostra um apuro estético, com planos muito interessantes, como o do treinamento das meninas socando os pesos. Ficou, porém, uma lacuna no final da exibição, como se faltasse algo a ser dito.
 
Já o longa Os Pobres Diabos aliou estética com uma história cativante sobre uma trupe de circo que perambula pelos sertões até chegar a Aracati, misturando à narrativa o ambiente circense e a tradição da literatura de cordel. Mas a projeção foi interrompida três vezes por problemas técnicos, o que foi frustrante para o cearense Rosemberg Cariry e toda a equipe e elenco, porque, além da estreia no Cine Ceará ter sido perfeita tecnicamente, a exibição em Brasília recebia uma recepção calorosa do público e estava ganhando até a simpatia da crítica. Agora, só amanhã para conferir se esse sentimento continuará.

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