"Exilados do vulcão" vence Festival de Brasília

Brasília leva crítica social e o brega para as telas

Nayara Reynaud
Brasília leva crítica social e o brega para as telas
O público se rendeu ao brega no quarto dia de competição do Festival de Brasília. Amor, Plástico e Barulho, da estreante em longas-metragens de ficção Renata Pinheiro, destacou-se na sessão deste sábado (21) mostrando novamente a potência do cinema pernambucano na atualidade, ao usar as disputas e pressões existentes nesse gênero de música como estudo das transformações na sociedade contemporânea, onde tudo é descartável. A crítica social do filme também esteve muito presente no documentário de Maria Augusta Ramos, Morro dos Prazeres, que retrata o cotidiano de uma comunidade do Rio de Janeiro após a chegada de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), e na maioria dos curtas exibidos na mesma noite.
 
A produção pernambucana traz a história de Shelly (Nash Laila), uma jovem dançarina de uma banda da cena brega local, que sonha tornar-se uma cantora famosa. Dentro daquele show business periférico, ela conhece os mecanismos dessa indústria musical e suas consequências por meio de Jaqueline (Maeve Jinkings), vocalista do grupo, que é sua ídola e rival. A cantora já em decadência, ainda na flor da idade, representa o quanto, não só nesse tipo de música, mas também em outros gêneros e áreas culturais, o sucesso é efêmero, como diz a própria personagem em uma das cenas, comparando-se com um copinho de plástico, que é usado até a última gota – processo em que a mídia tem papel fundamental – antes de ser amassado e jogado fora.
 
Se o “Barulho” do título, representado pela música brega, torna-se obsoleto rapidamente, o “Amor” que o acompanha também revela que as relações humanas se tornaram tão descartáveis quanto o “Plástico”, a partir do momento em que os envolvimentos amorosos acontecem, fugazmente, por conveniência e o corpo, especialmente feminino neste caso, se transforma em objeto para esses interesses. A descartabilidade da sociedade também é representada na constante inserção de vídeos de internet, cuja resolução foi piorada ainda mais, como forma de mostrar o quanto a ditadura atual do tempo gera quantidade e muito pouca qualidade.
 
O “Barulho” também traz em si o som de um ambiente urbano em transformação por causa da especulação imobiliária. Por isso a inclusão dos vídeos sobre a construção e inauguração de um shopping na periferia de Recife, já que se trata de um templo do consumismo, sendo este último o cerne desse processo de obsolescência, onde até a cidade é descartável.
 
Não espere, porém, uma comédia. Amor, Plástico e Barulho tem seus momentos cômicos, mas diferentemente de Cheias de Charme, novela da Rede Globo que apresentava o lado alegre e “over” do brega, o longa de Renata carrega o lado sofrido característico das raízes do gênero, com Reginaldo Rossi e Odair José, por exemplo. A cena mais representativa disso é a que em Jaqueline canta Chupa Que É de Uva, que ficou conhecida nacionalmente na versão cheia de malícia do grupo Aviões do Forró, em uma interpretação totalmente contida e melancólica. A plateia, entre um riso discreto e uma compaixão emotiva, agraciou a cena com os primeiros aplausos em cena aberta desta edição do festival, no Cine Brasília.
 
Essa e outras sequências trazem Maeve Jinkings em atuação marcante como a estrela em decadência, que se afastou de tudo para lutar pelo sucesso. O trabalho notável dela e de sua colega de cena, Nash Leila, fica ainda mais evidente nos muitos primeiros planos da fotografia do argentino Fernando Lockett.
 
Crônicas de problemas contemporâneos
A sessão de documentários também foi marcada pela crítica social. O longa Morro dos Prazeres começa com uma encenação de uma brincadeira de crianças em uma favela, impregnada pela violência policial e dos traficantes. A obra de Maria Augusta Ramos traz uma representação da realidade de moradores e policiais na comunidade carioca que dá nome ao filme, que foi pacificada há três anos. A diretora, que estava planejando realizar um documentário sobre o programa Bolsa Família, a pedido de uma emissora de televisão holandesa, e estava em contato com pessoas do Morro dos Prazeres, viu o foco do seu trabalho mudar completamente com a chegada da UPP no local.
 
A obra tem o mérito de mostrar todos os lados envolvidos nessa problemática social, superando estereótipos pré-concebidos e humanizando moradores, jovens traficantes e policiais. Revela também que a promessa do Estado não tem sido cumprida, pois só a polícia – e as instituições privadas – subiram o morro após o processo de pacificação. A UPP social, a da educação, saúde e saneamento básico, continua a ignorar esses cidadãos.
A utilização da steadycam nas cenas em que a câmera acompanha os personagens retratados é um destaque da fotografia. O ritmo lento do filme em alguns momentos, no entanto, é um fator contra a produção.
 
Antes, foi exibido o curta documentário O Gigante Nunca Dorme, de Dácia Ibiapina, que aborda outra pauta social atual, ao se aproveitar da onda de manifestações que tomou o Brasil nos últimos meses. Apesar do amadorismo característico de vídeos de protesto estar nas imagens das primeiras manifestações do Movimento Passe Livre de Brasília em janeiro deste ano, as filmagens captadas pela equipe demonstram o formalismo do gênero nas duas únicas entrevistas feitas com integrantes do grupo sobre as primeiras manifestações do movimento, na década passada.
 
O filme foi feito em caráter de urgência e o tempo é curto para falar dos desdobramentos dos últimos protestos. Como é praticamente o depoimento de só uma delas que guia o filme, o relato único carece de profundidade e não alcança uma discussão mais pertinente sobre o tema. Talvez se tivesse esperado mais um ano e captado mais entrevistas e informações, longe do calor da atualidade, a diretora faria um trabalho mais significativo.
 
Nordestinos e sexo em foco
O Nordeste também esteve presente no curta exibido na mesma sessão em que Amor, Plástico e Barulho. Todos Esses Dias Em Que Sou Estrangeiro veio de uma necessidade do próprio diretor Eduardo Morotó, um pernambucano radicado no Rio de Janeiro, de contar uma história sobre esse sentimento de se sentir um estrangeiro dentro do seu próprio país – e, às vezes, se sentir também um estranho quando se volta ao lugar onde se nasceu e cresceu. O fato de seus pais serem de Frei Miguelinho, cidade importadora de garçons, fez com que ele ouvisse o relato de um menino que, trabalhando no Rio, disse ter vontade de jogar um prato em um cliente que o destratava por sua origem.
 
Isso serviu de mote para esse curta sobre o preconceito, com a trama de dois irmãos nordestinos, que trabalham como garçons em um bar da Baixada Fluminense e têm de lidar com as angústias de viver em outra cultura, muitas vezes hostil – característica marcada pela fotografia em um preto e branco acinzentado.
 
Já o curta animado Engole ou Cospervilha?, o quarto trabalho de um projeto do Marão, figura conhecida da animação brasileira, que reúne vários profissionais para fazer vinhetas bizarras – daquelas que facilmente entrariam nos intervalos da quase extinta MTV Brasil. Neste filme, estão junto dele os animadores David Mussel, Pedro Eboli, Fernanda Valverde, Jonas Brandão, Giuliana Danza, Gabriel Bitar e Zé Alexandre, trazendo um apanhado de casos repletos de momentos nonsense e conteúdo escatológico, particularmente sexual, que causam uma reação parecida com o título: ou o espectador ri muito com as piadas e as “engole” ou as rejeita e “cospe”, não a ervilha, mas o curta.

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