VENEZA 2013

Os velhos leões rugem como nunca nos 70 anos de Veneza

Neusa Barbosa, de Veneza
 Contrariando pessimistas, o Festival de Veneza renovou seu espírito, contemplando a era do 3D e do streaming via web, mas não deixando de honrar os clássicos restaurados exibidos na telona e a herança dos mestres eternos, de Fellini a Ettore Scola, de Theo Angelopoulos a Andrzej Wajda e Francesco Rosi.
 
Mais antigo festival de cinema do mundo, Veneza celebra sua 70º edição sacudindo a poeira e nada nostálgica. Tenta conciliar o melhor de dois mundos, mantendo, pelo segundo ano consecutivo, a disponibilização de parte de seus títulos – das mostras Orizzonti e Biennale College - na web via streaming, mas não esquece de homenagear os mestres vivos, caso do italiano Ettore Scola e do polonês Andrzej Wajda – que aliás não vem de mãos abanando, traz para exibir, fora de concurso, seu novo filme, Walesa – Man of Hope, sobre o líder operário e ex-presidente polonês Lech Walesa.
 
Um desses clássicos restaurados de encher os olhos de cinéfilos de todas as gerações, Le Mani sulla Città, de Francesco Rosi – que comparece, lépido e fagueiro nos seus 90 anos, para receber seu Leão de Ouro de carreira – é, aliás, a atração de pré-abertura do festival, ma noite de terça (27), no Campo di San Polo, coração da Veneza histórica, ao ar livre. Vencedor do prêmio máximo do festival há 50 anos e estrelado por Rod Steiger, o filme radiografa uma Nápoles devastada pela especulação imobiliária.
 
O pôster oficial do 70º Festival de Veneza homenageia o italiano Federico Fellini e o grego Theo Angelopoulos, ostentando uma ilustração, criada pelo animador Simone Massi, que destaca uma cena do filme A eternidade e um dia, de Angelopoulos, no qual um homem acena para um barco, onde estão uma criança e um rinoceronte, referência ao cartaz do ano passado, que homenageava Fellini, e ao seu filme E la nave va.
 
Abertura em 3D
 
 Atraindo para seu filme de abertura oficial, na quarta (28), a ficção científica Gravidade, do mexicano Alfonso Cuarón, em 3D, com George Clooney e Sandra Bullock liderando o time de estrelas que desembarca no Lido, sede do festival, Veneza mostra seu prestígio. Isso, e alinhar na competição principal os nomes de Terry Gilliam, Stephen Frears, Hayao Miyazaki, Amos Gitai, Errol Morris, Gianni Amelio, Philippe Garrel e Tsai Ming-Liang, entre outros, comprovam igualmente que o diretor Alberto Barbera está conseguindo fazer frente à concorrência acirrada com Toronto, o festival canadense que começa no dia 5 de setembro e divide as atenções dos produtores e da imprensa mundial.
 
Produtores do Brasil
Fora da competição oficial – o que ocorreu pela última vez em 2008 -, o Brasil está representado na produção de dois filmes, um deles o documentário de encerramento do evento, no dia 7 de setembro, Amazônia – Planeta Verde, coprodução com a França, dirigida por Thierry Ragobert. Rodado 100% na região, em 3D, com três anos de filmagem, o filme alcançou orçamento de R$ 26 milhões, com a participação da produtora brasileira Gullane.
 
Outro filme estrangeiro, este disputando o Leão de Ouro, o norte-americano Night Moves, de Kelly Reichardt, teve participação da produtora brasileira RT Features. Estrelado por Jesse Eisenberg, Dakota Fanning e Pete Sarsgard, trata do plano de um atentado contra uma barragem, idealizado como protesto por um grupo de ecoterroristas.
 
Vitrine principal
 
 Dentro de uma programação tão extensa quanto a de um festival deste porte, é um desafio escolher destaques – até porque, ao longo das exibições, surpresas felizmente sempre acontecem.
 
Em todo caso, muita gente estará de olho em outro competidor pelo Leão, The Zero Theorem, de Terry Gilliam, uma fantasia futurista em torno de um hacker de computação, estrelada pela trinca Christoph Waltz, Tilda Swinton e Matt Damon.
 
Ainda na linha ficção científica – um tema forte nesta edição -, é para se reparar no que a atriz-fetiche de Woody Allen, Scarlett Johansson, renovou sua estampa como uma alienígena em forma humana que viaja pela Escócia no concorrente britânico Under the Skin, de Jonathan Glazer.
 
Se ainda é possível acreditar numa redenção do renegado Nicolas Cage, ela pode acontecer no drama Joe, de David Gordon Green (EUA), em que ele encarna o papel de um ex-presidiário que se torna protetor de um garoto problemático (Tye Sheridan, de A Árvore da Vida), o que pode significar sua redenção ou sua ruína (aliás, na tela e fora dela...).
 
Parkland, de Peter Landsman (EUA), envereda por uma pegada mais documental ao reencenar o que aconteceu no hospital Parkland, em Dallas, no dia do assassinato do presidente John Kennedy, em 1963. Paul Giamatti vive o papel de Abraham Zapruder, o homem que filmou as imagens do crime que o mundo inteiro conhece. No elenco, Zac Efron e James Badge Dale.
 
Um documentário estrito, The Unknown Known, do premiado Errol Morris (Sob a Névoa da Guerra), investiga as ações de Donald Rumsfeld, o ex-secretário da Defesa do governo George W. Bush que planejou a invasão do Iraque em 2003.
Tracks, de John Curran (Austrália), escala Mia Wasikowa (Alice no País das Maravilhas) para encarnar Robyn Davidson, escritora e viajante que, na juventude, atravessou milhares de quilômetros através do deserto australiano, com seus quatro camelos e um cachorro.
 
 O veterano Stephen Frears une-se à premiada atriz Judi Dench para realizar o drama Philomena, sobre uma mulher que procura seu filho, tirado dela à força, décadas atrás, quando foi obrigada a entrar para um convento.
 
Ninguém espera menos do que o máximo de uma nova animação do mestre japonês Hayao Miyazaki, Kaze Tachinu, história biográfica sobre Jiro Horikoshi, que projetou aviões de combate japoneses durante a II Guerra.
 
Enfim, isto é apenas uma pequena amostra. Mais informações sobre o festival e seus filmes estão no site: em versões em italiano e inglês.
 
Curtas de todo o mundo
Uma das comemorações da 70ª edição será uma série de curtas-metragens assinados por cineastas de todo o mundo, no projeto intitulado Venezia 70 – Future Reloaded.  
 
Participam três brasileiros, Walter Salles, Karim Aïnouz e Júlio Bressane, integrando um time seleto que inclui o iraniano Abbas Kiarostami, o italiano Bernardo Bertolucci, o indiano Shekhar Kapur, os norte-americanos Paul Schrader e Monte Hellman, a francesa Catherine Breillat, a espanhola Isabel Coixet e o tailandês Apichatpong Weerasethakul. 
 
Giornate degli autori
 
Uma das seções voltadas aos novos realizadores, a mostra paralela Venice Days – Giornate degli Autori, que completa este ano sua décima edição, incluiu nove filmes de diretores estreantes, entre eles a produção búlgara Alienation, de Milko Lazarov, que traz no elenco o ator grego Christos Stergioglou (de Dente Canino, filme que venceu a seção Un Certain Regard, no Festival de Cannes, em 2009) e o norte-americano Kill Your Darlings, de John Krokidas, que traz o ator inglês Daniel Radcliffe (Harry Potter) no papel do poeta beat Allen Ginsberg.
 
Outro filme selecionado é May in the Summer, coprodução entre EUA, Catar e Jordânia que escala a atriz israelense-palestina Hiam Abbas – que, aliás, apresenta um filme dirigido por ela, Le Donne della Vucciria, filmado em Palermo, na seção especial Women’s Tales.
 
Os únicos representantes latino-americanos aqui são o filme argentino La Reconstrucción, terceiro trabalho na direção de Juan Taratugo, e a coprodução argentino-italiana L’Arbitro, filme de estreia de Paolo Zucca que será a atração de abertura deste segmento do festival.
 
A programação completa desta mostra pode ser acessada no site.

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