FESTIVAL DE CANNES

Amor e trabalho de risco, sob a chuva de Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes - Quatro dias de festival rolando – no meio de uma chuva infinita – e os temas da 66ª edição vêm à tona. As possibilidades da família, dos relacionamentos, as cicatrizes da guerra e os perigos mortais do trabalho dominaram estes primeiros dias a seleção oficial, na competição e no Un Certain Regard.
Do Japão, veio um drama intimista que vai ao olho do furacão de uma troca de bebês que sacode duas famílias, retratado com as habituais sensibilidade e precisão em Like Father, Like Son, por Hirokazu Kore-eda. O cineasta, que despontou na carreira obcecado pelo tema da morte – que explorou em várias facetas, desde Maborosi – A Luz da Ilusão (1995) - ultimamente voltou seu foco para as crianças. E elas brilham no seu filme, naturais como na vida.
Como o iraniano Asghar Fahardi, Kore-eda explora as camadas de uma situação insuportável – a descoberta, por dois casais, de que seus filhos de 6 anos foram trocados na maternidade. Com esse ponto de partida de melodrama, ou de novela, o cineasta japonês desvia-se da pieguice e emociona com sutileza, indo ao centro da questão, acompanhando as reações das duas famílias.

 O protagonista é o executivo Ryota (Masaharu Fukuyama), um homem obcecado pelo trabalho e pouco tempo para olhar para a família, mesmo para o filho único, Keita (Keita Nonomya). É esse homem viciado no controle dos mínimos detalhes quem simboliza, mais do que os outros personagens, uma progressiva imersão na incerteza, nas emoções que, finalmente, vêm à tona para ele também.
A família que criou o outro menino é completamente diversa – formada por um comerciante bom vivant, Yudai (Lily Franky), que tem uma noção diferente do tempo, do dinheiro, outros valores. E é disso também que o filme quer falar, sem tornar-se banal, nem pregar uma moral humanista ou bom-mocista de almanaque.
Em seu registro intimista, que vem aperfeiçoando desde Ninguém Sabe (2004), Kore-eda revela-se profundo. Não faltaram comentários de que o filme agradará muito ao presidente do júri, Steven Spielberg. O público, na sessão de imprensa, emocionou-se e não faltou quem chorasse.

  Fora do ninho
Em compensação, não foi tão feliz a estreia norte-americano do talentoso cineasta francês Arnaud Desplechin (Um Conto de Natal), em seu psicodrama Jimmy P. (Psychoterapy of a Plains Indian) O encontro promissor de dois atores carismáticos, o portorriquenho Benicio Del Toro e o francês Mathieu Amalric, resulta frouxo por conta de um roteiro que não encontra a veia certa para fazer jorrar a energia que a história promete. E isto nada tem a ver com a língua do filme.
Baseado numa história real, descrita no livro de Georges Devereux – publicado em 1951 -, o relato acompanha o índio Blackfoot James Picard (Del Toro), afetado por dores de cabeça, cegueira temporária e uma série de sintomas, três anos depois de sua volta da II Guerra Mundial.
O foco da narrativa está no encontro entre Jimmy e um terapeuta heterodoxo, o romeno-francês Georges Devereux (Amalric). Versado em diversas ciências, inclusive a antropologia, Georges encontra um caminho para que o ex-soldado encare seus bloqueios emocionais, levando em conta sua cultura original para melhor compreendê-lo.
É o tipo da história que deve ser maravilhosa no texto, no papel, mas que não encontrou um correspondente eficaz, vivo, pulsante, no filme realizado por Desplechin.

 Trabalho de risco
Na seção Um Certain Regard, a jovem cineasta e roteirista francesa Rebecca Zlotowski acertou a mão em seu segundo filme, Grand Central, unindo um romance de risco a um contexto de trabalho em usinas nucleares com claro tom de denúncia. A França é, aliás, o país europeu que mais utiliza esse tipo de energia.
Gary (Tahar Rahim) é um jovem desempregado, que acaba recrutado para o serviço de limpeza dessas usinas, compondo com outros rapazes iguais a ele um exército de trabalhadores temporários, expostos aos enormes perigos com a radiação – que eles não desconhecem, mas têm poucas condições de recusar, devido ao imenso desemprego na Europa.
Contratado, Gary e seus amigos são alojados perto de uma usina, unindo-se a supervisores como Gilles (Olivier Gourmet) e Toni (Denis Ménochet) – homens experientes nesta atividade absurdamente arriscada, que devia ser confiada a robôs. Gary envolve-se com a mulher de Toni (Léa Seydoux), injetando na história o intimismo, humanizando o que poderia ser apenas um drama sindical e político. É tudo isso junto, compondo um filme forte, ótimo de ver. Uma nova diretora nasce no cinema francês – e conduz muito bem seu elenco admirável, além de traçar na tela um retrato realista da realidade de seu país, que não é nada rósea.

Lembranças de uma olimpíada
Na seção Cannes Classics, a versão restaurada do documentário Visions of Eight (1973), assinada por oito diretores, trouxe de volta imagens dos trágicos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, que foram abalados pelo sequestro e morte de 11 atletas israelenses por um comando terrorista palestino.
Este dramático episódio, na verdade, resume-se a uma única (e mesmo indispensável) menção, num dos segmentos. No mais, os diretores Milos Forman, Arthur Penn, Claude Lelouch, John Schlesinger, Ron Ichikawa, Mai Zetterling, Yuri Ozerov e Michael Pfleghar, de várias nacionalidades, não especializados em esportes – como lembrou Claude Lelouch, o único presente à sessão na Sala Buñuel -, voltaram seus olhos para vários detalhes. Há segmentos voltados aos halterofilistas, às mulheres, aos maratonistas e mesmo aos perdedores. Momentos distintos, que lembram o quanto o documentário, no seu melhor, pode evocar o humor e o drama que a vida real concentra, em dosagem bem mais alta do que a ficção.


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