FESTIVAL DE CANNES

Música dos anos 1960, na visão dos Coen, embala Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – Primeiro domingo do festival, o sol voltou – parece que não definitivamente – e, pelo visto até aqui, paira uma sensação de que o cinema mundial não vive seu momento mais criativo e vibrante. Mesmo filmes de diretores consagrados, como o dos irmãos Ethan e Joel Coen, Inside Llewyn Davis, concorrente à Palma, pareceram não mais do que ok.
Retratando a trajetória para lá de acidentada de um cantor de música folk, talentoso mas fracassado, Llewyn Davis (o ótimo Oscar Isaac), os Coen parecem simplesmente estar trilhando o mesmo território já percorrido em sua filmografia antes, sem extrair desse solo fértil nenhum diamante novo.
É um filme de época, ambientado nos anos 1960, agradável de ver, com boas atuações de um elenco integrado por habituês dos Coen, como John Goodman, e integrado por novos integrantes: caso de Carey Mulligan (mostrando porque é atualmente uma das mais versáteis atrizes do mundo, capazes de se transformar até fisicamente com muita energia), Garrett Hedlund (Na Estrada) e F. Murray Abraham (com uma e definitiva cena).
O cenário musical folk no Greenwich Village nova-iorquino antes do surgimento de Bob Dylan – que é representado rapidamente no filme de um modo engraçado – , uma visão da família norte-americana (será que não é de toda família, que só muda de endereço?), um olhar cínico sobre os relacionamentos amorosos embalam bem o contexto. Tudo isso torna mais saboroso acompanhar as desventuras de Llewyn, lutando por um lugar ao sol depois do suicídio de um parceiro, mas não conseguindo encontrar um modo de ser realmente vencedor, essa obsessão da América. Um verdadeiro gato vira-lata na vida, um símbolo que aliás se torna literal, com a participação de dois bichanos na vida do protagonista.
A melhor notícia do filme é como o guatemalteco criado em Miami Oscar Isaac atua bem quando tem chance num filme bom – já tinha dado para notar com seu pequeno papel em Drive, ao lado de Ryan Gosling. Aqui, ele se apropria de um personagem que facilmente cairia na caricatura, não fossem os Coen os diretores/roteiristas sutis que são. Mas o filme está longe de ser genial, ou ter cheirinho de Palma de Ouro. Bem, nunca se sabe, afinal, o compatriota Spielberg comanda o júri.

Alegoria datada
Muito, mas muito pior mesmo, andou o concorrente holandês à Palma Borgman, de Alex van Warmerdam, exibido nesta manhã de domingo (19). Num clima algo surreal, retrata a ação de um grupo de estranhas pessoas, que se insinuam na vida de uma família burguesa, num clima meio ficção científica, meio terror, meio alegoria política – mas que se mostra muito inferior às que se faziam nos anos 1970.
Há críticas meio óbvias a essa alta burguesia racista e preconceituosa, mostrando o chefe da família (Jeroen Perceval) espancando brutalmente o estranho (Jan Bijvoet), que inicialmente pede apenas para tomar um banho. Outro diálogo óbvio mostra o mesmo dono da casa recusando um candidato a jardineiro porque é negro. Assim não dá, van Warmerdam!

Memórias do Khmer Vermelho
Na seção Un Certain Regard, o cineasta cambodjano Rithy Pahn voltou a temas recorrentes de sua obra ao desfiar, no documentário L’Image Manquante, as memórias de sua infância sob o regime mortal do Khmer Rouge (1975-1979) – que arrastou as populações da cidade para o campo, executando artistas e transformando intelectuais e “capitalistas” em trabalhadores do campo, forçados a processos de “reeducação” – que não raro incluíam torturas, espancamentos e choques elétricos.
A questão da falta de imagens retratando o horror desse período é resolvida de modo bem criativo por Rithy Pahn – que recorre a artistas para esculpir figuras de argila, reproduzindo as angustiantes situações vividas e vistas pelo cineasta, que perdeu os pais e os quatro irmãos naquele processo e assistiu cenas que não consegue esquecer. Nem deveria, é claro.
Intercalando essas representações com as figuras de argila, Pahn insere trechos de documentários que restaram da época, alguns propagandísticos do regime comandado por Pol Pot - um longo pesadelo do qual o país emergiu com um saldo de mortos estimado em torno de 1 a 2,5 milhões, causados pela fome, maus-tratos, trabalhos forçados e execuções sumárias.


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