FESTIVAL DE CANNES

" La Grande Bellezza", de Paolo Sorrentino, traz o grande cinema a Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – Finalmente, surgiu um grande filme, candidato a todas as premiações, inclusive a Palma de Ouro. Trata-se do concorrente italiano La Grande Bellezza, obra de fôlego do já premiado diretor Paolo Sorrentino.
 
Com uma assumida inspiração – mas não imitação – felliniana, o diretor de Il Divo e As Consequências do Amor ancora nas paisagens de uma Roma luminosa e mágica a trajetória de Jeb Gambardella (Toni Servillo). Escritor que conheceu o sucesso instantâneo- em sua primeira obra, nas últimas décadas ele se tornou u mundano modelo. Através das andanças boêmias deste cínico sessentão, Sorrentino constrói uma dissecação aguda do modo de vida da elite italiana, sem deixar de temperar a amargura com a constatação de que há, sim, poesia, no simples ato de viver. E realiza, por assim dizer, a sua A Doce Vida dos anos 2000.
 
A tal “grande beleza” de que trata o título é, afinal, uma busca do próprio Jeb – que, por trás de sua frustração e niilismo não perdeu, lá no fundo, o desejo de procurá-la, sob a forma da primeira mulher de sua vida, dos sentimentos de infância, de tudo aquilo que, lá atrás, fez vibrar seu coração e sua literatura que se estancou na primeira tentativa.
O sucesso, como a beleza de Roma, tanto quanto inspiram, podem funcionar como combustível dessa espécie de paralisia moral que contamina a todos esses personagens do círculo de Jeb – sua editora, seus amigos ricos, cujo vazio, assim como o seu próprio, ele desmascara, sem ser capaz de escapar dessa espécie de pântano, emendando festas, noitadas, bebedeiras, drogas, casos efêmeros e nenhuma alegria genuína.
 
Nenhum aspecto foi descuidado, do roteiro primoroso – assinado por Sorrentino e Umberto Contarello – à fotografia de Luca Bigazzi, à montagem fluente de Cristiano Travaglioli. Tudo isso faz com que as 2h22 do filme transcorram sem peso, inspiradoras, levando o público no seu vigor, nas suas ideias, nos seus diálogos, na sua reflexão madura sobre os impasses da contemporaneidade, não só da Itália. Enfim, habemus grande cinema em Cannes 2013.
 
Crônica gay
O primeiro atrativo – fútil, aliás - para o público que for assistir a Behind the Candelabra, de Steven Soderbergh, será ver atores notoriamente heterossexuais, como Michael Douglas e Matt Damon, entrando na pele de personagens gays, respectivamente o pianista Liberace e um de seus amantes, Scott Thorson.  O pior é que tudo o mais é incrivelmente rotineiro.
 
Mesmo o retrato da época da história, final dos anos 1970, nada tem de mais. É um filme impressionantemente comum, em que nada convence muito – nem mesmo o desespero que, em certo momento, contamina a relação entre o astro, rico, consagrado e que escondia da mídia sua homossexualidade, e o namorado, que se tornou seu assistente, confidente, foi convencido de que ia ser adotado por Liberace e constar de seu testamento, até tudo mudar, ao sabor da instabilidade da paixão.
 
Enfim, faz tempo que Soderbergh está nesse piloto-automático para dirigir. E faz tempo que promete que vai abandonar a direção e anuncia que este ou aquele será seu último filme. Do jeito que vai, o cinema não vai sentir falta se ele finalmente cumprir a promessa.
 
Destemperos autobiográficos
Andou meio confusa, fragmentada, mas pelo menos mais empenhada e sincera, a nova investida na direção da também atriz Valeria Bruni-Tedeschi, Un Chateau en Italie. O filme tem belos momentos, engraçados também – como uma impagável sequência numa clínica de fertilização in vitro -, mas enguiça várias vezes ao longo da narrativa, especialmente com algumas de egotrips da atriz-diretora.
 
Ela interpreta uma atriz, que está deixando a carreira, e pertence a uma família italiana arruinada, dona de um castelo e alguns bens – como quadros de pintores famosos, como Bruegel. Os bens, finalmente, estão sendo postos em leilão, para dar conta das despesas de todos. O único a não querer realmente desfazer-se do castelo é o irmão dela (Filippo Timi), que está morrendo de AIDS.
 
O parceiro de Valeria na vida real, Louis Garrel, interpreta um jovem que se aproxima dela, vivendo um relacionamento apaixonado, cheio de altos e baixos. É a coisa mais verdadeira do filme. Talvez um olhar de fora, um co-diretor, um corroteirista, pudesse ter enxugado os excessos e Un Chateau en Italie andaria bem melhor. Não houve, então, ficou no meio do caminho, ainda que Valeria seja uma boa atriz e até tenha talento para insistir na direção. Mas não deveria estar na competição pela Palma, ao lado de Jia Zhang-Ke, Kore-eda e Sorrentino, para citar alguns trabalhos de peso vistos até aqui.

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