FESTIVAL DE CANNES

"Only God Forgives", de Nicolas W. Refn, decepciona em Cannes

Neusa Barbosa

 Cannes – Foi só a gente se entusiasmar com La Grande Bellezza, o belo concorrente italiano à Palma de Ouro, que a competição entre terça (21) e hoje (22) caiu novamente no marasmo. A grande decepção veio na sessão desta manhã, com o vazio estiloso de Only God Forgives, do dinamarquês Nicolas Winding Refn.
O novo trabalho do festejado diretor de Drive (2011) – que concorreu à Palma e levou o prêmio de direção há dois anos aqui -, novamente reunido ao ator Ryan Gosling, era um dos mais esperados da seleção. Mas nada de bom aconteceu. Trata-se de uma história policial, filmada na Tailândia, focada num submundo banhado por uma quase permanente luz vermelha, que é apenas o primeiro indício de uma obviedade pretensiosa que se instala quase instantaneamente.
Nem a novidade de trazer a fina atriz inglesa Kristin Scott Thomas transformada numa loira-belzebu bandidona, matriarca incestuosa de um clã criminoso, entrega o que o filme, de início, promete. A história de vingança é desencadeada no momento em que Julian (Ryan Gosling), comandante de uma rede de tráfico de drogas e lutas ilegais, é pressionado pela mãe para cobrar a sangue o preço da morte de seu irmão, Billy (Tom Burke). O fato de que Billy tenha estuprado e assassinado selvagemente uma jovem prostituta de 16 anos parece à mãe um mero detalhe.
O opositor de Julian será Chang (Vithaya Pansringarm) – um policial dúbio, que executa com uma espada uma peculiar forma de justiça com as próprias mãos, passando por cima da lei que se supõe que ele deva defender. Mas resulta frustrante esse confronto entre os dois e essa mãe – personagem interessante, um tipo de Lady Macbeth, se tivesse tido a sorte de contar com um roteiro competente, o que Refn também não realiza. Um furo n’água, que recebeu merecidas vaias na sessão de imprensa desta manhã.
 
Grito africano
Ainda na competição, Grigris, novo filme do chadense Mahamat-Saleh Haroun, ficou bem abaixo de seu admirável trabalho anterior, O Homem que Grita, em termos de realização – por mais que se entenda a sua vontade legítima de denunciar o espantoso vazio politico e social de seu país de origem.
Desta vez, Haroun fecha o foco em torno do destino do personagem-título (Souleymane Deme), um jovem que sonha em ser bailarino e até se apresenta em bares à noite – embora tenha as pernas deformadas pelo que parece ter sido uma paralisia infantil.
Num lugar pobre, desprovido de asfalto e saneamento básico, o que dirá emprego, ele luta pela sobrevivência, ao lado da mãe e do padrasto. A doença deste empurra Grigris para o desespero pela necessidade de muito dinheiro. Isto o leva a procurar trabalho na única fonte possível, sob o domínio do chefe do submundo local, Moussa (Cyril Guei), que controla o mais lucrativo negócio local, o contrabando de gasolina.
Há um bálsamo na vida de Grisgris, sua amiga e sua paixão, a bela Mimi (Anaïs Monory). Mas só o que podem fazer é fugir. E o filme termina com uma sugestão de volta à vida tribal e justiça com as próprias mãos que não é nada satisfatória. Certamente, deve ter sido um filme bem difícil de produzir e, por mais boa vontade que se tenha, deveria ser exibido sim em Cannes, mas talvez não na competição.
 
Mengele na Argentina
O período em que o médico nazista Josef Mengele viveu escondido na Argentina foi o ponto de partida para que a diretora Lucía Puenzo desenvolvesse a história de Wakolda, concorrente na seção paralela Un Certain Regard.
Sob um nome falso, Mengele (Alex Brendemühl) está, em 1960, na Patagônia, onde se aproxima da uma família, que está reabrindo um hotel. Ele se torna o primeiro hóspede, estudando de perto não só Eva (Natália Oreiro), grávida de gêmeos, como sua filha Lilith (Florencia Bado) – que, aos 12 anos, é mais baixa dos que as crianças da mesma idade.
O filme cria uma tensão nesta ação do médico, que fornece medicamentos tanto para a mãe, como para a menina, apesar da desconfiança do pai, Enzo (Diego Peretti). Para cooptá-lo, o médico torna-se investidor de seu negócio de fabricação de bonecas de porcelana, que se tornam um poderoso paradigma da obsessão nazista pela criação de mecanismos para produzir seres humanos “perfeitos”.
Se Wakolda tem algum acerto, é nessa intenção de focar a sobrevivência de alguns dos mais categorizados nazistas na América do Sul, instalando-se em comunidades germânicas que ali já existiam e, no caso argentino pelo menos, não se desviaram da simpatia pelo regime instalado por Adolf Hitler mesmo depois que seus crimes vieram à luz. Mengele, como lembram os letreiros finais, escapou da Argentina para o Paraguai e morreu no Brasil, em 1979, sem que sua identidade fosse descoberta a não ser depois de sua morte.
Sombra lynchiana
Outra diretora presente no Un Certain Regard (seção que tem vários trabalhos assinados por mulheres, ao contrário da competição principal) é a francesa Claire Denis, que trouxe seu sombrio Les Salauds.
Muitos críticos lembraram do universo de David Lynch nesta história que percorre a desagregação de uma família de industriais, desencadeada pelo suicídio do patriarca, Jacques (Laurent Grevill). A tragédia leva sua viúva (Julie Bataille) a implorar a volta do irmão, Marco (Vincent Lindon), um comandante naval que vive sempre em alto-mar.
Marco, que era o melhor amigo do cunhado, abandona sua própria vida para ajudar a irmã e a sobrinha, Justine (Lola Créton), que sofreu uma série de abusos, inclusive sexuais. O desdobramento desta história leva Marco a um envolvimento com Raphaëlle (Chiara Mastroianni), amante do rico industrial Édouard Laporte (Michel Subor), que aparentemente está por trás da desgraça de Jacques e sua família.
Há outros ingredientes que são distribuídos não-linearmente na história, em que Claire Denis trabalhou, ao contrário de seus hábitos, com muita rapidez. Esta urgência ficou impressa nos fotogramas, na montagem, nas elipses e também nos mistérios de Les Salauds. Um filme que não foi feito para embalar o sono dos justos e, mesmo com alguma irregularidade, tem uma pegada bem interessante.
 
Muhammad Ali Forever
Fora da competição, agradou muito o novo filme de Stephen Frears, Muhammad Ali’s Greatest Fight, uma produção do canal HBO que focaliza a batalha legal em que o famoso campeão mundial dos peso-pesados lutou para não ser preso por recusar-se a lutar na Guerra do Vietnã, alegando objeções de consciência e religião.
Espertamente, Frears não escala ator algum para interpretar o inimitável Ali, preferindo usar trechos documentais, único recurso capaz de dar conta de retratar sua personalidade incandescente, seu carisma inconfundível.
Esses instantâneos do Ali real injetam mais vida num drama de tribunal bem interessante, acompanhando a batalha da causa de Ali na Suprema Corte – um ninho de escorpiões, na descrição de um de seus próprios integrantes. Nada que um brasileiro que acompanhe as batalhas do Supremo Tribunal Federal não possa entender rapidamente.
Na corte, brilham os talentos de veteranos como Frank Langella, como o presidente Warren Burger, Christopher Plummer, como o juiz John Harlan, e o jovem Benjamin Walker, como o advogado e assistente de Harlan, Kevin Connolly, que tem um papel importante nos fatos.
Frears tempera com muito cinismo os duelos entre os juízes, deixando claro o peso político que contaminava o julgamento de Ali. E, assim, crava mais um prego no caixão da tristemente famosa era Nixon.

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