FESTIVAL DE CANNES

Sexo gay do concorrente "La Vie d'Adèle" sacode marasmo em Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – A competição pela Palma de Ouro, já na reta final, viveu momentos opostos, de excesso e de minimalismo, com a exibição do terceiro concorrente francês, La Vie d’Adèle – Chapitres 1& 2, de Abdellatif Kechiche, e o segundo norte-americano, Nebraska, de Alexander Payne.
O novo filme de Kechiche (Vênus Negra, O Segredo do Grão), aliás, ensaiou ser um pequeno escândalo, com suas longas e voyeurísticas cenas de sexo entre as duas belas protagonistas, Léa Seydoux e a novata Adèle Exarchopoulos, caindo sob medida para testar o alcance dos novos ventos libertários destes primeiros tempos da liberação do casamento gay que tanto sacudiu a França nos últimos meses.
As cenas, longas, belas e bastante francas, sem dúvida se justificam nesta história, livremente adaptada de uma graphic novel, Le Bleu est une Couleur Chaude, de Julie Maroh. O que não se revela imprescindível, no entanto, é a longuíssima duração do filme – 2h57 -, com muitas sequências de discussão de relação e lágrimas que poderiam ser resolvidas com mais contenção.
Afinal, a história de Adèle é muito, muito simples. Trata-se de uma adolescente de 15 anos, que começa a descobrir a sexualidade, experimentando-a primeiro com um rapaz, depois encontrando outras formas de prazer com Emma (Léa Seydoux), uma estudante universitária e pintora. Adèle não tem muitas ambições intelectuais. Apenas quer ser professora primária e viver com Emma, um despojamento que, afinal, cobra seu preço da própria relação com a outra, que é mais intelectualizada e madura.
Sem dúvida, Adèle Exarchopoulos parece uma força da natureza. É uma bela jovem, natural, visivelmente tirando inspiração de si mesma, de quem ela é, quando olha, quando sorri, quando anda, quando come, quando chora, quando faz amor. Bateu, de longe, a também muito bonita, mas muito fria Marine Vacth, protagonista de Jeune & Jolie, de François Ozon, na disputa informal do posto de musa deste festival.

 Perdidos no Nebraska
Numa pegada bem intimista, como é seu estilo, o norte-americano Alexander Payne ofereceu ao veterano Bruce Dern em Nebraska uma oportunidade como ele há muito tempo não tinha de entrar na pele de um protagonista muito interessante, Woody Grant. Um filme simples, despojado, preto-e-branco, contido e que dá conta do recado, sem firulas.
Velho e alquebrado, Woody convence-se de que ganhou um prêmio de US$ 1 milhão e luta por todos os meios para ir a Lincoln, cidade em que supõe que poderá recolher a bolada. Na verdade, não é bem assim, mas seu filho, David (Will Forte), e sua mulher, Kate (June Squibb), não conseguem tirar isso da cabeça dele. Ele foge de casa, tenta ir a pé, a polícia o recolhe, mas ele não desiste.
Neste coração da América, de longos espaços, pouca atividade econômica – ainda mais nestes tempos de crise -, moral rígida e pouca imaginação, Payne arma o cenário de uma história familiar que remete, o tempo todo, ao grande contexto do país. Torna-se comovente, mas também engraçado em várias situações, acompanhar o esforço de Woody pelo seu sonho, por mais absurdo que seja, e o apoio que seu filho decide dar-lhe.
Nebraska torna-se então um filme de estrada, em que o pai e o filho vão reencontrar o passado da família, trazendo-se à tona pequenos segredos, alguns escândalos e não poucas transformações, especialmente para David.
A boa música de Mark Orton embala a jornada de Woody, no que pode ser a última aventura de sua vida, o que David compreende e com que até se identifica – porque ele mesmo está no meio de um enorme impasse existencial. Afinal, a vida serve para quê, se não se pode nem mesmo correr atrás de um sonho tão singelo ? E, claro, trata-se de uma crônica terna sobre a paternidade e a fraternidade.


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