FESTIVAL DE CANNES

Edição morna de Cannes exibe seus últimos concorrentes

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – Últimos dias do festival – a premiação sai domingo (26). E a impressão de que a 66ª não será a mais memorável edição da história do festival continua. O único grande filme até aqui foi mesmo o italiano La Grande Bellezza (foto), de Paolo Sorrentino, com menções mais que honrosas para Like Father, Like Son, de Hirokazu Kore-eda, e A Touch of Sin, de Jia Zhang-Ke.
Alguns outros filmes mostraram-se competentes, caso do drama épico Michael Kohlhaas, do francês Arnaud des Pallières, trazendo um novo bom trabalho do ator dinamarquês Mads Mikkelsen – que venceu aqui o prêmio de interpretação no ano passado, como o professor acusado de pedofilia em A Caça.
Ainda que Mikkelsen, mais uma vez, esteja ótimo, neste papel de um comerciante de cavalos do século 16 que leva às últimas consequências sua luta por justiça – uma história real, que inspirou romance do alemão Heinrich von Kleist -, também parece difícil imaginar que o júri presidido por Steven Spielberg vá lhe entregar pela segunda vez o troféu de melhor interpretação masculina, que, por justiça, deveria ir para as mãos do italiano Toni Servillo, protagonista de La Grande Bellezza. Isto se não se repetir a “maldição dos festivais” que cerca o excepcional intérprete italiano, que no ano passado esteve excelente em dois filmes concorrente no Festival de Veneza (É Stato il Figlio e A Bela que Dorme) e, mesmo assim, não levou. Esperemos que Cannes tenha mais bom senso.
 
 Mulheres à margem
Num ano em que a competição cannoise esnobou as diretoras (que tiveram destaque, no entanto, na boa seleção Un Certain Regard de 2013, que incluiu Les Salauds, de Claire Denis, e Grand Station (foto), de Rebecca Zlotowski), está difícil localizar uma interpretação feminina acima da média. A não ser que os olhos dos jurados se voltem para as revelações. Neste caso, parece pouco provável que as premiações se desviem de Adèle Exarchopoulos, a corajosa protagonista de La Vie d’Adèle – Chapitre 1 & 2, de Abdellatif Kechiche, apesar da notória fragilidade dramatúrgica e extensão excessiva deste drama sobre o desabrochar da sexualidade de uma jovem. Também não seria espantoso que fossem premiadas as duas atrizes deste filme, incluindo a co-protagonista, Léa Seydoux.
Houve casos, como o da esplendorosa Marion Cotillard, que não encontraram um filme à sua altura. Como protagonista do insípido drama The Immigrant, de James Gray (Os Donos da Noite), a incandescente musa de Ferrugem e Osso, Meia-Noite em Paris e Piaf não achou mesmo expressão. Seu talento e beleza perdem-se entre os fotogramas de um quase novelão de época, ambientado na Nova York dos anos 1920. Marion interpreta Ewa, imigrante polonesa que cai nas mãos de uma rede de prostituição, dirigida por um aparente protetor, Bruno Weiss (Joaquin Phoenix). Moça ingênua, apesar da vida dura, ela não tem mesmo sorte com os homens, tendo seu destino cruzado também com Emil (Jeremy Renner), um mágico que é primo de Bruno e cuja atração por Ewa precipita uma tragédia.
 
Ocupando lugar
The Immigrant, aliás, é um dos vários filmes da seleção principal neste ano que despertam a pergunta – afinal, fora o nome do diretor, o que estão fazendo aqui ? Pela fragilidade de sua proposta ou realização, foram objeto da mesma indagação também Behind the Candelabra, de Steven Soderbergh – não mais do que um filme mediano para TV -, Jimmy P., de Arnaud Desplechin, Jeune & Jolie, de François Ozon, Un Chateau en Italie, de Valeria Bruni-Tedeschi, Borgman, de Alex van Warmerdam, e mesmo o despojado e politicamente correto Grigris, de Mahamat-Saleh Haroun (que cairia melhor em outra seção que não a principal). Straw Shield, de Takashi Miike, é um bom filme policial, de gênero, e também não deveria estar na disputa da Palma de Ouro. O modesto mexicano Heli, de Amat Escalante, se não fez feio também não despertou maior paixão.
Agora, falta ver apenas dois concorrentes, sobre os quais, pelas credenciais anteriores, certamente recaem esperanças: Only Lovers Left Alive, de Jim Jarmusch, e Venus in Fur, de Roman Polanski. Que venha deles alguma grande surpresa.
 
Vozes do Irã
O Irã, mais uma vez, teve espaço privilegiado na programação de Cannes, festival que tem garantido a expressão de artistas sufocados pelos desmandos da teocracia local. Na programação do Un Certain Regard, o destaque desta sexta (24) foi Manuscripts don’t Burn, escrito e dirigido por Mohammad Rasoulof – único nome identificado nos créditos, já que a produção, rodada no Irã e em outras partes, encarou todo tipo de percalços para ser concluída e não foi abençoada pelas autoridades locais. Diretor e atores prestigiaram a primeira sessão do filme, nesta manhã, mas nomes, fora o de Rasoulof, não foram mencionados.
Certamente, seu tema é incendiário. Retrata o calvário enfrentado por velhos escritores, em torno da proteção dos manuscritos do livro, escrito por um deles, e que denuncia um atentado cometido pelas forças de segurança, anos atrás, contra 21 intelectuais, inclusive os três. A narrativa é intercalada pela atuação de dois matadores de aluguel, a soldo do serviço secreto governamental, cujas ações contra os escritores, a mando de um ex-militante que foi amigo de um deles, vão se tornando cada vez mais sinistras. Há momentos que lembram Aconteceu em Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan, que acaba de estrear em São Paulo.
Único a falar na sessão, que foi longamente aplaudida ao final das 2h14 da projeção, Rasoulof antecipou que os poucos jornalistas iranianos presentes em Cannes provavelmente destacariam em seus artigos, as “precárias qualidades artísticas” de seu trabalho. Uma atitude que ele disse compreender perfeitamente: “Afinal, todos querem voltar para casa”. A situação dele e de sua equipe, como se sabe, é incerta, num país que mantém há anos em prisão domiciliar o premiado Jafar Panahi (Leão de Ouro em Veneza por O Círculo). Em 2010, Rasoulof foi acusado de filmar sem permissão (seu primeiro filme, Au Revoir, exibido em Cannes 2011, sem que ele fosse autorizado a vir aqui) e condenado a seis anos de prisão, depois reduzidos a um. Neste momento, ele está em liberdade condicional, aguardando a palavra final de seu caso.

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