FESTIVAL DE CANNES

Polanski e Jarmusch animam reta final, na véspera da premiação em Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – Os dois últimos concorrentes à Palma de Ouro, Only Lovers Left Alive, o romance vampiro de Jim Jarmusch, e La Vénus à la Fourrure (Venus in Fur), de Roman Polanski, restabeleceram a chance de desfrutar de dois muito bons produtos artísticos. Certamente, dois filmes muito diferentes e sem o poder de mudar uma sensação de que 2013 não foi um grande ano em Cannes. 
Dos dois, agrada mais o delicioso La Vénus à la Fourrure, em que Polanski volta ao teatro (que o inspirou em seu trabalho anterior, Deus da Carnificina), ainda mais diretamente. O ponto de partida foi a peça Venus in Fur, do norte-americano David Ives, escrita em 2010. Ives adaptou sua peça ao lado de Polanski, que a transformou no roteiro de um filme falado em francês, raridade em sua filmografia. 
Todos os elementos do universo Polanski estão lá – a sátira ácida acima de tudo, numa história que discute os mecanismos de dominação entre as pessoas e a guerra entre os sexos. No cenário mínimo de um teatro (na verdade, um teatro desativado, o Récamier), o diretor e autor teatral Thomas (Mathieu Amalric) realiza testes para a montagem de sua peça. Está irritado, desanimado com as inúmeras atrizes horríveis que já suportou naquele dia, desabafando por telefone com a namorada, quando entra, atrasada, esbaforida, uma última candidata – Vanda (Emmanuelle Segnier). 
Desdobrando as camadas de uma personagem extraordinária, contraditória, que às vezes parece burra, em outras espertíssima, manipuladora, vulgar, sedutora e otras cositas más, Emmanuele tem o melhor papel de sua carreira. Ela conduz um jogo que sugere realidade e atuação, domínio e humilhação, alternando os polos de poder entre uma atriz e seu diretor, remetendo a várias aproximações com o funcionamento do métier de todos os envolvidos na vida real. 
Não seria surpresa que o filme colhesse algum prêmio, até mesmo importante – como um prêmio do júri – ou para a atuação, especialmente de Emmanuele que, na reta finalíssima, tornou-se uma competidora à altura para a novata Adèle Exarchopoulos, de La Vie d’Adèle, de Abdellatif Kechiche (que a imprensa francesa, quase sem exceção, incensou e considera o candidato mais forte à Palma de Ouro) e também para a argentina radicada na França Bérénice Bejo – vivendo a protagonista do drama familiar iraniano Le Passé/The Past, de Asghar Farhadi.
 
 Show de referências
Movendo-se num universo coalhado de referências, Jim Jarmusch caprichou nas tintas de uma crônica melancólica, com vários momentos de humor, em Only Lovers Left Alive – universo de um casal de vampiros apaixonados há séculos, Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton), porta-vozes de um mal-estar no mundo contemporâneo, em que o diretor, como se vê pelo roteiro original, enxerga um enorme vazio de ideias e sentimentos, num grande impasse atual.
Estes seus alteregos, dois vampiros extraordinariamente cultos, lúcidos, ternos, cheios de compaixão pelos “zumbis” – como eles classificam toda a humanidade à sua volta -, acham que o grande mal dos humanos é temer tanto a própria imaginação. 
O melhor amigo da dupla é ninguém menos do que o escritor Christopher Marlowe (John Hurt) – o “concorrente” de William Shakespeare, nascido no século 16 e que ele, tantos anos depois, ainda não cansou de detonar. Marlowe é apenas uma das muitas referências literárias e musicais ao longo do filme, que fazem a delícia de quem as decifra. Only Lovers Left Alive comprova que humor e inteligência, quando se encontram, fazem milagres. 
Agradável e pop como é, Only Lovers Left Alive é também uma espécie de ET nesta seleção de Cannes – que priorizou demais as assinaturas dos filmes, acumulando uma lista de diretores já testados e comprovados (quase sem exceções), mas ofertou várias frustrações acachapantes, caso do tenebroso Only God Forgives, do dinamarquês Nicolas Winding Refn (precisando urgentemente provar que Drive não foi um mero acaso). Amanhã, veremos o que deu, é dia de Palma.

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