FESTIVAL DE CANNES

Uma edição conservadora, apoiada nos medalhões

Neusa Barbosa, de Cannes

Uma edição conservadora, apoiada nos medalhões
Em tempos de crise econômica brava no chamado mundo desenvolvido, a 66ª edição do Festival de Cannes mostra um perfil conservador, apostando, em suas seções principais, numa esmagadora maioria de nomes conhecidos e testados. 
Tudo começa com muito brilho, no próximo dia 15 de maio, com a segunda projeção em 3D da história do festival, no caso, uma nova versão cinematográfica de O Grande Gatsby, dirigido pelo australiano Baz Luhrmann. A estreia do 3D em Cannes foi em 2009, com a projeção do desenho Up – Altas aventuras, de Pete Docter. Adaptando o célebre romance de 1925 do norte-americano F. Scott Fitzgerald, 39 anos depois da premiada versão de Jack Clayton, com Robert Redford e Mia Farrow, o filme escala Leonardo DiCaprio na pele do protagonista, o milionário Jay Gatsby, que tem sua vida narrada pelo amigo  e vizinho Nick Carraway (Tobey Maguire). A atriz inglesa Carey Mulligan (de Educação e Shame) interpreta o principal papel feminino, Daisy Buchanan, cujo marido é interpretado pelo ator australiano Joel Edgerton. 
É a terceira vez que o diretor australiano Baz Luhrmann tem filmes selecionados pelo festival. Antes, foram apresentados na Riviera Vem Dançar Comigo (na seção Um Certo Olhar em 1992) e Moulin Rouge - Amor em Vermelho, na abertura do festival de 2009. 
Leonardo DiCaprio, por incrível que pareça, também é presença rara na Croisette. Ele esteve em Cannes pela primeira vez em 2007, apresentando o documentário A última hora, que ele produziu. Sua passagem vai provocar com certeza alguns daqueles imensos tumultos na porta do velho Palácio dos Festivais, com fãs se acotovelando atrás dos cordões de segurança na rua para vê-lo desembarcar da limusine de smoking, uma das tradições nunca abandonadas nas noites de gala.
 
Primeiro Mundo vem antes
O Grande Gatsby está fora, no entanto, da disputa pela Palma de Ouro, que inclui os habituais 20 candidatos. Um time frequentado por cineastas experientes especialmente da Europa e dos EUA, com uma discreta participação asiática e africana e a presença mínima da América Latina, Brasil incluído. Os países emergentes, pelo jeito, estão se dando melhor na economia do que nos grandes festivais. 
O Brasil será representado na programação deste ano apenas por dois curtas, um na Quinzena dos Realizadores, outro na Semana da Crítica, duas plataformas tradicionalmente mais abertas à experimentação e a novos criadores. 
Na Quinzena, será o curta Pouco Mais de um Mês, de André Novais Oliveira (MG), que retrata os bastidores de um namoro recente e é protagonizado pelo próprio diretor. Na Semana, o curta brasileiro é Pátio, do diretor Aly Muritiba (PR), que acompanha detalhes do cotidiano de uma prisão e foi exibido e premiado no recente 18º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários.
 
Time comprovado
Entre os diretores que disputam a mais vistosa premiação do festival, a Palma de Ouro, figuram os norte-americanos irmãos Coen (com uma viagem musical pelo folk novaiorquino dos anos 1960, Inside Llewyn Davis, com Carey Mulligan e Justin Timberlake); Jim Jarmusch (com o romance entre os vampiros Tilda Swinton e Tom Hiddleston Only Lovers Left Alive); e Steven Soderbergh (com a cinebiografia do músico Liberace, Behind the Candelabra, vivido por Michael Douglas, tendo Matt Damon como seu amante); os franceses François Ozon (Jeune et Jolie, retrato de uma garota de 17 anos, vivida por Marine Vacth) e Arnaud Desplechin (e seu primeiro filme norte-americano, Jimmy P., com Benicio del Toro e Mathieu Amalric); o franco-polonês Roman Polanski (Venus in Fur, história de uma atriz, vivida por Emmanuele Seigner, na cola de um diretor para dar-lhe um papel); o japonês Hirokazu Kore-eda (num drama, Like Father, like Son, sobre crianças trocadas), o iraniano Asghar Farhadi (com um novo drama envolvendo separação de casal, The Past) e o chinês Jia Zhang-ke (A touch of sin). 
Sem dúvida, trata-se de um time respeitabilíssimo, mas que sugere que os selecionadores de Cannes este ano não quiseram correr riscos. A crise mundial deve estar tornando os patrocinadores mais ariscos e, portanto, cada vez menos dispostos a ousadias. A sombra de um tempo conservador se abate também sobre um evento artístico, ainda mais de grande porte, como este festival. 
Assim, mais do que nunca, será bom conferir novidades nas seções paralelas, como Un Certain Regard (Um Certo Olhar), em que convivem diretores consagrados, como a norte-americana Sofia Coppola (abrindo esta programação com The Bling Ring), a francesa Claire Denis (The Bastards) e o cambojano Rithy Pahn (L’Image Manquante), e estreantes, como o mexicano Diego Quemada Diez (La Jaula de Oro) e a alemã Katrin Gebbe (Tore Tanzt). 
Num ano com este perfil, faz muito sentido o júri principal ser presidido por ninguém menos do que o estelar diretor e produtor Steven Spielberg. Ao seu lado, porém, há uma equipe de várias tendências: a diretora japonesa Naomi Kawase (A Floresta dos Lamentos), a atriz australiana Nicole Kidman, a diretora e roteirista escocesa Lynne Ramsay (Precisamos Falar sobre o Kevin), o ator e diretor francês Daniel Auteuil (A Filha do Pai), o ator austríaco Christoph Waltz (Django Livre), o diretor e roteirista romeno Cristian Mungiu (Palma de Ouro por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias), o diretor e roteirista taiwanês Ang Lee (As Aventuras de Pi) e a atriz indiana Vidya Balan. 
 
Cannes Classics 
A recheadíssima seleção dos Cannes Classics, entre inúmeras outras atrações, terá uma sessão de Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock (1958), em versão restaurada e presença da atriz Kim Novak, convidada de honra do festival. 
Sobre o seu duplo papel no filme, como Madeleine Elster e Judy Barton, a atriz, hoje com 80 anos, comentou: “O que é interessante é como o filme refletia o que eu estava vivendo naquela época. Era a história de uma mulher que era forçada a ser quem não era”. Na vida real, a intérprete de filmes como Férias de Amor (1955) e Servidão Humana (1964) deixou Hollywood prematuramente por não se adequar às regras tirânicas dos estúdios.
 
A atriz também fará parte da cerimônia de encerramento do festival, no dia 26 de maio, entregando um dos prêmios. A primeira vez que Kim Novak compareceu a Cannes foi em 1959, para a apresentação do filme Crepúsculo de uma Paixão, de Delbert Mann.

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