FESTIVAL DE CANNES

Crônicas de juventude ocupam Cannes, sob chuva

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes - A programação em Cannes nesta primeira quinta-feira do festival compensou o péssimo clima – chuva, frio e vento, repetindo a atmosfera da edição 2012 – com filmes nutridos pelo vigor e também os dilemas da juventude.
Foi o caso do primeiro concorrente francês, Jeune et Jolie, de François Ozon, que revisita o tema da Bela da Tarde, de Louis Buñuel, sem a mesma agudeza e sob uma chave mais adolescente. Trata-se da história de uma garota de classe média de 17 anos (Marine Vacth) que mantém uma vida dupla pela excitação da aventura, pela experiência. Nem é para comprar uma roupa ou bolsa de grife de luxo, como acontece em tantos lugares.

 A adoração das grifes e da vida das celebridades, aliás, é a pegada de outro bando de jovens norte-americanos, retratados em The Bling Ring - A Gangue de Hollywood, novo filme de Sofia Coppola que parte da história real de um grupo de estudantes de classe média de Los Angeles que se especializaram em invadir a casa de famosos – como Paris Hilton e Lindsay Lohan – para roubar suas roupas, sapatos, joias, drogas e dinheiro.  
No elenco, a inglesinha Emma Watson deixa definitivamente de lado a inocência de Harry Potter para encarnar Nicki Porter, a ladrazinha mais hipócrita do bando, que vem de uma família ligada a uma seita. Os rituais diários desta família e a cara-de-pau da garota quando é pega pela polícia são alguns dos bons momentos de humor do filme – que, no todo, se estende e se repete um pouco, mas é preciso no retrato de uma sociedade que cria estes monstrinhos, por seu vazio, consumismo e pelos ídolos que a mídia elege e populariza, não raro, sem nenhuma boa razão.

É visível que Sofia escolheu, por assim dizer, como “centro moral” dessa turminha o garoto Marc (Israel Broussard) – que tem o melhor comentário na história, sobre a fascinação perversa dos EUA por seus transgressores à la Bonnie & Clyde. Definitivamente, é possível simpatizar com Marc pela sinceridade.

 Terra de ninguém
Bem diferente foi a temperatura do concorrente mexicano Heli, de Amat Escalante, que coloca em cena de modo muito veemente um contexto de emergência social e legal, total falta de perspectivas naquele país.
O personagem-título, vivido por Armando Espitia, é trabalhador de uma montadora de automóveis, assim como seu pai. Ambos sustentam a família, formada ainda pela mulher de Heli, um bebê e a irmã de Heli, de 12 anos.
O envolvimento da garota com um jovem soldado, que faz seu treinamento nas forças de combate antidrogas – um dos poucos empregos de uma região assustadoramente vazia e árida – desencadeia uma série de acontecimentos trágicos. Dois pacotes de cocaína, narcotraficantes vingativos e cruéis e a inoperância da polícia transformam Heli em alvo e vingador com as próprias mãos.
A presença latino-americana, tão mínima na competição pela Palma de Ouro, foi, pelo menos incandescente no pesadelo que Heli lança, em seu despojamento preciso na tela. Um nome de peso comparece nos créditos como co-produtor: Carlos Reygados, o premiado diretor de Japón, Luz Silenciosa, Batalha no Céu e Post Tenebras Lux.


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