FESTIVAL DE CANNES

Jia Zhang-Ke mostra o crime de perto em " A Touch of Sin"

Neusa Barbosa

 Cannes – Como o próprio título já indica, em A Touch of Sin, o cineasta chinês Jia Zhang-Ke muda de rumo e amadurece ainda mais. Fez seu filme mais violento até agora, abordando diretamente a criminalidade e também o cinema de gênero – o filme policial, a ação de Taiwan, o filme de samurai – para tecer, mais uma vez, uma crônica polifônica sobre a China contemporânea. Mas que fala também do mundo todo, especialmente dos países emergentes.
Como em Em Busca da Vida, o mundo do trabalho tem uma função muito decisiva na história. Jia mostra os trabalhadores em trânsito pelo país, imenso e em expansão – ao contrário do continente europeu –  , dinâmico, enérgico, mas também turbulento. Vê-se as caras dos donos do poder econômico, industriais, e também os chefes políticos corruptos, capazes de vender patrimônio público e enriquecer em proveito próprio – o que gera a ira de Dahai (Jiang Wu), protagonista do primeiro segmento.

 Como Em Busca da Vida – e também era assim em Plataforma (2000) -, não há uma divisão em segmentos. Mas a história, coletiva no final, decola nas trajetórias de diversas pessoas, que vão partindo, enquanto outras chegam. O próprio Jia, tal qual um Hitchcock, aparece numa ponta, como cliente de um gigantesco hotel, repleto de diversões bizarras para seus clientes novo-ricos – como um desfile de call girls vestidas em uniformes estilizados, com saia curtíssima, do exército chinês, numa reapropriação excêntrica das cores que fizeram a Revolução de Mao Tsé-Tung, em 1949.
Como fez magistralmente em O Mundo, o diretor demonstra novamente um olhar fino para retratar esses ambientes artificiais imensos – como esse mega-hotel, uma sauna, mesmo as fábricas, as enormes linhas de montagem que engolem essas multidões de operários que fabricam os produtos que depois invadem os mercados do mundo.
Jia continua fiel a esse seu sentido do coletivo. Mesmo quando retrata um único indivíduo, seja um trabalhador que se torna matador, ou a recepcionista de sauna (Zhao Tao, sua atriz-fetiche) que mata um cliente abusivo, o cineasta sintoniza seu contexto, seu lugar no mundo. E, como ninguém, se debruça sobre esse enorme e intrigante planeta chamado China, com uma sede de compreendê-lo por quem faz parte dessa água.


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