FESTIVAL DE CANNES

A família quebrada e amorosa de Farhadi ressurge em "The Past"

Neusa Barbosa, de Cannes

Cannes – Depois do impacto e dos prêmios de A Separação – que levou o Urso de Ouro em Berlim 2011 e o Oscar de filme estrangeiro em 2012 -, o novo filme do iraniano Asghar Farhardi, Le Passé/The Past (O Passado) era um dos mais esperados da competição aqui. E a exibição desta manhã de sexta (17) não decepcionou quem aguardava outro trabalho de confecção minuciosa, explorando, mais uma vez, os meandros de uma situação familiar em pedaços.

Como acontecia no também notável À Procura de Elly (2009), Farhadi é um admirável explorador de impasses. Ele junta seus personagens aqui em torno de um divórcio amigável, de um iraniano, Ahmad (Ali Mosaffa), e uma francesa, Marie-Anne (Bérénice Bejo, de O Artista). Os dois viveram juntos alguns anos, ele voltou ao seu país e agora concordou em voltar para assinar os papeis, já que ela pretende casar-se novamente, agora com Samir (Tahar Rahim, O Profeta).

Há vários filhos na história e nenhum conta com seus dois pais ao seu lado. As duas filhas de Marie, Lucie (Pauline Burlet) e Léa (Jeanne Jestin), são de outro ex-marido. A história da mãe de Fouad (Elyes Aguis), o filho de Samir, é o ponto nevrálgico do drama.

Olhar estrangeiro

Dirigindo pela primeira vez fora de seu idioma natal, numa coprodução entre França e Itália, filmada no primeiro país, Farhadi, como sempre roteirista de suas histórias, teve que adaptar-se um pouco ao estilo mais direto de diálogo dos franceses – que são maioria dos personagens. E em seus filmes a ação se movimenta sempre a partir das palavras, muitas palavras.

Nem pela mudança de idioma ele abriu mão de suas habituais espirais, da liberação gradativa das camadas emocionais que vai escavando de cada situação. Como sempre revela-se os detalhes pouco a pouco e em momentos precisos para produzir determinados efeitos - como uma espécie de thriller emocional, que finalmente engloba a todos no mesmo círculo, mesmo personagens que num primeiro momento parecem secundários – caso da empregada da lavanderia de Samir, Naïma (Sabrina Ouazani).

Por todos os seus filmes, Farhadi não parece muito otimista sobre a capacidade humana de conviver com harmonia. Mas certamente demonstra uma compreensão, uma afetividade pelas razões e sentimentos de seus personagens que não o transforma num niilista, à maneira de Michael Haneke. Afinal, todos eles querem reconstruir relacionamentos, não desistir deles.

Farhadi está mais para Tchecov do que para Dostoiévski. A comparação com a literatura do primeiro cabe, sobretudo por sua proximidade de assuntos cotidianos em que uma maestria menor no manejo tornaria corriqueiros, um maior excesso levaria a um novelão – o que nunca acontece, nem no cinema de Farhadi, nem na literatura de Tchecov. Mas o cinema de Farhadi, até pela profusão das falas e por ser visual, é mais exasperante. O espectador de seus filmes se sente no centro de um furacão ao qual, certamente, não é estranho.


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