FESTIVAL DE CANNES

A Palma de Ouro fica para o francês "La Vie d'Adèle"

Neusa Barbosa, de Cannes
 Cannes – Mais uma vez, a Palma de Ouro ficou em casa – para o filme francês La Vie d’Adèle – Chapitre 1 & 2, de Abdellatif Kechiche. Ao anunciar o prêmio, o presidente do júri, Steven Spielberg, frisou que a premiação visava destacar o “trabalho de três artistas”: o diretor, Kechiche, e as atrizes Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos.
 
A menção de Spielberg ao trio foi justa – afinal, o filme de Kechiche, longo (3h) e barroco como é, deve tudo que tem de bom à entrega de suas duas protagonistas, vivendo uma tórrida e complicada história de amor, baseada numa graphic novel de Julie Maroh.
 
A França fica, assim, com o troféu mais cobiçado, como no ano passado, ganho por Amor – que, apesar de dirigido pelo austríaco Michael Haneke, é uma produção francesa.
 
O grande esnobado da premiação foi mesmo o italiano Paolo Sorrentino – cujo trabalho, La Grande Bellezza, foi o grande filme deste festival e apontado em várias bolsas de apostas como um dos favoritos. Como se viu, o júri pensou muito diferente, não premiando nem seu ótimo roteiro – troféu que caiu no colo do chinês Jia Zhang-Ke, por A Touch of Sin -, nem seu esplêndido ator, Toni Servillo, historicamente esnobado em festivais. Uma pena.
 
Em A Touch of Sin, Zhang-Ke certamente ousa sair de um território conhecido, numa história que retrata diversas situações de violência, justiça com as próprias mãos e criminosos que escapam à justiça oficial, apontando para uma visão crítica do estado das coisas em seu país. Em seu agradecimento pelo prêmio, o prestigiado diretor de Em Busca da Vida fez questão de frisar: “O cinema para mim é o melhor meio de buscar a liberdade”.
 
Na fila do Oscar
Em que pese a lamentação por Toni Servillo, nem se pode dizer que o prêmio de melhor ator, destinado ao norte-americano Bruce Dern, no melhor papel de sua vida na comédia dramática Nebraska, de Alexander Payne, tenha sido injustiça – não foi mesmo. Dern está impecável na pele de um velho alquebrado, alcoólatra, desiludido de tudo na vida, mas que teima em realizar uma jornada atrás de um prêmio em dinheiro com toda pinta de picaretagem. O ator deve ser presença certa no Oscar, assim como Oscar Isaac, o excelente protagonista do drama musical Inside Llewyn Davis, de Ethan e Joel Coen, que arrebatou o segundo prêmio mais importante, o Grande Prêmio do Júri – que foi entregue a Isaac pela veterana atriz Kim Novak, charmosa e coquete aos 80 anos, homenageada nesta edição do festival e que prestigiou uma sessão da versão restaurada de Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock.
 
Diretor-surpresa
Entre as surpresas, além da robusta premiação aos Coen – que não frequentavam a lista dos favoritos -, a maior foi mesmo a premiação de melhor diretor foi o novato Amat Escalante, pelo filme mexicano Heli, um drama duro, ambientado no coração de um México empobrecido, sufocado pelo crime organizado e produzido por um dos cineastas mais queridos deste festival, Carlos Reygadas (que no ano passado levou o mesmo troféu aqui por Post Tenebras Lux, inédito no circuito comercial brasileiro).
 
Esperava-se um prêmio importante para o japonês Like Father, Like Son, de Hirokazu Kore-eda – um drama intimista sobre troca de bebês -, que ficou mesmo com o terceiro troféu mais importante, o Prêmio do Júri.  
 
Num ano em que as interpretações femininas não tiveram tanto brilho, a melhor atriz foi Bérénice Béjo (de O Artista), pelo drama iraniano Le Passé/The Past, de Asghar Farhadi, que inclusive já entrou em cartaz na França.  
 
Outros prêmios
A Caméra d’or, com júri presidido pela cineasta Agnès Varda, foi para Anthony Chen, pelo filme Ilo Ilo, de Cingapura, que foi mostrado na Quinzena dos Realizadores.
 
A Palma de Ouro de melhor curta foi para o sul-coreano Safe, de Moon Byoung-Gon. Dois outros curtas tiveram menções especiais: Whale Valley, de Gudmundur Arnar, e 37º 4 S, de Adriano Valerio.

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