Festival de Veneza 2009

George Romero defende seus zumbis em Veneza

Neusa Barbosa

Veneza - George Romero tem 69 anos mas parece um garoto quando fala de seu novo filme Survival of the Dead, que está na competição no 66º Festival de Veneza. Mais de quarenta anos depois do filme que o lançou como um dos mestres do gore – A Noite dos Mortos-Vivos (68) – ele diz que não está nada cansado, em entrevista ao Cineweb.

“Mais uma vez, é um filme sobre zumbis, mas não estou cansado. Adoro! Adoro o gênero. Ganho uma chance de, com estes filmes me expressar, fazer minhas próprias observações, um pouco de crítica social. É um trabalho muito bom”.

E que tipo de crítica social ele pensa fazer com filmes como este e também Diário dos Mortos (2007) Terra dos Mortos (2005) e Despertar dos Mortos (1978)? Ele responde que, no caso de Survival of the Dead- que será distribuído no Brasil pela Imagem, mas ainda não tem título em português -, a inspiração veio do envolvimento americano no Iraque. “Pensei naqueles garotos indo para lá e encarando todo aquele tribalismo. E também comecei a refletir no quanto este é um problema crônico na História”.

Estar na competição num festival de primeira linha como Veneza para ele “é estonteante”. Ele admite: “Foi uma total surpresa. Não tinha idéia de que isso seria assim. No começo, pensei que iam mostrá-lo numa sessão de mercado ou coisa parecida. Nem tenho certeza de que isto seja justo... “(ri).

Romero também não acredita que a compreensão do valor dos filmes de gênero, como o seu, tenha melhorado. “Não creio nisso. Algumas pessoas sentem-se insultadas de que meu filme esteja em competição aqui. Gostar de gênero não requer conhecimento específico, só suspender a descrença. Muitas pessoas não conseguem fazer isso em relação aos elementos tradicionais do gore. Acham que não é sério e não conseguem enxergar as metáforas por trás dele. Não veem o humor nem o contexto”.

Westerns – A história de Survival of the Dead apresenta várias referências a faroestes. Neste caso, como informa Romero, mais especificamente a Da Terra Nascem os Homens (1958), de William Wyler. “Fisicamente, foi nosso modelo.Todo mundo no set o assistiu. Os westerns americanos sempre foram sobre individualismo, a sobrevivência do indivíduo. Mas os que ficam mais na sua cabeça são sobre revolução, identidade perdida. Aí pensei que seria um contraste interessante”.

Embora use muitos efeitos especiais computadorizados,de última geração, o diretor confessa que preferia os velhos tempos, em que usava dispositivos mecânicos. “Eu preferiria muito mais fazer as coisas do jeito antigo. Mas isto leva tanto tempo e muitas vezes não fica bom. Não é prático. Então a tecnologia te ajuda a fazer as coisas com mais qualidade e rapidez. Mas não gostaria de fazer um filme que dependesse inteiramente de efeitos, como um sobre dinossauros, essas coisas”.

Ele também não gosta de zumbis rápidos e lembra de uma referência do passado: “ A coisa que me assustava quando era mais jovem era A Múmia, que tinha um monstro realmente lento, mas que vinha devagar e sempre. Agora há realmente um intenso debate na internet sobre como eles devem ser. Eu tenho que defender meus meninos. Mas tem gente que pensa como eu. Já vi camisetas com os dizeres: Zumbis rápidos são um lixo!”. Como ele vê o futuro dos mortos-vivos que fizeram sua fama? “Se depender de mim, continuarão sendo lentos”.

Devido ao sucesso de seus filmes sobre zumbis, ultimamente o diretor vem se dando ao luxo de produzir seus trabalhos fora dos estúdios, de maneira independente. Foi assim em Diário dos Mortos e também neste Survival of the Dead. Ele acha ótimo: “Foi muito bom trabalhar assim, com liberdade total, sem ‘polícia’ atrás. Sou completamente livre para fazer o que quero, para o bem ou para o mal”.

Ele lembra duas experiências anteriores com estúdios, A Metade Negra (93) e Comando Assassino (88). Nos dois casos, admite, “foi horrível”. E dá mais detalhes: “Havia um monte de interferências e mudanças de ideias o tempo todo. Diziam: ‘Vamos por uma cena que parece não sei com que’. A típica doideira de Hollywood. Nos dois filmes, me forçaram a mudar os finais. Não gostei nada”.

E Survival of the Dead, vai ser o último filme sobre zumbis? Romero diz que “a decisão é econômica. Se fizer sucesso e vendermos um monte de DVDs, com certeza faremos outro. Diário dos Mortos foi assim”. Surpreendentemente, o ‘mestre dos zumbis’ não tem a menor idéia do porque seus filmes continuam sendo populares. “ Nem eu consigo entender. As pessoas curtem o gore. Talvez gostem também dos aspectos alegóricos disso. Mas não sei porque se tornaram tão populares. Acho que o grande estímulo tem vindo dos videogames. A maioria dos filmes sobre eles não tem feito tanta bilheteria assim. Acho que eles simplesmente se tornaram familiares, como os vampiros”.

Gritaria na coletiva
O cineasta italiano Michele Placido perdeu a esportiva e gritou com uma jornalista hoje, durante a coletiva de seu filme Il Grande Sogno, em competição no 66º. Festival de Veneza. O motivo foi a pergunta da repórter sobre se ele, assumidamente, um homem de esquerda, não via contradição em ter como coprodutora do filme a Medusa Film, que pertence ao enorme império de comunicações do primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

“Esta é uma pergunta estúpida! A quem devo recorrer?”, gritou ele, em resposta àquela que foi a última pergunta da entrevista. Placido acrescentou que, no passado, “ninguém cobrava de Luchino Visconti que recorresse a estúdios americanos para produzir os filmes dele”. E ainda fez uma confusão com a nacionalidade da jornalista, que ele acreditava ser inglesa, mas na verdade, era espanhola.

Pouco antes, o diretor falara mal do governo italiano, depois de ser cobrado por duas jornalistas por não ter retratado histórias mais contemporâneas. “Quem deve fazê-lo são os diretores da nova geração. Mas este governo não quer dar dinheiro aos jovens cineastas que desejam contar estas histórias de hoje”. Foi aplaudido por alguns dos jornalistas presentes depois desta declaração.

Terceiro filme italiano a ser apresentado na competição, Il Grande Sogno revisita num tom mais sentimental e romântico o tema de Os Sonhadores (2003), de Bernardo Bertolucci. Ou seja, a utopia política e comportamental de 1968, através da história de um grupo de estudantes envolvidos em passeatas, ocupações e até um atentado.

Riccardo Scamarcio (Meu Irmão é Filho Único) interpreta Nicola, um jovem imigrante da Puglia que sonha em ser ator mas trabalha como policial. Nessa função, infiltra-se numa universidade em Roma, aproximando-se de líderes estudantis, como Laura (Jasmine Trinca, de O Quarto do Filho e Libero (Luca Argentero). Estão no elenco também dois atores muito conhecidos no cinema italiano, Silvio Orlando (premiado em Veneza em 2008 por sua atuação no inédito no Brasil Il Papá di Giovanna) e Laura Morante (As Aventuras de Molière).

Burgueses, Pasolini e Bertolucci
Indagado sobre a proximidade temática de Os Sonhadores, Placido argumentou que seu roteiro começou a ser desenvolvido antes do lançamento deste filme, em 2003. E que, quando soube que Bertolucci abordava o mesmo assunto, parou seu projeto até ver do que se tratava. Só deu prosseguimento a Il Grande Sogno quando se convenceu de que se tratava de outro enfoque. ”Não acho que haja qualquer relação. São experiências completamente diferentes. E acredito que, no meu, há mais proletariado do que no filme dele”.

Há no trabalho de Placido um ângulo autobiográfico. Placido é originário da Puglia, no centro-sul da Itália, e foi policial antes de tornar-se ator, como o personagem Nicola. “Contei minha história. E as histórias dos outros personagens são igualmente verdadeiras. Este filme é uma espécie de meu diário”.

O cineasta observou que discordava do falecido cineasta Pier Paolo Pasolini, que num famoso texto de 1968 – Il PCI ai Giovani - tachou de “burgueses” os estudantes daqueles dias. “Aqueles ‘burgueses’ foram meus primeiros professores. Por causa daqueles meus pequenos mestres de 68, passei a ver o mundo com outros olhos. Por causa deles, fui fazer teatro em Siracusa. Não é uma questão de ideologia e sim de paixão”.


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