Festival de Veneza 2009

Coletiva de novo filme de George Clooney em Veneza tem striptease de jornalista

Neusa Barbosa

Veneza - A coletiva de imprensa do filme The Men Who Stare at Goats, nesta manhã de terça (8), acabou sendo o cenário do momento mais constrangedor deste 66º Festival de Veneza. Um jornalista italiano credenciado, que trabalha num programa de televisão no estilo do brasileiro CQC, disse ser gay ao ator George Clooney, fez-lhe uma declaração de amor e tirou a roupa, ficando apenas com a cueca e a gravata.

Irônico, Clooney comentou: “A gravata lhe cai bem”. Depois, completou: “Não é horrível que um cara tenha uma grande chance e simplesmente a arruíne?”. A segurança do Palazzo del Cinema, sede do festival, tirou a credencial do jornalista, mas não o retirou da sala. Ele permaneceu até o final da coletiva em trajes menores.

Não foi o único momento em que se tentou perturbar o ator e produtor norte-americano com assuntos pessoais e escandalosos. Um outro jornalista tentou fazê-lo falar de seu suposto homossexualismo – assunto mencionado em alguns jornais italianos hoje, como o “La Repubblica” – mas ele, mais uma vez, se esquivou com humor: “Não posso responder a essa pergunta mas leio sua mente e sei o que está pensando”. A ironia veio do fato de que o filme The Men Who Stare at Goats ficcionaliza uma situação real, em que o governo dos EUA recrutou videntes e místicos com supostos poderes extrassensorias para missões militares secretas.

Não faltou nem mesma a pergunta, que parece inevitável em Veneza – como ocorreu no ano passado, quando Clooney veio divulgar o filme Queime Depois de Ler – sobre um possível casamento do ator. “Nunca me perguntaram isto antes. Eu não sei”, disse.

Apesar destes momentos constrangedores, também se falou do filme, uma comédia de humor negro, dirigida por Grant Heslov (mais conhecido como ator de filmes como Boa Noite e Boa Sorte, dirigido por Clooney). São dois protagonistas, o jornalista Bob Wilson (Ewan McGregor) e um suposto místico que trabalhou numa unidade secreta do exército, Lyn Cassady (Clooney). No elenco, estão também Kevin Spacey e Jeff Bridges.

Sobre o filme, que adapta livro não-ficcional de Jon Ronson e do qual Clooney é um dos produtores, ele afirmou que a maior intenção foi fazer “uma comédia sobre coisas malucas que vem acontecendo desde a guerra do Vietnã. E que talvez continuem acontecendo, quem sabe”.

Outra tirada irônica veio quando lhe perguntaram se o presidente Barack Obama, de quem o ator foi eleitor declarado, precisa da ajuda de algum guerreiro Jedi – personagens da cinessérie Star Wars, de George Lucas, que são citados de modo humorístico no filme, especialmente porque nele Ewan McGregor, que interpreta um deles, Obi Wan Kenobi, nos filmes mais recentes da saga, simplesmente desconhece o que sejam.

A resposta de Clooney: “Acho que para qualquer um que entrasse na Casa Branca na situação em que Obama entrou, com crise econômica, guerras, etc., um guerreiro Jedi viria bem a calhar”.

Memórias da guerra no Líbano
A primeira Guerra do Líbano, de junho de 1982, que foi tema da animação Valsa com Bashir (2008), de Ari Folman, voltou a ser abordada em outro filme israelense, Lebanon. Dirigida por Samuel Maoz, a produção compete ao Leão de Ouro no Festival de Veneza.

Como acontecia no filme de Folman, o roteiro de Lebanon revisita suas memórias pessoais do diretor, que atuou como soldado naquela guerra,em que Israel invadiu o Líbano, aliado a tropas falangistas daquele país.

Num clima claustrofóbico, o filme se passa o tempo todo dentro de um tanque. Nele, ficam três soldados, que recebem sucessivas visitas de um major, que é seu superior. Os três soldados jamais saem dali. Só o armeiro vê alguma coisa do mundo lá fora pela pequena escotilha que lhe serve para mirar. O mundo lá fora entra às vezes, com a deposição de um morto, depois, de um prisioneiro sírio e também de um miliciano falangista libanês.

Na coletiva de imprensa, nesta tarde de terça (8), o diretor contou que o roteiro, também de sua autoria, surgiu de uma recordação pessoal de seu primeiro dia naquela guerra, que ele lutou quando tinha 20 anos. Os atores ficaram trancados num local pequeno, barulhento e quente, como o ambiente do tanque, para absorver a sensação real da situação vivida por Maoz.

O diretor e roteirista explicou assim o caráter de Lebanon: ” O filme não é pessoal num sentido documental. Alguns dos fatos ali não aconteceram realmente assim. Queria usar a memória subjetiva. Não quero que o público só entenda o que aconteceu e sim que sinta. É preciso sentir-se dentro do tanque para entender o que passaram os personagens, ver o que eles veem”.


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