Festival de Veneza 2009

Hugo Chávez rouba a cena e aparece em Veneza para ver filme de Oliver Stone

Neusa Barbosa

Veneza - O presidente venezuelano Hugo Chávez roubou a cena na sessão oficial do documentário South of Border, de Oliver Stone, exibido fora de competição nesta segunda (7).

O esquema de segurança para a vinda de Chávez – que é o principal personagem do filme – provocou um sensível aumento do número de policiais ao redor do Palazzo del Cinema, sede do festival. A espera da chegada de Chávez provocou um atraso de 35 minutos no início da sessão, marcada para as 17h15, na Sala Grande, mas que só começou às 17h50.

Instalado no mezanino, ao lado do cineasta Oliver Stone – num figurino praticamente idêntico ao do presidente, de terno preto e gravata vermelha – e cercado por diversos seguranças e dois militares venezuelanos uniformizados, de boinas vermelhas, Chávez foi recebido com aplausos pela platéia lotada (a sala tem 450 lugares). Ele não chegou a ver um pequeno cartaz, afixado com durex, na parede do fundo do plano inferior da sala, escrito à mão, onde se lia: “Basta Chávez, Stop Ditattore”. Uma senhora que gritou “Chávez dittatore”(“Chávez ditador”, em italiano), foi retirada da sessão, antes de seu início, pelos seguranças locais. Mas não houve violência.

Ao final do filme – em que são entrevistados também outros presidentes sul-americanos, como o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva -, Chávez quebrou o protocolo, descendo a escada em direção à platéia inferior. Rodeado pelo público que aplaudia o filme e ainda não deixara a sala, apertou as mãos de diversos espectadores, deixou-se fotografar por eles e ainda improvisou um pequeno discurso.

Nessa fala, um verdadeiro puxão de orelhas numa platéia predominantemente européia, lembrava que, quando os europeus chegaram à América, havia no continente, “grandes civilizações, como os astecas e os maias, que fizeram um dos calendários mais perfeitos”. Disse também que havia na América “cidades de mais de 100.000 habitantes, quando em Nova York não havia nada”. Segundo ele, a população local, que era “de mais de 90 milhões de indígenas”, foi “sacrificada”, sendo depois trazidos “outros milhões de africanos para serem escravizados”. Ao final da conversa, mudou de tom, puxando um “viva Oliver”, levantando o braço do cineasta e aproveitando, com ele, vários minutos de aplausos antes de deixar o local.

Herança de Bolívar
South of Border focaliza os novos dirigentes da América do Sul, que vem promovendo mudanças, caso de Chávez, Luís Inácio Lula da Silva, no Brasil, Evo Morales, na Bolívia, Rafael Correa, no Equador e Fernando Lugo, no Paraguai.

Tanto quanto no filme, em sua coletiva de imprensa, nesta manhã, Stone defende o presidente venezuelano: “Os ataques da mídia norte-americana a ele são ridículos.Mas não queria fazer um filme apenas sobre isso. Trata-se de um fenômeno muito maior, já que há outros presidentes promovendo grandes mudanças”.

Perguntado sobre os protestos contra Chávez em seu país, o cineasta norte-americano declarou: “Não sei muito sobre isso. Mas o fato é que ele continua sendo eleito. Venceu doze eleições, em processos muito idôneos”. Stone acha que as críticas contra o presidente venezuelano vem do fato de ele “ter se oposto ao consenso de Washington” e que “até o Banco Mundial admite que naquele país a pobreza caiu pela metade”.

Falando especificamente do presidente Lula, Stone destacou que, depois de ter “lutado e recuado” contra a política de privatizações inspirada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), ele “finalmente assumiu posições bem contundentes” em relação a isso.

O roteirista Tariq Ali, por sua vez, entende que “agora, a América do Sul fala com uma única voz. Não há nada de sinistro nisto. Este era o sonho de Simon Bolívar, liberar a América do Sul, o que está ocorrendo não pelas armas nem pela violência, mas através de líderes políticos que vem cumprindo suas promessas eleitorais”.

Filme no Irã – Indagado se faria o projetado documentário sobre o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, Oliver Stone não foi conclusivo. Ele disse que vem tendo algumas discussões com as autoridades iranianas sobre isso nos últimos três anos, que houve muitas idas e vindas mas que, quando se tornou possível filmar, o cineasta não pode – por estar ocupado com seu filme W..

Quando uma jornalista italiana perguntou se Stone teria interesse em filmar um documentário sobre o atual premiê italiano Silvio Berlusconi, o cineasta disse que “não sabe muito” sobre ele. O roteirista Ali comentou: “Oliver Stone não pode fazer um filme sobre cada um dos governantes de cada país do mundo. A Itália tem grandes cineastas, como Paolo Sorrentino, que podem fazê-lo. Nanni Moretti já fez o seu”. O filme de Moretti a que ele se referia é O Crocodilo (2007).

Momento Lasseter
O diretor e produtor norte-americano John Lasseter também fez história no Festival de Veneza ao receber, neste domingo (6), o primeiro Leão de Ouro de honra não apenas para si mesmo, mas para a empresa que criou e se tornou uma referência mundial em animação, a Pixar.

O criador por trás de sucessos como Toy Story e Toy Story 2 recebeu seu prêmio das mãos do diretor e produtor George Lucas, que veio a Veneza pela primeira vez. A escolha de Lucas deve-se, entre outras razões, ao seu papel na própria origem da Pixar. Esta empresa nasceu a partir da divisão digital da LucasFilm, que se tornou a Pixar ao ser comprada por Steve Jobs, da Apple, em 1996.

Na coletiva de imprensa, Lasseter foi perguntado se guardava alguma mágoa de Lucas por ele ter vendido aquela divisão a Jobs. “Em Hollywood, como no mundo dos negócios em geral, quando alguém vende uma empresa que tem muito sucesso depois, é claro que sente que perdeu algo. Ou que fez uma grande bobagem”.

Lasseter disse também que, mesmo depois da venda, Lucas continuou sendo seu maior apoiador. “Não existiríamos sem ele e lhe somos gratos. Estou muito honrado em tê-lo aqui para nos entregar esse Leão de Ouro”.

Quanto ao futuro da Pixar, o diretor, que é seu presidente, destacou que a empresa continuará fazendo sequências – como Toy Story 3, que teve cinco minutos inéditos exibidos aqui em première mundial, na cerimônia de premiação de Lasseter. Mas estas sequências, segundo ele, serão feitas apenas quando se “tiver a certeza não só de que o filme será muito bom, mas também tornará melhor o original. Meus modelos nisso são O Poderoso Chefão 2 e O Império Contra-Ataca”. Outra sequência prevista é a de Carros, em produção.

Lasseter garantiu que a animação tradicional não será abandonada. A Pixar, que assumiu o controle do estúdio Walt Disney, dará prosseguimento a projetos com essa técnica por exemplo na nova produção The Princess and the Frog- que também teve uma première mundial de cinco minutos na mesma cerimônia.

Um outro novo projeto em produção na Pixar é The Bear and the Bow – o primeiro conto de fadas da empresa, que terá uma personagem feminina bem forte, segundo Lasseter. “O mundo da animação vem sendo dominado pelos homens, mas isto está mudando”.

Mentiras de Soderbergh
“Acho a mentira absolutamente necessária na vida. Se falássemos só a verdade o tempo todo, nos mataríamos todos”. Assim falou o cineasta norte-americano Steven Soderbergh na coletiva de seu novo filme, O Desinformante!, exibido no Festival de Veneza, fora de competição. O filme, que adapta a história real de um executivo vigarista, Mark Whitacre, ganhou os holofotes pela presença em Veneza do ator Matt Damon, conhecido por sua atuação em Onze Homens e um Segredo (2001) e A Identidade Bourne (02), entre outros. A produção tem previsão de estreia no Brasil em 9 de outubro.

Ao fazer o comentário, Soderbergh falava do caráter do protagonista de sua história, que, nos anos 90, inventou uma série de mentiras, inclusive sobre si mesmo, sem ser descoberto antes de provocar uma investigação do FBI sobre formação de cartel e outros crimes na própria empresa em que trabalhava num alto posto.

O diretor esclareceu que seu interesse pelo personagem nada teve a ver com as recentes investigações sobre corrupção em grandes corporações,como a Enron. “Levei sete anos para filmar este projeto. Mas meu interesse na história veio basicamente do caráter do personagem”.

Soderbergh comentou que o que basicamente o atrai em Whitacre é o “mistério” sobre suas motivações para denunciar a própria empresa mentir tanto. Para o cineasta, o executivo, que cumpriu pena na prisão, não é o único responsável pelo caso ter ido tão longe. “A mentira envolve não só o mentiroso, mas também quem acredita. Acho impressionante, por exemplo, como os agentes do FBI ignoraram continuamente todos os sinais de que alguma coisa não batia nos relatos dele”.

Ao contrário de seu trabalho anterior, Che, quando fez questão de ter contato pessoal com todos os envolvidos com o personagem, aqui o diretor não quis encontrar nenhum deles, nem mesmo Whitacre. Para o filme, foram comprados os direitos do livro sobre o executivo escrito por Kurt Eichenwald.

O ator Matt Damon comentou que o papel de Whitacre foi aquele em sua carreira em que “mais se divertiu”. Entre outras coisas, “porque comia tudo o que via e não tinha de ir à academia depois do trabalho”. Damon ganhou cerca de 15 kg para este filme, mas já chegou em forma a Veneza.


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