Festival de Veneza 2009

Werner Herzog muda história em Veneza com dois filmes na competição

Neusa Barbosa

Veneza - O diretor alemão Werner Herzog entrou para a história do Festival de Veneza ao tornar-se o primeiro cineasta em todas as 66 edições a participar do mesmo evento com dois filmes no mesmo ano na competição pelo Leão de Ouro. Ambos, aliás, exibidos ontem (4), os dois policiais: Bad Lieutenant: Porto f Call New Orleans e o que até então era indicado no programa do festival apenas como um filme-surpresa, My Son, My Son, What Have Ye Done?, que teve sua primeira sessão para a imprensa ã noite, às 22h.

Alegadamente baseado em fatos reais, o filme procura desvendar as razões por trás de um crime, o assassinato de uma mãe (Grace Zabriskie, de Império dos Sonhos) pelo filho perturbado, Brad Macallam (Michael Shannon, de Foi Apenas um Sonho). Ator amador, pouco antes participara da montagem de uma tragédia grega, ao lado da noiva Ingrid (Chloe Sevigny), cujo enredo incluía um matricídio.

Depois do crime, Brad se fecha em sua casa em San Diego, armado, alegando ter dois reféns. O que desencadeia um cerco policial, comandado por um investigador (Willem Dafoe, de Anticristo) que, como um psicólogo, procura juntar as peças da trama, ouvindo os envolvidos.

Também filmado nos EUA, onde o diretor alemão está atualmente radicado, My Son, My Son, What Have Ye Done? foi produzido pela Absurda, empresa do também cineasta David Lynch. A história, aliás, tem toques surreais de Lynch, inclusive a presença de uma de suas atrizes habituais, Grace Zabriskie. Na trilha sonora, está presente Caetano Veloso, interpretando Cucurrucucu Paloma, mesma canção interpretada no filme espanhol Fale com Ela, de Pedro Almodóvar.

Com seus dois filmes na competição, Herzog afasta-se cada vez mais de seu passado e mesmo dos documentários mais recentes, como o competente Homem-Urso. Ainda não se sabe se esta é uma guinada definitiva na carreira de um diretor bastante inquieto e emocional – como demonstrou nas coletivas de seus filmes. Mas quem gosta de seu trabalho anterior, como Fitzcarraldo e Aguirre – A Cólera dos Deuses, certamente ficará com saudade.

Pôster de “Aguirre”
Em sua segunda coletiva em Veneza, Werner Herzog aproveitou para dar uma tirada cínica. “Em toda a sua história, Veneza nunca aceitou nenhum de meus filmes na competição. Agora, Marco Müller (diretor do festival) entusiasmou-se por estes meus dois trabalhos e eu o desafiei – por que não ir até o fim, fazer o que lhe parece mais radical? Ele aceitou o desafio e escolheu os dois”, declarou o cineasta, nesta manhã de sábado.

Muito à vontade e bem-humorado, o diretor alemão contou que o enredo baseia-se num crime real, ocorrido em San Diego (EUA) – cenário mantido no filme – em que um filho, ator talentoso, matou a própria mãe. Depois de ter sido considerado louco, o assassino passou oito anos e meio numa instituição, de onde saiu para morar num trailer.

Herzog chegou a encontrá-lo neste trailer, tornando-se claro na conversa que ele era “insano”. Mas o que assustou o cineasta foi ter visto um pôster de um de seus filmes antigos, Aguirre – A Cólera dos Deuses, na parede do trailer. “Nunca mais voltei lá”, declarou, arrancando risadas da platéia de jornalistas.

Sobre David Lynch, Herzog disse: “Nós dois nos gostamos e respeitamos muito, embora tenhamos trabalhos muito diferentes”. A ideia de que o norte-americano se tornasse o produtor surgiu de uma conversa informal. “Falávamos que se deve fazer filmes de orçamentos não de 180 milhões de dólares, mas de apenas dois ou três milhões. E ter os melhores atores. Ele então me disse: ‘Por que não fazemos isso? Você tem um projeto?’. Eu respondi: ‘Tenho”. Ele respondeu: ‘Para quando? Começamos amanhã?’. Eu respondi que sim”.

Brincando, Lynch teria dito ao diretor alemão que colocar seu nome como produtor executivo “tornaria mais fácil vender o filme para a França”. Naquele país, Lynch já venceu uma Palma de Ouro em 1990 com Coração Selvagem e um prêmio de melhor diretor também em Cannes por Cidade dos Sonhos (2001).

Protagonista do filme, Michael Shannon (indicado ao Oscar de ator coadjuvante por Apenas um Sonho) fez duas viagens,uma ao Peru, outra ao oeste da China, não só para pesquisar seu papel, como para filmar algumas cenas. O Peru, onde o diretor alemão filmou parte de Aguirre... é, segundo o ator, “território sagrado” para Herzog, que o guiou num tour pessoal.

No oeste da China foi filmada uma sequência em que o ator aparece no meio de camponeses e onde ele correu alguns riscos. Era proibido filmar na região, fortemente militarizada. Assim, o ator, que portou também a câmera em parte das cenas, corria risco de prisão. Poucas semanas depois, ocorreu ali um terremoto e a rebelião dos uighurs, uma minoria étnica muçulmana.

Indagado se não teme ficar identificado demais com papeis de psicótico – que viveu também no terror Possuídos -, Shannon respondeu: “Gosto de explorar personagens que saem da normalidade. Não me agrada ser uma pessoa normal, que só faz coisas normais. Isso também é uma prisão”. Ele garantiu ainda que não teme ficar fixado num único tipo e que “nunca faria Indiana Jones. Ou talvez fizesse, sei lá”.

Conflitos amorosos de Chéreau
Primeiro concorrente francês ao Leão de Ouro do Festival de Veneza, foi bastante aplaudido tanto em sua sessão de imprensa, quanto em sua coletiva, neste sábado (5), Persécution, de Patrice Chéreau. Drama que tem seu forte nos diálogos, o filme constroi e desconstroi um triângulo emocional, embora nem sempre amoroso, entre Daniel (Romain Duris, de Paris), Sonia (Charlotte Gainsbourg, de “Anticristo”) e Jean-Hughes Anglade (veterano de 54 anos que volta a um papel de destaque, 23 anos depois de seu maior sucesso, Betty Blue de 1986).

Na coletiva do filme, o diretor Chéreau (conhecido por A Rainha Margot e Intimidade) fez questão de falar italiano. Indagado sobre seus métodos de trabalho, contou que costuma cortar seus diálogos – um ponto forte aqui, como é seu estilo – antes do início das filmagens, para não causar problemas aos seus atores. “Não quero correr o risco de cortar uma linha que fazia sonhar um ator”, justificou. Neste filme, Chéreau alia-se, pela quarta vez, a Anne-Louise Trividic como corroteirista.

Elogiado pelos diálogos, o diretor, que se divide entre o cinema e o teatro, surpreendentemente, diminuiu sua importância. “Acho errado que digam que os diálogos, na vida, sirvam para exprimir o que pensamos. Na verdade, acho que servem mais para nos justificar, nos esconder”.

A profissão do protagonista, Daniel, que reforma apartamentos, é, assumidamente, uma metáfora, para o diretor. “Há uma metáfora evidente na vida dele, nesse canteiro de obras que é ele mesmo. E também uma idéia não só de construção, como de desconstrução e de efemeridade”.

O ator Romain Duris, por sua vez, disse que o atraiu nesse papel foi a “necessidade de viver, de ir adiante, com todas as suas contradições”. Já Jean-Hughes Anglade disse que o filme é pleno de detalhes, “uma paisagem da vida”, mas que “não conseguia falar dele em sua totalidade”.

Filme chinês – Segundo concorrente chinês ao Leão de Ouro, Yi ngoy/Accident, de Soi Cheang, revisitou o universo de Johnnie To – conhecido diretor de filmes de ação de Hong Kong, com trabalhos como Eleição, e que aqui funciona como produtor. Outro traço de To é a presença de alguns de seus atores habituais, Louis Koo e Richie Jen, estrelando o trabalho de Cheang.

Bem diferente do outro concorrente chinês já apresentado em Veneza, o melodrama Lei wangzi/Prince of Tears, de Yonfan, este novo filme aposta na adrenalina, com cenas de violência bem-construídas, para mostrar a atuação de uma gangue de matadores de aluguel, especializada em eliminar pessoas fazendo suas mortes pareceram acidentes – em geral, bastante peculiares, como um envolvendo uma vidraça quebrada e outro, um acidente com um fio elétrico debaixo de uma tempestade. Como o outro concorrente chinês, uma produção voltada a um grande mercado e cuja presença causa estranheza dentro da competição por aqui.


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