Festival de Veneza 2009

Veneza tem presença brasileira, com filme de Gomes e Ainouz e prêmio para Walter Salles

Neusa Barbosa

Veneza - Foi recebida com palmas e mais do que a metade da Sala Darsena, que tem 1.300 lugares, ocupada, a sessão oficial do primeiro filme brasileiro do 66º Festival de Veneza, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, dos diretores Marcelo Gomes e Karim Ainouz. Atração desta tarde de sexta (4), o documentário faz parte da seção paralela Horizontes, destinada às produções de pesquisa de linguagem cinematográfica, que também é competitiva.

Filmado ao longo de 10 anos, desde 1999, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo ganhou em parte um tom ficcional ao ter acrescentada à sua travessia por diversos pontos do sertão nordestino, a partir de Fortaleza, a figura de um narrador – o ator baiano Irandhir Santos (da minissérie Pedra do Reino), que nunca aparece em cena, mas cuja voz é ouvida o tempo todo.

Santos interpreta um geólogo, José Renato, que parte para uma viagem de pesquisas, para construção de um canal. Pelos seus olhos, o espectador do filme flagra cenas da vida cotidiana de estradas, povoados, postos de gasolina, feiras, santuários. O personagem filma esses locais e essas pessoas, traçando com eles o itinerário de uma procura existencial. Ele vive um momento de crise numa relação amorosa, o que explica o título.

Na coletiva do filme, nesta tarde, os diretores explicaram que o projeto do filme veio sendo adiado todo este tempo em função de dificuldades de orçamento. Neste período, os dois cineastas realizaram projetos individuais em ficção: Cinema, Aspirinas e Urubus, no caso de Gomes, Madame Satã e O Céu de Suely, no de Ainouz. Mas, nos dois casos, ambos participaram dos respectivos roteiros, amadurecendo a parceria agora sedimentada em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo.

Para Gomes, o período de maturação permitiu redimensionar o material filmado ao longo dos anos, que foi captado em vários suportes: digital, vídeo, 16 mm e 35 mm. “Aí surgiu a idéia de um personagem que também viaja e está à flor da pele, como nós”, aponta.

Falando dos locais de filmagens, Gomes prefere usar o termo “sertão”, que para ele é o “lugar da nossa afetividade, de onde eu sou, de onde são os antepassados do Karim”. Gomes é pernambucano, Ainouz, cearense.

Já para Ainouz, “cada país tem o seu sertão”. Em sua visão, este é um “lugar da memória, do vazio e do isolamento”. Mas ele prefere usar outro termo: “desertão”.

Prêmio para Walter Salles
O cineasta Walter Salles recebeu hoje (4) o Prêmio Robert Bresson, concedido pela Fondazione Ente dello Spettacolo e a Rivista del Cinematografo a diretores cuja obra é considerada importante e humanista. Desde 2000, quando o troféu foi criado, já foram homenageados os cineastas Giuseppe Tornatore, Manoel de Oliveira, Theo Angelopoulos e Wim Wenders, entre outros.

Desculpando-se por não falar bem o italiano, Salles fez seu “agradecimento de coração” em inglês. Lembrou em seu discurso que morou em Paris quando tinha 13 anos e, quando teve uma semana de folga da escola jesuíta onde estudava, aproveitou para assistir a 15 filmes. Entre eles, Teorema e Mamma Roma, de Píer Paolo Pasolini, e IF, de Lindsay Anderson. Ao voltar às aulas, recebeu como dever escrever sobre sua atividade na semana livre. Quando mencionou o tipo de filmes que vira, foi punido, tendo seus pais chamados à escola por ter assistido “filmes impróprios”, na visão dos religiosos. “Engraçado é que hoje estou aqui para receber um prêmio pelo mesmo motivo de minha punição, décadas atrás”, afirmou. O comentário divertiu o monsenhor Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho da Cultura, uma das autoridades presentes, ao lado do presidente da Bienal de Veneza, Paolo Baratta, e do diretor do Festival de Veneza, Marco Muller.

Além deles, também participou da cerimônia a atriz italiana Maria Grazia Cuccinota que, como tem sido o seu hábito nos últimos dias, causou sensação dentro de um vestido de seda ultradecotado.

Salles comentou também seu projeto de dirigir Pé na Estrada, que vem sendo desenvolvido há três anos, com produção de Francis Ford Coppola - que comprou os direitos do livro de Jack Kerouac quase 30 anos atrás. O diretor brasileiro espera começar as filmagens no início ou no meio do ano que vem. Segundo ele, há três roteiros originais e algumas adaptações sendo estudados, mas ainda falta amadurecimento. “Só se pode começar quando tudo realmente estiver no lugar”, afirmou.

O tenente malvado de Herzog
Produção norte-americana dirigida pelo alemão Werner Herzog (O Homem-Urso), o policial Bad Lieutenant: Porto of Call New Orleans, concorrente ao Leão de Ouro no Festival de Veneza, revisita Vício Frenético (1992), de Abel Ferrara. Os protagonistas dos dois filmes são policiais viciados em drogas, Harvey Keitel em Nova York, no caso do filme de Ferrara, Nicolas Cage em Nova Orleans pós-furacão Katrina, no de Herzog. Mas o diretor alemão não gosta de falar da matriz de seu filme, como se viu na coletiva de hoje à tarde, em Veneza.

“Não sei quem é, nunca vi o filme. Acho que isso acontecerá algum dia”, ironizou o diretor, diante das perguntas dos jornalistas a respeito de Ferrara. Depois, admitiu ter encontrado o diretor norte-americano “em torno de uma garrafa de uísque”.

Indagado se usou drogas algum dia, Herzog descartou rápido: “Nunca na minha vida, pois não gosto da cultura das drogas”. Nicolas Cage, por sua vez, admitiu ter usado drogas no passado, afirmando ter se inspirado nas “memórias” de suas experiências com algumas substâncias – ele não mencionou quais – para compor o personagem do tenente Terrence McDonagh - que se mostra tão eficiente para prender traficantes como para apropriar-se de parte das drogas que comercializam.

Cage assumiu que, além de Keitel, outra inspiração para sua interpretação extremada foi a do ator polonês Klaus Kinski (1926-1991), que atuou em vários filmes de Herzog, como Fitzcarraldo (1982). “Fui procurar a intensidade dele, mas em nenhum momento procurei imitá-lo”, esclareceu.

Indagado se procurou fazer um filme noir, Herzog assumiu a intenção e o prazer de realizar um filme de gênero. Mas destacou que procurou escapar da atmosfera comum ao filme noir, em que “o mal permeia tudo”, procurando colocar em primeiro plano também um certo humor, “o aspecto divertido do mal”.

Alguns desses momentos irônicos são proporcionados pela aparição de répteis, como iguanas – que o próprio Herzog decidiu inserir no filme, filmando-os ele mesmo numa sequência. Um detalhe curioso, mas sem maior significado, como admitiu: “Eles parecem estúpidos e bizarros, mas não tenho uma real razão para isso”.

O diretor novamente partiu para a ironia quando uma jornalista italiana lhe fez a última pergunta da coletiva, sobre qual era a mensagem que seu filme pretendia passar aos jovens. “Se eu quisesse passar uma mensagem, usaria o Federal Express, não o filme”, disparou.

Hoje radicado em Los Angeles, o diretor de tantos filmes de arte dos anos 1970 e 1980, como o próprio Fitzcarraldo, Aguirre, a Cólera dos Deuses, Woyzeck e O Enigma de Kaspar Hauser também deixou claro que com Bad Lieutenant: Porto of Call New Orleans alcança bem outro perfil, com o qual não tem conflitos. “Estou muito orgulhoso de ter feito este trabalho, que é feito para o mercado, para um lançamento grande”.

Atraso, religião e novelão
Um atraso de 50 minutos na sessão do concorrente austríaco ao Leão de Ouro Lourdes, de Jessica Hausner, foi, até agora, o principal problema da organização do 66º Festival de Veneza. O filme, cuja sessão de imprensa deveria ter sido iniciada às 22 horas desta quarta (3), só começou às 22h50, por conta de um problema no projetor da Sala Perla.

O incidente provocou irritação no diretor do festival, Marco Müller, que foi visto na entrada da sala, falando alto no celular e discutindo com funcionários da sala, que procuravam resolver o problema.

O filme, em compensação, até foi aplaudido. O enredo acompanha Christine (a atriz francesa Sylvie Testud), doente de esclerose múltipla, que vai a uma peregrinação ao santuário francês de Lourdes. Ela e outros integrantes de uma excursão mística buscam um milagre. Quando ela tem uma recuperação inesperada, que não se sabe se será definitiva, a reação dos demais integrantes do grupo divide-se.

Falado em francês, Lourdes analisa diferentes posições diante da fé católica – e, em certos momentos, tem um certo clima de A Menina Santa, de Lucrecia Martel, sem aspirar ao mesmo radicalismo na linguagem.

Em compensação, trouxe um clima de novelão à competição pelo Leão de Ouro no Festival de Veneza o melodrama chinês Lei Wangzi (Prince of Tears), de Yonfan. Ambientado nos anos 1950, poucos anos depois da Revolução Comunista de Mao Tse-tung, com muita música melosa, relembra o chamado “terror branco” em Taiwan. Nessa época, um clima anticomunista de caça às bruxas levou à morte, segundo o filme, 3 mil pessoas, além de provocar cerca de 8 mil prisões.


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