Festival de Veneza 2009

Michael Moore pede o fim do capitalismo

Neusa Barbosa

Veneza - A passagem do documentário Capitalism: A Love Story, de Michael Moore repercutiu com toda a força que se poderia esperar do engajado diretor de Tiros em Columbine e Farenheit 451. Sua primeira sessão para a imprensa no Festival de Veneza, onde concorre ao Leão de Ouro, nesta noite de sábado (5), teve fila começando mais de meia hora antes de seu início, empurra-empurra e dezenas de jornalistas voltando para trás, assim que a lotação da Sala Perla (450 lugares) se esgotou.

 

Ao final, o filme foi bastante aplaudido. Em todo caso, o filme é polêmico e tem a marca marqueteira de Moore, embora não lhe falte contundência. Ao seu final, o diretor simplesmente faz uma profissão de fé contra o capitalismo – que, segundo ele, “não pode ser regulado, tem de ser simplesmente eliminado e substituído por um sistema mais justo”.

 

O foco do filme é a grande crise econômica que abalou os mercados mundiais ao final de 2008, provocando a quebra de instituições financeiras e a falência não só de empresas, como de pessoas físicas – milhares delas perderam suas casas, nos EUA, por não poderem pagar suas hipotecas, que haviam sido refinanciadas para adquirir novas casas.

 

Como de hábito nos filmes de Moore, a pesquisa é consistente e registra casos impressionantes, que visam retratar a ganância dos bancos e o resultado trágico, segundo ele, de uma desregulamentação do sistema financeiro. Além de acompanhar o despejo de alguns inadimplentes com as hipotecas, Moore denuncia verdadeiros crimes, como empresas que fazem apólices de seguro em favor de seus empregados e beneficiam-se delas, no caso de sua morte,em prejuízo das famílias dos mortos. O filme não se furta a indicar mesmo os nomes de diversas grandes empresas norte-americanas que usaram ou ainda usam este expediente.

 

Uma das sequências mais provocadoras de Capitalism: A Love Story está em seu final – quando o próprio cineasta percorre diversos bancos em Nova York com um saco de pano na mao, com a intenção declarada de “recuperar” dinheiro subtraído aos contribuintes. Impedido de fazer esta “coleta”, Moore arranja então um rolo da fita normalmente usada pela policia norte-americana para isolar cenários de crimes, passando-a pela porta dessas instituições. 
 

Ao final, o cineasta propõe que cada uma das pessoas que assistir ao filme também se rebele, seguindo os exemplos de trabalhadores que ocuparam indústrias desativadas ou alguns moradores que reocuparam suas casas, desobedecendo às ordens de despejo. Moore diz claramente que os EUA hoje “não são” o país que o falecido presidente Franklin Roosevelt propunha, mas que ele não irá deixá-lo. Moore repropõe, ao que parece, a boa e velha desobediência civil.

 

Premiê “maluco”

 

Com tantos assuntos bombásticos, a coletiva do filme de Moore, na tarde de domingo, pegou fogo. Logo de cara, Michael Moore protagonizou uma polêmica ao chamar o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, de “líder conservador maluco”. 
 

O comentário sobre o político italiano veio numa resposta a uma jornalista, que perguntou a Moore se achava que seu filme, que faz duras críticas ao capitalismo nos EUA, teria repercussão também na Europa. O cineasta respondeu: “Mesmo a Europa está sofrendo os efeitos do colapso da economia mundial, que começou em Wall Street, mas afetou a todos. Quanto mais os outros países tentarem nos imitar, mais dificuldades terão. Inclusive com este líder conservador maluco deste país aqui”.

Moore ainda ironizou: “Eu não devia estar dizendo isto, afinal, sou um convidado aqui”. Em seguida, foi aplaudido por uma parte dos jornalistas presentes e depois, riu.
 
Indagado por outra jornalista se tinha intenção de entrar para a política, negou: “Estou muito satisfeito com meus filmes e meus livros, vou continuar com isso. Embora, na verdade, todos estejamos envolvidos em política em nossas vidas diárias. A política não é uma coisa longe de nós”.
 
Ele disse não ter encontrado nenhum obstáculo para realizar seu filme, que faz duras críticas a políticos e empresas norte-americanas, citando seus nomes. E que tem esperança de, com seu trabalho, ajudar a mudar as coisas em seu país. “Tudo é possível. Se me perguntassem há dois ou três anos se seria possível os EUA terem um presidente afro-americano, eu teria dito que não. Continuo me surpreendendo com a capacidade que as pessoas tem de fazer o impossível acontecer quando se revoltam. Como aconteceu na Europa do Leste, na queda do Muro de Berlim”.

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