Festival de Veneza 2009

Todd Solondz retoma seu estilo em “Life During Wartime”

Neusa Barbosa

Veneza - Primeiro norte-americano a debutar na competição em Veneza 2009, Todd Solondz fez também uma dedicada volta às próprias origens com Life During Wartime. Um drama com alguns toques cômicos e que dialoga diretamente com o trabalho mais celebrado do diretor, Felicidade (98) – vencedor do prêmio da Fipresci (Federação Internacional dos Críticos) em Cannes e indicado a um Globo de Ouro de melhor roteiro.

Life During Wartime é também uma produção de qualidade bem acima de trabalhos mais recentes do diretor, em que se incluem Histórias Proibidas (2001) e Palíndromos (2004). O roteiro, também de Solondz, deve algo a Hannah e Suas Irmãs, pelo menos no detalhe de que aqui há também três irmãs – embora o adultério não seja uma das questões do enredo, como no filme de Allen.

Na verdade, os problemas deste conjunto de personagens disfuncionais são bem mais complexos. A primeira irmã, Trish (Allison Janney, de Juno) conta ao próprio filho, Timmy (o estreante Dylan Riley Snyder), que seu pai (Ciarán Hinds, de Munique) está morto. Na verdade, ele estava na cadeia por ser pedófilo – este, um tema recorrente na obra de Solondz, presente também em Felicidade.

Outra irmã, Helen (Ally Sheedy), trocou a poesia por uma carreira de sucesso como roteirista em Hollywood e leva uma vida neurótica. A caçula, Joy (a atriz britânica Shirley Henderson, de O Diário de Bridget Jones), por sua vez, especializou-se como assistente social de presidiários, colecionando relacionamentos com ex-viciados, como Allen (Michael Kenneth Williams, da série The Wire).

O que há mesmo de diferente neste filme é um tom político mais nítido do que em toda filmografia do diretor, e que começa a partir do título Life During Wartime (numa livre tradução, “a vida durante a guerra”). Em mais de um momento dos diálogos, lembra-se que os EUA ainda são um país em guerra. E a grande questão moral que atormenta o menino Timmy e outros personagens, é a possibilidade de perdoar e esquecer, ou fazer um dos dois.

Fala-se também em terrorismo e mesmo no 11 de Setembro – quando o menino Timmy discute a possibilidade de perdão aos terroristas deste atentado e ele mesmo lembra que “estão todos mortos”.

”Prédio fascista”
“É muito legal estar aqui, falando neste prédio fascista fantástico”. Com esta tirada irônica, o cineasta norte-americano Todd Solondz roubou a cena na coletiva de seu filme que terá sua noite de gala nesta terça (3).

Solondz havia sido indagado por um jornalista italiano se estava atualizado sobre a política italiana. Esquivou-se com bom humor, dizendo: “Claro que sei alguma coisa, mas seria tolo fazer algum comentário aqui, na frente de vocês todos”. Em seguida, arrematou com a frase sobre o prédio onde se desenrolam não só as coletivas, mas várias atividades do festival, o Cassino do Lido de Veneza, construído nos anos 30, durante o governo de Benito Mussollini. O festival existe desde 1932 e é o mais antigo do mundo.

Comentando seu novo filme, que toca também questões políticas, como o terrorismo, Solondz admitiu dificuldades financeiras para produzi-lo. “Toda vez que se lida com ideologia, há maiores dificuldades para levantar financiamentos. Isso nada tem a ver com a crise mundial. Mesmo nos melhores tempos, há esse tipo de problema. Aliás, não só para mim, mas para todos os diretores”.

Comentando a frase final de um dos principais personagens, o menino Timmy (Dylan Riler Snyder), que afirma que “não se importa com a liberdade, a democracia, o perdão e o esquecimento” e que “só quer o seu pai”, o cineasta declarou: “É apenas uma frase, um diálogo, escrito para um menino, o que me pareceu comovente. Não sou um intelectual”.

Apesar do componente político de uma história cuja linha dominante gira em torno das possibilidades do perdão e do esquecimento, Solondz disse que só pretende que o público “se abra à experiência do filme como eu me abri a estes personagens”. O diretor garante que só se aproximou destes temas como se aproximou de todos os outros ao longo de sua obra, ou seja, “do ponto de vista da história e dos personagens”. Tudo o mais, segundo ele, “emergiu naturalmente”.

Rotina de água gelada
Não foi nada fácil para o jovem ator australiano Kodi Smit-McPhee, de 13 anos, interpretar um dos protagonistas de A Estrada, de John Hillcoat, que foi exibido em competição no Festival de Veneza ontem (2).

Entre os maiores desafios, Kodi teve de entrar em água gelada, permanecendo com roupas molhadas por bastante tempo, e repetir suas cenas várias vezes. “Foi bem diferente do que pensei”, admitiu, sorrindo, o ator na coletiva do filme, nesta tarde de quinta (3). Ele estrela a produção ao lado do ator norte-americano Viggo Mortensen (Um Homem Bom, O Senhor dos Anéis). Baseado em livro homônimo do escritor Cormac McCarthy, A Estrada tem previsão de lançamento no Brasil em fevereiro de 2010.

Para Viggo Mortensen – que interpreta o pai do menino, que tenta o tempo todo salvar sua vida e encontrar comida num planeta devastado – A Estrada é, basicamente, “uma história de amor”. Por isso, ele acredita também que se trata do livro de McCarthy que tem mais apelo universal. “Acho que em qualquer lugar do mundo se pode entender o que é estar nessa situação dos personagens, num mundo extremo, sem comida, abrigo ou amigos, e onde a qualquer momento o pai pode morrer e deixar seu filho para trás”.

Mesmo que A Estrada aborde, basicamente, um apocalipse que varreu a Terra inteira e transformou a humanidade num bando de fugitivos ou canibais, o diretor do filme, o australiano John Hillcoat, defende: “Acho que esse é o livro mais otimista de McCarthy”.

Hillcoat opina que, apesar de todo o clima pessimista da história do escritor – autor, também, do livro Onde os Fracos Não Tem Vez -, ele aponta uma esperança, já que o menino da história numa determinada altura “tem que optar por um voto de confiança”.


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança